O elogio do pensamento

Vivemos numa época em que pensar parece um luxo. As agendas estão preenchidas, as notificações sucedem-se, as reuniões sobrepõem-se e a produtividade é o objectivo. Paradoxalmente, nunca tivemos tanto acesso à informação e, talvez por isso, tão pouco tempo para a digerir e transformar em conhecimento. Leia o artigo de Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs.

Human Resources
10 de Setembro 2026 | 14:00
O elogio do pensamento

 

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Por Rita Oliveira Pelica, Chief Energy Officer ONYOU & Portugal Catalyst – The League of Intrapreneurs

 

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Há uns dias, rumo ao Porto, tive a oportunidade de desacelerar, num pequeno registo de miniférias. Soube a muito. Quatro dias foram equivalentes a uma semana. Pus os pés na relva e estiquei- me ao comprido, literalmente, no Jardim do Pensamento, o novo espaço que integra o Mosteiro de Leça do Balio. Vim de lá renascida (e com mais meia dúzia de livros e dois lápis de carvão), neste espaço inspirado na filosofia de Byung-Chul Han, que convida os visitantes à contemplação, ao silêncio e à desaceleração, recordando-nos que o pensamento também precisa de um lugar para acontecer. O Jardim não é, na verdade, um jardim. É uma afirmação cultural, pois pensar merece espaço, tempo e dignidade.

Não acredito em acasos, por mais felizes que sejam. Até porque fui, deliberadamente, visitar este espaço, movida por uma enorme curiosidade. Ainda assim, há coincidências felizes. O filósofo sul-coreano, autor de “A Sociedade do Cansaço”, tem alertado para uma das maiores contradições da contemporaneidade: a sociedade já não é dominada pela disciplina, mas pelo excesso de desempenho. Somos simultaneamente gestores (alguns, líderes?) e trabalhadores de nós próprios. Procuramos produzir continuamente, responder rapidamente, estar permanentemente disponíveis. O resultado é uma fadiga que não decorre apenas do excesso de trabalho, mas da impossibilidade de parar para pensar. Condignamente. E, no entanto, a criatividade nunca nasce da pressa. “Isn’t this ironic?” Diria a Alanis Morissette.

Graham Wallas, no seu livro “The Art of Thought” (de 1926, imaginem…) descreveu o processo criativo em quatro etapas: preparação, incubação, iluminação e verificação. Primeiro, mergulhamos no problema. Depois, afastamo-nos dele. É durante esse aparente intervalo improdutivo – a incubação – que o cérebro continua a trabalhar silenciosamente. Surge então a iluminação, aquele momento em que a solução parece aparecer do nada. Finalmente, a ideia é testada, refinada e transformada em realidade. Curiosamente, a etapa mais negligenciada pelas organizações é precisamente aquela que não parece trabalho: a incubação.

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Confundimos pausa com inactividade. Confundimos silêncio com ausência de contributo. Confundimos reflexão com perda de tempo. Mas a investigação em psicologia cognitiva mostra exactamente o contrário. Os períodos de distanciamento favorecem novas associações entre ideias, permitem reorganizar informação e aumentam a probabilidade de surgirem soluções originais. A criatividade não resulta apenas de pensar mais; resulta, muitas vezes, de pensar de outra forma. Talvez seja por isso que as melhores ideias raramente apareçam durante a reunião.

Surgem no caminho para casa, durante uma caminhada, enquanto se observa um jardim, se lê um livro ou simplesmente se fica alguns minutos sem fazer nada em particular. Sem reflexão, a aprendizagem torna-se superficial. Sem introspecção, a inovação reduz-se à repetição de soluções conhecidas. Talvez o verdadeiro desafio da gestão contemporânea não seja acrescentar mais ferramentas de produtividade, mas recuperar espaços de reflexão.

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O Jardim do Pensamento oferece uma metáfora poderosa para as organizações. Tal como um jardim necessita de tempo, cuidado e paciência para crescer, também o pensamento precisa de silêncio, contemplação e liberdade. Não se acelera uma árvore puxando pelos seus ramos.

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Num tempo em que tudo nos convida a fazer mais, talvez o acto mais inteligente seja, por momentos, fazer menos, para pensar melhor. É um processo que estou a experimentar. Porque a reflexão não é o contrário da acção. É aquilo que lhe dá direcção.

A ida ao Jardim deu-me muito mais do que palavras para escrever este artigo. Deu-me espaço, paz e tempo. Voltarei para pôr os pés na relva, ouvir o silêncio e o som dos passarinhos. Vemo-nos por lá?

 

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Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº. 188) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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