
Negociar salário já não é “tabu”, é sinal de literacia financeira. Veja como preparar-se para uma conversa bem-sucedida
Durante demasiado tempo, falar de salário foi visto como um tema sensível nas organizações portuguesas. O receio de ser mal interpretado ou de comprometer relações profissionais levava muitos colaboradores a evitar conversas sobre remuneração. Mas esse paradigma está a mudar, e, no centro dessa mudança, está um factor determinante: a literacia financeira.
Por Sofia Croft, head of People and Culture no ComparaJá
A crescente pressão do custo de vida, a mobilidade profissional e a facilidade de acesso à informação estão a transformar a forma como os profissionais encaram a sua remuneração. Com mais dados, mais ferramentas e mais consciência do seu valor de mercado, os trabalhadores sentem-se cada vez mais encorajados a iniciar conversas francas com os seus empregadores. Por sua vez, as organizações mais preparadas estão a adaptar-se, reconhecendo que a transparência salarial já não é apenas uma vantagem competitiva, é uma expectativa legítima.
Os pedidos de revisão salarial em Portugal aumentaram 35% no último ano, com maior incidência nos sectores da tecnologia, finanças e marketing digital. Esta tendência global mostra-nos um mercado de trabalho em evolução, onde o talento procura reconhecimento não só através de palavras, mas também de condições concretas.
Para as empresas, este movimento exige uma abordagem mais estruturada à gestão da compensação. Ciclos regulares de revisão salarial, critérios objectivos, benchmarking interno e externo, e um discurso transparente sobre remuneração são hoje práticas essenciais para atrair e reter talento.
Do lado dos profissionais, negociar salário já não é visto como um ato de confrontação, mas como uma competência que integra a gestão de carreira. Ferramentas como as calculadoras de salário líquido, por exemplo, a disponibilizada pelo Comparajá, com as novas tabelas de IRS já actualizadas, são recursos valiosos para tomar decisões fundamentadas. Saber qual será o impacto líquido de uma alteração salarial permite preparar melhor uma negociação e gerir expectativas.
Para que estas conversas tenham sucesso, importa seguir algumas boas práticas:
- Estudo do mercado: conhecer os valores praticados no sector e na função específica.
- Evidência de resultados: apresentar contributos concretos para os objectivos da organização.
- Escolher o momento certo: pós-avaliações de desempenho, assunção de novas funções ou conclusão de projectos relevantes.
- Escuta ativa e abertura: negociar implica construir pontes e encontrar soluções, nem sempre apenas salariais.
Para os departamentos de Recursos Humanos, esta realidade representa uma oportunidade de reforçar a relação de confiança com os colaboradores. Mais do que uma questão de remuneração, estamos a falar de cultura organizacional. Uma cultura onde a equidade, o reconhecimento e a clareza são levados a sério.
Negociar salário deixou de ser tabu. É hoje uma expressão de maturidade profissional — tanto de quem a inicia como de quem a conduz. E quanto mais normalizado for este processo, mais saudável será o ecossistema laboral. A literacia financeira, nesse contexto, é um pilar que deve ser promovido activamente pelas empresas, através de formação, comunicação interna e políticas transparentes.
Num mercado cada vez mais exigente e competitivo, saber falar de dinheiro é, também, uma forma de valorizar o talento.