
O preço invisível da saúde mental nas empresas
Por Adriana Zappalá, psicóloga e directora de Pessoas e Cultura da Martech Digital
Fala-se muito de saúde mental, mas questiono-me até que ponto estamos verdadeiramente dispostos a mudar práticas! Em Portugal, mais de metade dos cidadãos (61 %) dizem sentir-se esgotados ou em risco de burnout, e no entanto apenas 3% procuram terapia para lidar com esse desgaste, diz o estudo europeu STADA Health Report 2025. Só por aí já percebemos o fosso entre o que sentimos e o que permitimos que seja tratado.
No ambiente profissional, esse desgaste traduz-se em custos reais. Em 2023, e segundo a Ordem dos Psicólogos, a taxa média de absentismo em Portugal foi de 4,1 %, o que representa um peso económico estimado de 2,5 mil milhões de euros para as empresas. E não esqueçamos o que já sabíamos: em 2022, o custo total do absentismo + presentismo por stress e problemas psicológicos foi estimado em 5,3 mil milhões de euros.
Mas acredito que o maior custo não é o financeiro. O verdadeiro preço paga-se com a perda de motivação, com talentos que desistem, com equipas que se tornam frágeis, com líderes que deixam de liderar porque também eles estão em exaustão. Mais de metade dos portugueses já sentiu, ou está perto de sentir, burnout.
Hoje ouvimos muitas empresas a falar sobre bem-estar, o chamado work life balance, mas a esquecerem-se de o praticar no dia-a-dia. É um erro comum e perigoso. A saúde mental não pode ser uma acção de marketing ou uma publicação nas redes sociais. Deve fazer parte da forma como a empresa pensa, comunica e cuida das suas pessoas. O perigo é transformar a saúde mental em mais um exercício de marketing interno, quando na verdade deveria ser tratada como parte da identidade cultural das organizações.
E não podemos deixar de pensar que muitas empresas continuam a varrer este tema para debaixo do tapete, lembrando-se dele apenas em datas simbólicas. A saúde mental só se constrói quando há consistência! Não basta promover um webinar por ano, nem enviar um e-mail motivacional. É preciso criar políticas de escuta activa, dar espaço para rodas de conversa genuínas, estabelecer parcerias com psicólogos, investir em formações e, acima de tudo, dar o exemplo a partir da liderança.
E aqui não há dúvidas: equipas saudáveis são equipas mais criativas, mais inovadoras e mais comprometidas. As empresas que levarem a sério a saúde mental vão, não só, reduzir absentismo, mas também ganhar reputação positiva, retenção de talentos e capacidade de se reinventar. Não se trata de caridade, mas de estratégia. Não é um acto de caridade, é um acto de inteligência. Cuidar das pessoas é cuidar da base que sustenta qualquer negócio.
Por isso, chegou a hora de pararmos de falar de saúde mental quase como um acessório. Não é uma tendência, é uma necessidade. As empresas só serão sustentáveis se conseguirem transformar um discurso numa prática diária. Porque no fim, a cultura de uma organização não se mede no que ela diz em campanhas, mas no que as pessoas sentem todos os dias quando acordam para trabalhar.