Novas formas de avaliar talento e potencial

Human Resources
23 de Fevereiro 2020 | 21:03
Novas formas de avaliar talento e potencial

A maior parte das empresas compreende que precisa de atrair estrelas de topo – e competir ferozmente por elas – para prosperar no mercado. A dificuldade é conseguir fazê-lo de forma adequada.

 

Por Josh Bersin e Tomas Chamorro-Premuzic, publicado originalmente na MIT Sloan Management Review

 

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O eterno desafio de encontrar as pessoas certas e alinhá-las com os cargos certos tornou-se ainda mais complexo agora que a Inteligência Artificial (IA) e a robótica estão rapidamente a mudar os empregos, e as competências técnicas necessárias são escassas. Enquanto a maioria das organizações ainda depende de métodos de contratação tradicionais como análise de currículos, entrevistas e testes psicométricos, uma nova geração de ferramentas de avaliação está rapidamente a ganhar terreno e, argumentamos, a tornar a identificação de talento mais precisa e menos enviesada.

Certas coisas permanecem constantes e não devem mudar tão depressa. Ao avaliarem os candidatos, os gestores tentam prever o desempenho profissional, analisando ao mesmo tempo o alinhamento cultural e a capacidade de desenvolvimento. Estudos mostram que os gestores procuram três traços básicos: capacidade, que inclui conhecimentos técnicos e potencial de aprendizagem; solidariedade, ou competências pessoais; e motivação, que envolve ambição e ética profissional.

Aquilo que necessitamos das ferramentas e métodos de identificação de talento – antigos e novos – permaneceu inalterado. Para avaliar a sua eficácia, devemos procurar uma forte correlação entre as classificações dos candidatos e o subsequente desempenho no cargo. Isto pode parecer óbvio, mas descobrimos no nosso trabalho com recrutadores e gestores de contratação que muitos deles usam ferramentas baseadas na facilidade e na familiaridade – e raramente as ligam a resultados.

Os métodos de avaliação recentes podem ser agrupados em três categorias abrangentes: avaliação gamificada, entrevistas digitais e análise a dados dos candidatos. O que têm em comum é a sua capacidade de detectarem sinais de novo talento (ou seja, novos indicadores de potencial de desempenho). Aqui explicaremos como funciona cada um destes métodos e os seus pontos fortes e fracos.

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Avaliações gamificadas

Uma nova vaga de testes psicométricos para o recrutamento concentra-se na melhoria da experiência do candidato. Estas ferramentas aplicam características de jogos, assim como feedback em tempo real, cenários interactivos e imersivos, e módulos mais curtos, que fazem com que os testes sejam mais aprazíveis. As escolhas e os comportamentos dos utilizadores são analisados por algoritmos computorizados que identificam a adequabilidade para determinado cargo.

Por exemplo, o MindX, da HireVue, usa testes gamificados para capacidades cognitivas ao pedir aos utilizadores para experimentarem jogos modernos – como o Brain Age da Nintendo – para prever o Quociente de Inteligência (QI). A Pymetrics fez algo de semelhante com testes psicológicos clássicos como o Balloon Analogue Risk Task, que avalia a impulsividade de um candidato e a capacidade de correr riscos, ao examinarem até que ponto enchem balões até se expandirem antes de rebentarem (balões maiores significam mais recompensas, mas não recebem nada se rebentarem).

A Arctic Shores, que é frequentemente usada para avaliar alunos da faculdade, coloca os candidatos a passar por algo semelhante a jogos “arcade” dos anos 90 e relaciona as suas escolhas com traços de personalidade e competências. À medida que este tipo de ferramenta é usada com mais frequência em ambientes onde as contratações são frequentes, os fornecedores de ferramentas reúnem dados suficientes para demonstrarem ligações significativas entre as classificações dos candidatos nos jogos e o seu desempenho profissional.

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Além disso, muitas empresas estão a criar as suas próprias avaliações gamificadas, que posicionam no cruzamento entre contratação e marketing. Por exemplo, o Wingfinder da Red Bull está disponível ao público em geral e costuma atrair candidatos através das redes sociais da empresa de bebidas. Os candidatos recebem um relatório extenso sobre os seus pontos fortes e fracos, independentemente de serem considerados ou não formalmente para um cargo.

Apesar dos benefícios da gamificação para o branding e o marketing, além do óbvio apelo de oferecer uma experiência de avaliação mais agradável – que pode resultar num número maior de candidatos – esta abordagem para a identificação de talento tem duas desvantagens. Primeiro, existe uma tensão natural entre divertimento e rigor. Quanto mais interessante e agradável a experiência, menos preditiva tende a ser, isto porque obter uma imagem abrangente dos antecedentes de um candidato exige testes mais longos e o tempo é inimigo do divertimento. Segundo, para oferecer uma experiência de avaliação “popular”, principalmente se for comparável a alguns dos jogos que as pessoas jogam por divertimento, os custos aumentam significativamente. Uma coisa é criar um tipo de Q&A normal, outra coisa é criar experiências de jogo imersivas para os candidatos – e os orçamentos de aquisição de talento são normalmente bastante limitados no que toca a ferramentas de avaliação.

Entrevistas digitais

O segundo grande desenvolvimento da identificação de talento é o uso generalizado de entrevistas digitais. À primeira vista, estas ferramentas assemelham- -se a qualquer outra tecnologia de videoconferência, mas oferecem mais algumas vantagens.

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Para começar, os entrevistadores ou responsáveis pelas contratações conseguem colocar as suas perguntas na plataforma para criar um protocolo de entrevistas (consistente e repetível) que os stakeholders podem usar para os diálogos com candidatos, o que os ajuda a fazer comparações justas e correctas. Alem disso, podem ser usados algoritmos para sinalizar e interpretar sinais de talento relevantes (expressões faciais, tom de voz, emoções como ansiedade e entusiasmo, linguagem, cadência, enfoque, entre outras), substituindo as observações humanas e inferências intuitivas por triagens e classificações estimuladas por dados.

As pesquisas há muito sugerem que as entrevistas de emprego são mais preditivas quando são uniformizadas – ou seja, quando todos os entrevistados passam pelo mesmo processo e existe uma classificação predefinida para compreender as respostas. Tendo isto em conta, as entrevistas em vídeo podem aumentar o rigor das descobertas, reduzindo os custos e fazendo com que as organizações de contratações operem com escala (nos diálogos com executivos de Recursos Humanos, ficámos a saber que empresas como a JP Morgan Chase e a Walmart fazem milhares de entrevistas por vídeo todos os anos).

Uma questão sobre essas plataformas é a tendência para imitar e reforçar tendências inerentes a qualquer processo de entrevista. Isso é certamente uma limitação. Se as pessoas responsáveis pelas contratações forem tendenciosas, não é de esperar que a IA acabe com esse problema. Para complicar ainda mais a questão, se essas mesmas pessoas tiverem de avaliar o desempenho dos recém-contratados, as suas tendências serão ocultadas. Do ponto de vista estatístico, podem ter previsto correctamente o desempenho futuro com a sua selecção de candidatos – mas até certo ponto, essa profecia cumpre-se a si própria.

É claro que tomar decisões tendenciosas sobre os resultados que avaliam o desempenho é algo que não mudará com os modelos de aprendizagem das máquinas (embora se obtenham resultados mais rápidos). Uma forma de abordar esta questão é criar um menor enfoque nos traços individuais, por exemplo, e um maior enfoque nos resultados de grupo, como os números de produtividade e de receitas.

Para os gestores também é útil usar análises 360, porque distribuem as avaliações do desempenho por diferentes stakeholders, mitigando as tendências individuais. Outra opção é “ensinar” os algoritmos de forma a ignorarem os sinais que prevêem as tendências humanas, mas não o desempenho profissional (como género, idade, classe social e raça). Os fornecedores de ferramentas como a HireVue dizem-nos que o fazem para eliminarem o impacto da cor da pele na altura de decidir contratar, por exemplo.

Exploração dos dados dos candidatos

A terceira nova abordagem, explorar passivamente os dados sobre os candidatos e analisar o rasto digital das pessoas, está também a crescer rapidamente. Ainda que seja mais usada para entregar mensagens personalizadas no Marketing e na Publicidade, é igualmente aplicável na identificação de talento nos Recursos Humanos. O comportamento online pode revelar informações sobre interesses, personalidades e capacidades dos indivíduos, o que por sua vez adivinha a adequabilidade para cargos ou carreiras em particular. Por exemplo, muitos responsáveis por contratações investigam a reputação dos candidatos, o que seguem e o nível de autoridade em redes como o LinkedIn e o Facebook, e usam essa informação para classificá- -los. O LinkedIn e o Entelo fornecem ferramentas que fazem isto automaticamente para os recrutadores, dando-lhes uma gama de classificações que ajudam a avaliar candidatos. Embora haja uma grande diferença entre métricas de popularidade e potencial real, os sites de networking representam um feedback real dos pares, por isso os recrutadores consideram-nos muito preditivos.

A análise passiva a dados tem sido cuidadosamente examinada em estudos que sublinham ligações consistentes entre a actividade nas redes sociais das pessoas e qualidades importantes para o cargo que irão desempenhar. Por exemplo, uma equipa de investigadores mostrou ligações estáveis entre os grupos de quem as pessoas gostavam no Facebook e os traços mais gerais, como se são mais ou menos extrovertidos ou afáveis. Tendo em conta que esses traços têm estado sistematicamente associados a um bom desempenho em diferentes cargos, as descobertas sugerem que os dados do Facebook podem oferecer informações úteis aos empregadores sobre o possível alinhamento com um determinado cargo ou função. Além disso, os traços de carácter extraídos do comportamento no Facebook e noutras redes sociais – como as palavras que as pessoas usam no Twitter, em blogues ou em emails – são indicadores de capacidades, afabilidade e motivação.

Há, porém, um lado negro nesta capacidade, porque expõe a vida pessoal dos candidatos a um intenso escrutínio (principalmente os da Geração Z, muitos dos quais usam redes sociais quase desde que nasceram). As organizações devem pensar em respeitar a privacidade das pessoas, obtendo as informações de que precisam para tomarem decisões acertadas. Mesmo que a fronteira entre a vida pública e privada se tenha esbatido, é ético assegurar que as pessoas sabem como os seus dados são usados.

A ética da identificação de talento

Claro que é essencial que quaisquer ferramentas para a avaliação de talento e recrutamento sigam directrizes éticas. Embora regulações legais, como o Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD), dependam do contexto – e principalmente do mercado – duas considerações básicas são fundamentais na administração.

· Promover consentimento e consciencialização: actualmente, existe uma diferença considerável entre o que os candidatos acreditam que os empregadores sabem sobre eles e o que os empregadores realmente sabem – e as organizações que contratam têm a obrigação ética de fazerem o possível para colmatar essa lacuna. Os candidatos são incluídos em todas as etapas do processo de identificação de talento? Compreendem o que é feito com os seus dados? Têm oportunidade de fornecer ou recusar consentimento dos dados que são analisados? Se os empregadores (e os fornecedores de ferramentas) não forem transparentes em todo o processo, as marcas podem sofrer um dano enorme.

· Apoiar a equidade: é também importante considerar até que ponto as ferramentas de contratação são úteis para certos grupos de candidatos, principalmente pessoas de cor, mulheres e indivíduos de extracto socioeconómico baixo. Isto há muito que representa um problema para a identificação de talento, mas as ferramentas de avaliação cientificamente defensíveis (como testes psicométricos cuidadosamente validados) esforçam-se para aumentar a capacidade de previsão, ao mesmo tempo que reduzem os riscos de discriminação. As ferramentas e métodos mais recentes devem ser escrutinados pela mesma perspectiva.

Por exemplo, os sinais em vídeo ou discurso identificados como indicadores de talento podem também reflectir antecedentes sociais e educacionais; seleccionar pessoas com base nesses sinais pode resultar numa força de trabalho mais homogénea. As organizações devem compreender que é possível tomar decisões meritocráticas que prejudicam a equidade social, porque os melhores candidatos no papel podem também ser os mais privilegiados – os que tiveram uma educação elitista e beneficiaram de redes de conhecimentos extensas.

Todos os anos, milhões de pessoas procuram mudar de emprego – e os empregadores devem avaliar esses candidatos. À medida que as novas ferramentas para avaliar talento se tornam mais maduras, o custo diminui, e mais empresas as podem adoptar para melhorar o processo e produtividade dos bons colaboradores. Estarão as organizações prontas a usar estas ferramentas com eficiência e responsabilidade? Acreditamos que sim, desde que os líderes de Recursos Humanos e Gestão avaliem cuidadosamente os temas referidos.

Contratar a pessoa certa é provavelmente a decisão mais importante que um gestor toma. Se as máquinas conseguem tornar este processo mais preciso e menos enviesado, todos os negócios podem ver tremendos benefícios.

 

Este artigo foi publicado na edição 104 da Human Resources. 

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