Máscaras e intraempreendedorismo

O Carnaval dá-nos uma licença simbólica (ou a desculpa perfeita?) para usarmos máscaras – não para mentir, mas para experimentarmos outros papéis. Curiosamente, no trabalho acontece o inverso: espera-se muitas vezes que sejamos “autênticos”, mas não demasiado – preferencialmente dentro de um corredor estreito de comportamentos aceitáveis.

 

Por Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer da ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs

 

E é aqui que surge a pergunta decisiva para o intraempreendedorismo: até que ponto podemos, de facto, ser nós mesmos nas organizações? No quotidiano organizacional, a autenticidade raramente é “ausência de máscara”. É, na prática, uma negociação permanente entre identidade pessoal e expectativas sociais. O Carnaval é particularmente útil como metáfora organizacional porque, historicamente, é um “tempo liminar”: um intervalo antes de um ciclo de disciplina (a Quaresma), em que a ordem é temporariamente suspensa. Sinaliza a aproximação do jejum e reforça a ideia de transição entre abundância e contenção. E isto leva-me a questionar: até que ponto podemos ser autênticos? E quando a autenticidade se torna “incómoda”?

O “tempo liminar” é, por definição, um tempo de “entre e no meio” (betwixt and between). Trata-se de uma fase intermédia, frequentemente desorientadora, em que as referências habituais de tempo, espaço e comportamento parecem suspensas. Quem já esteve no Carnaval de Torres Vedras sabe do que falo e de como se vive intensamente o período carnavalesco! É também um tempo de transformação e incerteza. Marcado pelo “não saber”: pela ambiguidade, pela ansiedade e pela exposição à dúvida. No entanto, é precisamente essa ausência de definição que lhe confere um enorme potencial criativo. Ao libertar as pessoas das identidades e rotinas cristalizadas, este período abre espaço à experimentação, à aprendizagem e ao crescimento, individual e colectivo.

Por fim, o tempo liminar corresponde à quebra de rotina. O “velho normal” foi abandonado ou deixou de funcionar, mas o “novo normal” ainda não está estabelecido. É neste intervalo que as organizações se tornam mais permeáveis à mudança, porque o futuro ainda pode ser moldado. O tempo liminar não é confortável, mas é fértil, e é nele que o intraempreendedorismo encontra o seu terreno mais propício.

É precisamente aqui que a máscara ganha vida: no Carnaval, a máscara oferece anonimato, licença e experimentação; no trabalho, surge como adaptação social. Usamos a máscara da competência (para não parecermos “ignorantes”), a máscara da neutralidade emocional (para não “complicar”) e a máscara da conformidade (para não “desafiar” o tom dominante). O problema não é usar máscaras; é quando a organização só permite uma e penaliza todas as outras expressões de identidade, dúvida ou diferença.

Daí o paradoxo: muitas organizações dizem valorizar autenticidade e inovação, mas reagem mal quando alguém aparece sem a máscara certa. O “it’s what it is” pode ser libertador enquanto aceitação realista; mas também pode funcionar como resignação cultural, uma forma elegante de dizer “não vale a pena mexer”. O intraempreendedor desafia precisamente esse fatalismo e, ao fazê-lo, pode colidir com as normas implícitas, com egos e com políticas internas.

Neste contexto, a competência intraempreendedora não é escolher entre ser autêntico ou usar máscaras. É desenvolver “autenticidade com inteligência”: saber do que não se abdica (valores, intenção, integridade), mas adaptar a forma (linguagem, timing, enquadramento) para aumentar a probabilidade de as ideias serem ouvidas. Por vezes, “ser eu próprio” não é dizer tudo como penso; é ser fiel ao propósito, enquanto escolho a máscara que abre a porta certa.

Em termos de políticas de Recursos Humanos, o ganho prático é claro: se a organização quer intraempreendedorismo, precisa de políticas que reduzam o custo social de retirar/trocar máscaras. Se a cultura penaliza o incómodo, isto é, o questionamento informado, a tensão criativa e a fricção produtiva, então a organização não está a bloquear pessoas: está a mascarar o problema e a bloquear o futuro.

Promover o intraempreendedorismo implica criar espaços onde seja seguro retirar a máscara. O Carnaval lembra-nos que a criatividade e a inovação precisam de um espaço social onde o diferente e a ousadia não sejam automaticamente punidos, mas antes apreciados e quiçá até celebrados.

Afinal, é Carnaval e ninguém devia levar a mal…

 

Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro (nº. 182) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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