Intraempreender na imperfeição

Decidi escrever sobre decisões. Foi a decisão possível, reconheço que não foi a decisão perfeita. Queremos sempre os melhores processos, as melhores estratégias e as melhores decisões. Para atingirmos, claro, os melhores resultados. No entanto, existe um pequeno “constrangimento” quando tomamos decisões: nós próprios, por sermos humanos. Leia o artigo de Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs.

Human Resources
16 de Julho 2026 | 14:00

Por Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs

 

Mas será que isto é realmente um problema, ou antes uma espécie de felicidade subvalorizada? Convido à vossa reflexão. A nossa capacidade de compreender a realidade é limitada. A informação que recebemos é incompleta. O tempo disponível para decidir é escasso. E o futuro tem a desagradável tendência de não respeitar os nossos planos. Que mundo este…

Herbert Simon foi um dos primeiros investigadores a reconhecer esta realidade ao desenvolver o conceito de racionalidade limitada. Ao contrário do que pressupõem alguns modelos económicos, as pessoas não dispõem de toda a informação, nem de capacidade ilimitada para a processar. As decisões que tomamos são, por isso, as melhores possíveis dentro das restrições existentes. E, forçosamente, suboptimais. “É o que temos”, numa expressão corrente no nosso quotidiano.

Esta constatação pode parecer pouco animadora. Mas talvez seja precisamente o contrário. Se aceitarmos que a perfeição é impossível, deixamos de a procurar. E quando deixamos de perseguir a decisão perfeita, ganhamos liberdade para agir, experimentar e aprender. É neste contexto que o intraempreendedorismo possível floresce.

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Os intraempreendedores não esperam por condições ideais porque sabem que estas raramente chegam. Há circunstâncias. Estes identificam oportunidades e propõem soluções antes de existirem todas as respostas. Avançam, sabendo que alguns pressupostos serão ajustados ao longo do caminho. Deixam fluir. Afinal, quem não arrisca não petisca. “Sensemaking”… dizem os mais sábios.

Naturalmente, para lidar com a complexidade, recorremos a heurísticas – atalhos mentais que simplificam decisões. Estes mecanismos ajudam-nos a agir rapidamente, mas também dão origem a enviesamentos. Procuramos evidências que confirmem as nossas crenças, sobrestimamos a nossa capacidade de previsão e tendemos a interpretar o futuro através das experiências mais recentes. Assim somos nós, humanos, naturalmente enviesados!

Mas estes “erros” não são defeitos de fabrico. São consequências inevitáveis de um cérebro que precisa de decidir num mundo demasiado complexo para ser analisado em detalhe. Mas também se vendem cursos sobre “enviesamento inconsciente”, para quem queira aprender mais sobre o assunto. É uma escolha.

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A intuição surge igualmente deste processo. Longe de ser um fenómeno mágico, ou um bitaite, resulta frequentemente da experiência acumulada e da capacidade de reconhecer padrões. Quando um colaborador experiente sente que uma ideia tem potencial ou que um projecto necessita de ajustes, pode não conseguir explicar imediatamente porquê. Ainda assim, essa percepção pode reflectir anos de aprendizagem silenciosa. E convém juntar dados ao feeling, para o robustecer e apresentar às chefias. Nunca vi nenhum pitch começar por “I got a feeling…”.

Talvez esta seja uma das lições mais importantes para organizações e líderes: a inovação não nasce da eliminação da imperfeição. Nasce precisamente da capacidade de se trabalhar com ela. Estratégia em tempo real, ou a capacidade de se improvisar, quando só se vê o nevoeiro ao fundo, mas é preciso avançar.

A informação será sempre incompleta. O tempo será sempre insuficiente. As decisões serão sempre tomadas com algum grau de incerteza. E talvez precisamente por isso deveremos continuar a criar, a aprender e a inovar.

A vida é perfeitamente imperfeita e as organizações também. Será que estamos a saber viver com isso? É tempo de decidir.

 

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Este artigo foi publicado na edição de Junho (nº. 186) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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