Mas por que raio fazemos jantares de Natal? Notas sobre DEI e Sustentabilidade

E já cá estamos de novo, na época das luzes, brilhos, festas, celebrações, presentes e também muitos sorrisos em falsete.

Por Isabel Moço, coordenadora e professora da Universidade Europeia

E já cá estamos de novo, na época das luzes, brilhos, festas, celebrações, presentes e também muitos sorrisos em falsete. Ah, verdade, e dos jantares de Natal da empresa, essa espécie de ritual onde todos estão sempre super divertidos, alegres, confiantes e esperançosos num amanhã melhor – será? Embora os jantares de Natal sejam uma tradição que muitos aguardam com entusiasmo, e outros não, oferecem uma oportunidade valiosa para refletirmos sobre como podemos torná-los ainda mais inclusivos e significativos. Registamos aqui algumas considerações para quem os organiza e que podem, efetivamente, trazer uma diferença – não só nesta época, mas em qualquer uma.

  • A celebração – seja um simples lanche ou uma faustuosa festa, pode ser pensada como espaço de expressão de sérias políticas e práticas de diversidade:
    • Reconhecendo as diferenças, pois cada pessoa traz consigo um património pessoal e uma matriz cultural única. Ao planear a celebração, considere representar as diversas tradições dos membros da equipa, por exemplo, na comida. Isso não só enriquece a experiência, mas também promove um ambiente de respeito e inclusão, para além do que geralmente se expressa por um enorme orgulho nas origens – nem que seja só a sobremesa, ou na decoração. Já pensou numa mesa decorada de acordo com as tradições do local de origem das pessoas?
    • Opções para todos, considerando cada um, o que pode ser num menu que atenda a diferentes preferências alimentares (vegetarianos, veganos, intolerâncias ou regionais) ou mesmo no tipo de animação, ou decoração. Podem ser formas simples de mostrar que todos são considerados e valorizados, embora também a “festa temática” possa ser uma forma de o fazer, não podendo é ser sempre no mesmo registo.
    • E convidar cada pessoa diferente a partilhar a sua perspetiva, com a indumentária, com música, famílias ou tradições?
  • Promover a Equidade – Quando uma organização anuncia políticas de equidade, e tudo faz para as seguir, é só parolo não as representar em momentos como as celebrações de Natal. Aqui ficam algumas ideias, que não sendo “rocket science”, por vezes parecem fugir ao bom senso:
    • A participação deve efetivamente ser voluntária e ninguém se sentir “coagido” a marcar presença. É importante criar um ambiente onde a participação na celebração seja, realmente, opcional, e não uma obrigação, pois assegura que todos se sintam confortáveis e desejados. São muitos os que ficam “chocados” pela pouca adesão, mas se isso acontecer, foquem-se em perceber as causas e não nas “medidas corretivas”.
    • Reconhecimento Individual: Aproveitar a ocasião para reconhecer o esforço e as conquistas de todos e de cada um, pode ser uma ação importante. Uma breve cerimónia de agradecimento pode fazer com que cada pessoa se sinta valorizada e parte integrante da equipa.
  • A Sustentabilidade é, e deve ser sempre, um tema presente em cada momento da vida das organizações. Faz algum sentido promovê-la e defendê-la em todas as frentes e depois, numa celebração, desperdiçar, desaproveitar e até ostentar? Um racional de posicionamento coerente, deverá espelhar sustentabilidade também nestes momentos, e aqui ficam algumas pistas:
    • Fazer escolhas conscientes que vão desde a seleção do local ao menu, ou mesmo ao “presente”, onde devemos considerar opções que valorizem a sustentabilidade.
    • Redução do desperdício, planeando um evento com atenção ao número de participantes e às quantidades de comida. Isso pode ajudar a minimizar o desperdício e promover práticas responsáveis. Mas se sobrar, o que é frequente, que vamos fazer? É para as pessoas, vamos entregar a uma instituição ou pessoas que necessitem? Por vezes, até chegamos a este ponto, mas será que as próprias pessoas da organização, não precisariam e valorizariam esse excedente?
    • Decorar com foco na sustentabilidade: As decorações reutilizáveis ou feitas com materiais reciclados, podem ser muito significativas para a mensagem. Então, e se forem os colaboradores a fazê-las, com uma espécie de concurso interno? E se envolver as famílias, não seria excelente?

Os jantares de Natal podem ser uma oportunidade maravilhosa para celebrar em conjunto, fortalecer laços e criar memórias corporativas. Ao atender a “regras” como a diversidade, equidade e sustentabilidade, e representá-las em todas as opções, podemos estar a garantir que este evento seja verdadeiramente especial para todos os colaboradores. Fazemos jantares de Natal porque o espírito natalício é sobre união, respeito e celebração das diferenças que nos tornam únicos, e esse deve ser o “Norte” de quem os faz – mas não será também o “Norte” de uma boa gestão de pessoas?