Liderar com Mundo: Shall we dance? (Or shall we lead?)

O que a dança, o teatro e a música nos ensinam sobre liderança.

 

Por Mariana Cunha Amaro, Retail Industry advisor na Microsoft e secretária-geral da PWN Lisbon

 

As artes performativas sempre foram (e continuam a ser) uma paixão minha. Comecei a ter aulas de ballet clássico aos três anos, passei pelo ballet contemporâneo, jazz, hip-hop, tango… e, desde então, não me lembro de um dia em que não oiça música ou que não faça um passo de dança.

Recentemente, e provavelmente motivada pela maturidade que a vida nos dá, também tenho reflectido sobre como este mundo artístico (amador!) me tem influenciado ao longo da carreira e de como acredito que é determinante para a forma como lideramos, especialmente no mundo corporativo.

Deixo as minhas principais conclusões:

1. A liderança é intrinsecamente performativa
Um líder está sempre em palco, tal como está uma bailarina, um músico ou uma actriz. Diariamente, seja em reuniões pequenas, grandes, de tópicos fáceis ou com temas mais desafiantes, existe sempre uma mensagem a passar, com uma audiência a ouvir e um comunicador em destaque, que se está a expor de certa forma perante os outros.

As competências desenvolvidas nas artes performativas ajudam a treinar a postura e a atitude para estes momentos. Permitem adquirir, desde logo, uma maior autoconsciência (por exemplo, uma bailarina tem de conhecer o seu corpo e os seus limites) e uma maior consciência sobre os outros (um músico tem de ser harmonioso, rítmico e respeitar o conjunto). E trabalham pormenores que se tornam diferenciadores numa liderança, como o uso adequado da voz, do silêncio, de determinados movimentos em momentos-chave e das emoções.

Existem conceitos que suportam esta ligação entre artes performativas e liderança, como “embodied leadership” ou “liderança incorporada” – uma abordagem que entende a liderança como algo que não vive apenas na razão, na mente, mas também no corpo, na postura, na respiração, no tom de voz e na forma como a pessoa ocupa o espaço. Em que se valoriza a presença, a consciência corporal e a coerência entre o que se diz e o que se expressa fisicamente.

E também “embodied intelligence” ou “inteligência incorporada” – onde se reconhece que o pensamento não acontece apenas no cérebro, mas também nas sensações físicas, na intuição.

Genericamente, embora com diferenças entre países e culturas, o mundo corporativo tem ainda uma cultura caracterizada por uma sobrevalorização do pensamento e desvalorização do sentir. Vejo assim, na dança, no teatro e na música, a capacidade de introduzir dimensões que permitem um maior equilíbrio entre razão e emoção.

 

2. Num mundo dominado pela inteligência artificial (IA), as competências performativas são diferenciadoras
A IA já nos acompanha desde a década de 50, mas é inquestionável que domina a agenda actual do mundo corporativo. Com a criação de novos modelos, elevada capacidade computacional e disponibilidade de dados para treino, a IA está a automatizar cada vez mais tarefas baseadas em análise, processamento de informação, lógica e cálculo. Perante este contexto, a vantagem competitiva humana já não reside na capacidade de pensar mais rapidamente ou de gerir mais dados. O que distingue – e cada vez mais distinguirá – um líder do futuro é, paradoxalmente, algo que sempre esteve presente, mas que muitas vezes foi desvalorizado: o estar presente, o ser empático e a sua criatividade.

Um líder presente está por inteiro na atenção e na relação, cria um contexto de confiança e adapta a estratégia consoante o ambiente que o rodeia. A empatia, por sua vez, pode ser simulada por IA, mas é a capacidade de a viver, de a ligar a histórias pessoais, que distingue o líder humano – o que motiva, o que inspira, o que cria sentido e que gera compromisso.

Por último, a criatividade humana nasce da emoção, também da vivência e, embora possa ser acelerada e até co-criada com IA, é algo que nos irá sempre distinguir – a capacidade de arriscar e de improvisar. É neste campo que vejo mais uma vez o valor nos hobbies ou práticas performativas que possamos ter: ajudam-nos a treinar aquilo que não será automatizado, ajudam-nos a criar ligações humanas mais autênticas.

 

3. O poder do colectivo é muito mais forte e sustentável do que o heroísmo individual
Na dança há sempre solos e, de uma forma muito natural – ou será algo imposto pela competição? –, qualquer bailarina quer ser escolhida para os fazer. Eu não fugia à regra. Claro que queria ser destacada, que queria ser a protagonista, e claro que queria ser a número um. No entanto, desde cedo percebi que a beleza e a arte de um bailado, de uma música, de um espectáculo, não reside na performance de uma simples pessoa (e nem sempre ser o número um é o melhor!).

O mesmo é verdade no mundo empresarial: há sempre posições de destaque, objectivos a alcançar e competição, mas o sucesso duradouro e sustentável de uma empresa vai depender da confiança na equipa de gestão, das equipas multidisciplinares a colaborarem em prol de objectivos comuns e, sim, com reconhecimento individual, mas também colectivo.

Num palco, se alguém estiver fora de ritmo, se se quiser sobrepor ao outro e não colaborar para o objectivo comum… o público sai desiludido. No mundo empresarial acontece o mesmo, com o resultado de que tanto colaboradores como clientes saem desiludidos e, no limite, o negócio termina sem sucesso.

 

4. As artes são diversas, inclusivas, permitem experimentação e inovação
Embora no passado – e acredito que em algumas situações actuais –, consoante o tipo de dança, música ou performance, existam cenários de desigualdade, a arte tem na sua definição um sinónimo de diversidade. Diferentes corpos, diferentes expressões, diferentes composições, diferentes histórias… tudo é possível, tudo é livre e, por isso, existe um ambiente propício à experimentação e, consequentemente, à inovação.

É esta assim, surpreenda-se o leitor, mais uma área que considero essencial transpor para uma liderança do mundo corporativo, seja ele sector privado, público, académico ou social. As equipas desempenham uma melhor performance quando se podem expressar de forma livre e segura. Um líder que se permita a ser vulnerável cria, a longo prazo, equipas mais sólidas, que permitem o erro, a aprendizagem e a descoberta da solução para os desafios conjuntos.

Em conclusão, listo assim alguns dos benefícios que as artes como a dança, a música e o teatro trazem para a liderança:

Presença e gravitas. Aprendemos a entrar num espaço sem o dominar, a ter uma postura firme, ética e responsável, aplicáveis a qualquer contexto de reunião executiva – apresentação em conferência ou cenário de negociação.

Inteligência emocional e empatia. Aprendemos a escutar o outro e a compreendê- lo, aprendemos a comunicar de forma não verbal, mas muito eficaz – dimensões essenciais em qualquer gestão de equipa.

Adaptabilidade e improvisação. Aprendemos a errar e a ajustar rapidamente, a manter a calma sob pressão, a responder em tempo real, alavancando em toda a experiência passada – capacidades fantásticas para cenários de incerteza, decisões ambíguas ou transformacionais.

Confiança (sem arrogância). Aprendemos a ser assertivos, mas sem penalizar o outro, aprendemos a avançar seguros – algo essencial numa tomada de decisão e na construção de equipas coesas e íntegras.

Criatividade e pensamento estratégico. Nas artes performativas, o reconhecimento de padrões, ritmos e timings é essencial, assim como o pensar fora da caixa. Não é este também um equilíbrio essencial ao sucesso no mundo corporativo?

Considero, assim, que existe de facto uma ligação muito forte entre as artes performativas e a liderança, e que, se trabalharmos de forma combinada todas estas dimensões, ganhamos mais oportunidades de nos tornarmos líderes ainda mais completos, com mais mundo. Líderes que sentem, escutam, improvisam e constroem em conjunto. No fundo, líderes que não apenas sabem o passo, mas sabem quando, como e com quem dançar. Shall we lead?

 

Este artigo foi publicado na edição de Janeiro (nº. 181) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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