Menos respostas, mais perguntas

Margarida Lopes
10 de Julho 2019 | 13:25
Menos respostas, mais perguntas

Quanto mais vamos avançando na carreira de Recursos Humanos, mais vamos sendo expostos a situações e contextos mais complexos e menos convencionais. Para os enfrentar, é mais importante a capacidade de formular boas perguntas do que de encontrar as respostas certas.

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Por Paulo Pisano, director de Pessoas na Galp

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Ainda no início da minha carreira, transitei da área de consultoria de gestão para a de Recursos Humanos. Nesse movimento, uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o nível de exposição que ganhei junto do top management, apesar de ainda estar no início. De repente, os meus clientes internos passaram a estar três ou quatro níveis funcionais/hierárquicos acima dos colegas que tinham a minha idade. O desafio foi instantâneo: desenvolver conhecimento mínimo dos temas da minha nova função de forma a ter a credibilidade necessária para fazer o meu trabalho. A situação que vivi não foi uma excepção – ao longo dos anos fui observando que esta dinâmica prevalece no mundo dos Recursos Humanos. Esta dinâmica é também parcialmente responsável por alguns dos problemas que temos enfrentado na nossa profissão. No mundo dos Recursos Humanos é muito comum que jovens profissionais tenham acesso aos escalões mais altos das organizações em que trabalham e que tenham de adquirir conhecimentos de uma forma acelerada para dar boas respostas – as resposta correctas – aos temas de seus clientes. Assim sedimentam a sua credibilidade. Até aí, nada de errado. É natural, e bom, que desenvolvamos o nosso conhecimento técnico o mais rápido e profundamente possível.

O tema é que, quanto mais vamos avançando na carreira de Recursos Humanos, mais vamos sendo expostos a situações e contextos mais complexos e menos convencionais. Seja no trabalho, ajudando a desenvolver equipas de gestão de alto desempenho, orientando um processo de integração de dois negócios diferentes numa aquisição, ou ajudando no desenvolvimento de novas políticas ou resolução de dilemas éticos, o facto é que a natureza dos desafios fica cada vez menos binária e as respostas supostamente correctas menos claras. A experiência certamente ajuda, mas a jurisprudência e os análogos tornam-se mais escassos.

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A forma como temos de enfrentar estes temas passa a depender menos da nossa capacidade de ter – ou encontrar – as respostas certas, e muito mais da nossa capacidade de formular boas perguntas; de ajudar colegas e equipas a reflectirem na maneira como trabalham e a encontrar melhores formas de colaborar, , a tomarem decisões mais consistentes e rigorosas e a desenvolverem a sua capacidade de aprender e de ensinar. Esta forma de agregar valor tende
a não ser desenvolvida de forma natural quando a nossa atenção está sobrefocada em construir uma base sólida de conhecimentos puramente técnicos e respostas credíveis. Acabamos por ficar fechados numa perspectiva pouco sistémica e muito cartesiano-mecanicista. Não digo que essa base teórica não seja importante, mas sim que, também desde cedo, devemos trabalhar no desenvolvimento de outras habilidades e formas de pensar que nos preparem para uma maneira diferente de criar valor para as organizações e equipas com as quais trabalhamos.

No meu percurso profissional, sinto que foram as experiências complementares que fui buscar em áreas como coaching, meditação, filosofia e improviso, ou até mesmo o simples facto de trabalhar com distintas nacionalidades e culturas, que melhor me prepararam para os desafios que hoje compõem a maior parte de meu trabalho. Portanto, fica o convite, ou melhor, a questão: como criamos oportunidades, fora da caixa, a fim de encontrarmos inspiração e novas competências para sermos melhores e mais criativos parceiros com os nossos clientes?

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Este artigo foi publicado na edição de Junho da Human Resources.

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