«O mercado de Recrutamento voltará a ser client driven», diz director da Randstad Professionals

Com a pandemia COVID-19, a esmagadora maioria das empresas decidiu congelar os processos de recrutamento em curso. Mas nem todas. E isso obrigou a mudanças significativas nas formas tradicionais de contratação. Para a retoma que começa a dar os primeiros passos, avizinham-se grandes desafios.

 

Enquanto disciplina de Recursos Humanos responsável pela atracção dos melhores candidatos para a
ocupação das vagas de emprego numa empresa, o Recrutamento e Selecção avalia o candidato para perceber as suas competências técnicas e comportamentais, bem como a compatibilidade com a cultura organizacional. Com a transformação do mercado de trabalho pela tecnologia, esta área precisou de se actualizar e evoluir, sempre com recurso a novas ferramentas e tecnologias, de modo a tornar o processo cada vez mais inteligente e estratégico.

Sendo que a digitalização não era já nada de novo no Recrutamento e Selecção, a actual pandemia veio trazer alterações muito significativas, porque «fomos todos, de forma repentina, obrigados a trabalhar de forma 100% digital», e isso sim é completamemente novo, faz notar Nuno Troni, director das áreas de Professionals, Outplacement, Human Consulting, R.P.O. da Randstad Portugal. E explica em que é que isso se traduziu na prática, bem como as perspectivas que se adivinham para esta área. Parece certo que «o mercado voltará a ser client driven, embora por um período de tempo relativamente curto».

 

Qual o impacto imediato da actual pandemia no recrutamento?
O impacto foi enorme e abrupto, com a esmagadora maioria das empresas a decidir congelar os processos de recrutamento em curso, optando por aguardar pelo fim da pandemia e por uma estabilização da economia para tomarem a decisão de continuarem ou não com os processos de recrutamento. Os dados de que dispomos indicam que, não só grande parte dos processos não vão ser retomados, como há intenção de diminuir o número de colaboradores, em sentido contrário ao pré COVID-19. Alguns sectores foram menos atingidos pela pandemia e continuaram com os processos em curso, sendo a Banca o mais evidente.

 

O sector da Distribuição também teve necessidade de recrutar, para responder ao aumento da procura. Em processos com esta urgência, como se assegura que seja feita a escolha mais acertada para a empresa?
A esmagadora maioria do recrutamento que foi feito por empresas de distribuição foi de perfis operacionais e pouco qualificados, pelo que os principais critérios foram disponibilidade e experiência na função, não tendo feito avaliações de competências ou de potencial.

 

E o novo coronavírus não está também a criar outras oportunidades de emprego. Como se reflecte esta realidade em números?
Ainda é cedo para termos certezas e dados concretos, mas o que conseguimos antever é que o saldo entre empregos criados e perdidos é francamente desfavorável, especialmente se tivermos em conta que a maioria dos recrutamentos feitos são por um prazo específico e para responder a um pico de procura que dificilmente se vai manter.

Nos perfis qualificados, notamos que as Tecnologias de Informação continuam em alta, com os perfis ligados a transformação e marketing digital a registarem maior procura.

 

Digitalização é a palavra de ordem em tempos de pandemia. De que forma se adapta às necessidades do recrutamento actual?
A digitalização do processo de recrutamento não é um fenómeno novo. Já antes da pandemia tinhamos a capacidade e experiência de conduzir o processo de forma totalmente virtual, e com bons resultados. O que é novo é que fomos todos, de forma repentina, obrigados a trabalhar de forma 100% digital, o que causou alguma apreensão numa fase inicial, mas creio que hoje já estamos habituados a trabalhar desta forma.

 

A Randstad lançou um kit digital. Como é que surgiu, em que consiste e qual é a sua finalidade?
Para responder aos desafios do actual contexto e ajudar a diminuir o impacto da pandemia, a Randstad disponibilizou às empresas um “kit digital”, que integra um conjunto de ferramentas que alia as suas soluções tecnológicas à experiência dos seus consultores, para garantir a melhor experiência nos processos de gestão de talento.

A conjuntura COVID-19 trouxe vá- rios desafios para as empresas, principalmente para aquelas que não estavam familiarizadas com o trabalho à distância ou com o digital a 100%. Mantendo o foco na gestão de pessoas, a Randstad disponibiliza agora às empresas a possibilidade de usufruírem de algumas das soluções digitais já utilizadas internamente com os seus clientes.

Trata-se de uma nova oferta comercial, acessível a partir do site. Recrutamento, selecção, formação, gestão de pessoas e planeamento do futuro são as cinco grandes áreas que compõem o kit digital da Randstad, no qual as empresas vão poder encontrar as soluções que melhor correspondem ao seu perfil, desde recrutar e receber colaboradores de forma 100% digital; utilizar uma estratégia de “gamification” na selecção de talento, formar colaboradores através de e-learning ou fazer sessões de live training.

 

No pós pandemia, de que forma podem as empresas fazer uma melhor selecção das pessoas, perante o volume da oferta que vai certamente crescer?
Um processo de recrutamento e selecção deve ser célere, eficaz, criterioso e garantir uma boa experiência a todos os candidatos. Uma das nossas plataformas permite agendar entrevistas directamente com o candidato, oferecendo várias hipóteses de dia e hora de forma automática, assisti-las na hora marcada ou quando lhe for mais conveniente, convidar colegas para se juntar ao processo de selecção e até partilhar os resultados com quem necessita deles.

Para a avaliação, podemos recorrer a assessments 100% digitais, gamification e pedidos de referências de forma 100% digitais. Desta forma, garantimos o máximo de informação sobre um determinado candidato, de forma célere e cómoda para o cliente, candidato e consultor. Nenhuma destas valências é nova, apenas a forma como o fazemos – 100% digital – é que se alterou.

 

Como se realiza o onboarding dos colaboradores recrutados sem a presença física?
Esse é o grande desafio com que nos deparamos. Não sendo novo termos colaboradores 100% remotos, receber um colaborador novo num escritório vazio e com uma ínfima parte da ocupação que tinha
anteriormente constitui uma das grandes preocupações por parte de quem recruta.

Acredito que será uma questão de adaptação e que rapidamente estaremos acostumados a depender muito mais de interacções online do que hoje, mas o processo de mudança oferece algumas questões. A contínua e crescente adopção de ferramentas digitais, como o e-learning, será chave nesta transição.

 

Já conseguem perceber se há de facto, por parte das empresas, a preocupação de se tornarem mais digitais? Mais do que preocupação, houve obrigação de o fazer. Era um tema muito falado mas pouco implementado e quando, de repente, fomos obrigados a trabalhar a partir de casa de um dia para o outro, muitas empresas tomaram consciência do quão longe estavam de o conseguir fazer. E digitalizar não é apenas termos computadores portáteis e podermos fazer reuniões à distância, significa mudar processos e optimizar resultados.

 

Que mudanças significativas acredita que podem surgir – ou ficar – na forma como trabalhamos?
Acredito que vamos melhorar muito a nossa qualidade de vida. A não obrigatoriedade de irmos diariamente ao escritório representa um ganho de tempo enorme, aliado a uma necessária maior autonomia e consequente responsabilidade. Vamos também continuar a assistir à transição de foco na tarefa para foco no resultado, não sendo relevante as horas que trabalho e quando trabalho mas sim os resultados que obtenho. Os desafios para quem gere equipas são enormes, porque implica uma transição que nem todos estarão capacitados para fazer.

 

A agilidade acaba por representar aqui um factor importante?
Um factor fundamental mesmo. Só empresas ágeis, com liderança exercida a todos os níveis da organização, com processos simples, eficazes e constantemente melhorados, com foco no cliente é que conseguirão vingar neste novo cenário económico.

 

Como está a Randstad a preparar-se para dar resposta a todas as necessidades que surgirão no pós confinamento, nomeadamente no que ao Recrutamento e Selecção diz respeito?
Nesta fase, em que o recrutamento caiu a pique, dedicámo-nos a acompanhar ainda mais de perto os nossos candidatos e clientes, realizando vários surveys e partilhando informação de mercado, de forma a saber quais as empresas que vão retomar e quando vão retomar.

Temos, neste momento, um conjunto alargado de candidatos, tanto a nível operacional como de management, disponíveis para abraçar novos projectos que podemos apresentar aos clientes de forma imediata.

 

Que realidade espera para a área do Recrutamento e Selecção?
Vamos voltar à realidade de 2009/2012. O mercado voltará a ser client driven, embora por um período de tempo relativamente curto, com poucas oportunidades e com maior resistência à mudança por parte dos candidatos.

 

 

Este artigo faz parte do Caderno Especial “Recrutamento e Selecção”, publicado na edição de Maio (n.º 113) da Human Resources.

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