Mulheres na Ciência e Tecnologia: o caminho para a liderança

Por Sofia Ferreira, directora-geral da Organon Portugal 

 

Nos últimos anos, temos assistido a um aumento expressivo da presença feminina nas áreas da Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM). No entanto, quando olhamos para os lugares de decisão, a realidade é diferente. As lideranças das instituições académicas, laboratórios de investigação e empresas do sector continuam a ser predominantemente masculinas1.

Isto levanta uma questão fundamental: será que o caminho das mulheres para a liderança na ciência é mais difícil do que o dos homens? A resposta não é simples, mas existem desafios estruturais e culturais que dificultam o acesso das mulheres a cargos de liderança.

Persiste uma cultura organizacional onde os padrões de liderança foram historicamente desenhados para um modelo masculino, muitas vezes incompatível com as realidades e expectativas sociais que incidem sobre as mulheres. A conciliação entre vida profissional e pessoal continua a ser um obstáculo significativo, especialmente quando ainda recai, desproporcionalmente, sobre as mulheres a responsabilidade pela gestão da vida familiar.

Ao longo da minha carreira, senti esse desafio de forma muito concreta. Como mulher líder, tive de aprender a equilibrar os vários papéis que fazem parte da minha identidade: profissional, mãe, gestora de uma casa e de uma família. A gestão do tempo tornou-se um exercício diário, com a necessidade de garantir espaço para o autocuidado e para manter o equilíbrio entre carreira e vida pessoal. A tentação de deixar a carreira absorver todos os outros papéis é real, mas é essencial estabelecer limites e prioridades.

Mas como podemos inverter esta situação?

Em primeiro lugar, é necessário promover políticas mais inclusivas e flexíveis, que permitam uma melhor conciliação entre a vida profissional e pessoal, tanto para mulheres como para homens. A diversidade é uma mais-valia para a cultura e desempenho de uma organização. Em segundo, é fundamental aumentar a visibilidade de mulheres líderes na ciência, para que outras possam encontrar referências e inspiração. As nossas raparigas precisam de se ver representadas, pois tal abre caminho para a inspiração e para a possibilidade. Além disso, a formação em liderança e desenvolvimento de carreira deve incluir estratégias específicas para apoiar as mulheres neste caminho.

A mudança também passa por todos nós, como sociedade. Precisamos de quebrar estereótipos, incentivar mais mulheres a ambicionar cargos de liderança e, sobretudo, garantir que têm as mesmas oportunidades de crescimento do que os homens.

A ciência e a tecnologia são pilares do futuro. E esse futuro tem de ser construído com lideranças verdadeiramente diversas e representativas. O talento não tem género. As oportunidades também não deviam ter.

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1 Relatório “She Figures 2021”, da Comissão Europeia, citado em notícia do Eco: “Há cada vez mais mulheres na ciência, mas ainda poucas a liderar laboratórios, universidades e empresas”. Consultado em: Há cada vez mais mulheres na ciência, mas ainda poucas a liderar laboratórios, universidades e empresas – ECO. Estudo da Informa D&B de 2024 revela, também, que as mulheres ocupam apenas 30% dos cargos de gestão e 27% dos cargos de liderança em Portugal, apesar de constituírem 50% da população ativa e possuírem, em média, níveis de escolaridade superiores aos dos homens (informação em: Mulheres em 30% dos cargos de gestão e desigualdade é maior nas grandes empresas – estudo – CIG).

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