O desafio como proposta de valor

A Gestão de Pessoas é hoje uma disciplina cada vez mais complexa nas organizações. E não o é por se desconhecerem os factores ou as técnicas. Neste capítulo, não nos falta conhecimento e o investimento das empresas e pessoas em ferramentas é crescente. A complexidade adensou-se porque as pessoas passaram a ser mais imprevisíveis. Nós próprios. Todos nós.

 

Por António Henriques, CEO do Grupo CH

 

Este não é seguramente um problema de patrões ou colaboradores, líderes ou liderados. Poderá questionar-se se as organizações estão a perder significado na vida das pessoas. Provavelmente estão. Sinais dos tempos e de um mundo cada vez mais rápido e incoerente. Muitas vezes, estranho. Inconscientemente, ou não, estamos a ficar cada vez mais egoístas. E não creio que seja um estereótipo de geração.

De resto, temos alguma tentação generalizada para teorizar sobre o abecedário das gerações, na perspectiva da
pessoa para a organização e não o contrário, da organização para a pessoa. Sempre me fascinou a capacidade de li- derar e motivar pessoas a fazerem tarefas repetitivas durante uma vida inteira, sem perderem a alegria de viver e ir trabalhar todos os dias com paixão.

Alguns de vós estarão por esta altura a pensar sobre a importância do propósito da organização. O tema é sexy e está na ordem do dia. Sendo fascinado por todas as temáticas relacionadas com cultura organizacional, não sou indiferente ao mesmo. Discute-se se esta deriva é muito diferente do que já conhecíamos como missão da organização. Uma retórica, na maioria das vezes, vazia de significado e autenticidade. Sem qualquer aderência com o projecto empresarial.

Tenho para mim que os defensores do propósito mais não pretendem do que promover uma reflexão individual e organizacional, que nos devolva um sentido de importância colectiva. Que contrarie o nosso crescente egoísmo in- dividual. Andamos à procura do significado perdido…

Acredito que seja uma guerra perdida. Infelizmente. As pessoas, independentemente da idade, cultura ou formação, têm os seus próprios referenciais. Contrariamente ao que muitas vezes se pensa, são coisas simples que fazem a diferença. Desengane-se quem leu “básicas”. São simplesmente coisas que têm significado para a pessoa, enquanto unidade individual pertencente a um todo. Naturalmente que não há receitas universais. No limite, poderá existir um trabalho de fundo de recrutamento e alinhamento cultural, que agrupe pessoas com os mesmos interesses ou motivações. Mas não mais do que isso.

Entre os muitos factores, há um que continua a ser uma fonte de motivação extraordinária: o desafio.

Mesmo em contextos profissionais aparentemente perfeitos, onde se tem tudo o que alguma vez se sonhou e em que tudo à nossa volta parece perfeito, a ausência de desafios é, por vezes, um factor de profunda desmotivação. Muitas vezes, as pessoas abandonam as organizações porque, simplesmente, já fizeram tudo o que havia para fazer. Esgotou-se o desafio pessoal e profissional.

A leitura da gestão sobre este fenómeno é crucial. Chegar ao topo é um feito, mas nem sempre é suficiente para reter os quadros mais competitivos. A capacidade de reinventar as organizações e criar novos desafios é actualmente um requisito indispensável para uma gestão bem-sucedida.

Este artigo foi publicado na edição de Setembro da Human Resources.

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