Os factores C para atalhar caminho até à liderança: ser country manager antes dos 40

Mulher? Grávida? Com uma filha de dois anos? Com ar de miúda? A estudar num MBA Executivo? Assumir o lugar de Country manager? Impossível. Ou não…

Por Vânia Fiúza, Country Manager Dr. Oetker e membro do The Lisbon MBA Alumni Club

 

“Como é ser uma Country manager?”, perguntam-me muitas vezes.

Poderia responder com uma dicotomia vitimo-heroica e dizer que é um sabor a mérito de 17 anos mergulhados em muito suor e lágrimas, investimento pessoal e financeiro, aprendizagens relacionais e bla-bla-bla.

Só que isso são histórias passadas da validade. É verdade que todas me ajudaram a construir as capacidades para o tal castelo de pedras, e assumir pela primeira vez o cargo de Country manager aos 37 anos. E por acaso estava grávida do meu 2º filho. E a terminar o meu MBA com estudo intensivo e trabalhos de grupo à noite e fins-de-semana.

Quando cheguei a Country manager, o sentimento foi de que tinha uma missão a cumprir. Sem tempo a perder. Só podia focar-me, diagnosticar rapidamente o negócio com olho de lince e desenhar um plano estratégico para o que serão os próximos cinco anos. Foi, assim (apesar de noutra escala), o mesmo sentimento que tive quando me tornei Sales representative a visitar hipermercados, ou assistente de vendas, ou gestora de contas, ou diretora comercial, ou estudante outra vez, ou mãe.

Só que a diferença agora foi a de abraçar vários desafios na minha vida ao mesmo tempo. E no novo papel de responsável por “tudo” numa empresa, tive de assumir também vários desafios ao mesmo tempo. Foi para mim muito óbvia uma grande gestão de mudança para chegar ao plano estratégico com que me comprometi.

De novo na conversa, explicitamente vem a pergunta: “E como conseguiste essa posição?”, em tom simpático que esconde a curiosidade de quantos almoços paguei e qual terá sido o meu factor C.

A resposta? Para contrariar ainda mais as hipóteses, não recorro a “um” factor C. Recorro a “cinco” factores C. Os mesmos factores C que ajudaram a atalhar caminho na minha carreira.

Cabeça. Coragem. Coração. Confiança. Consistência.

  • Cabeça. Cabeça para saber fazer escolhas racionais com antevisão sobre os impactos. Na cabeça está a visão e essa, essa só pode ser holística, porque em qualquer decisão há várias naturezas de impacto – operacional, de governança, financeiro (sempre financeiro!), humano e motivacional.
  • Ui a coragem. Coragem para expor abertamente temas que nem 1% das pessoas que estão na sala o fariam. Mas não basta expô-los, temos de saber propor soluções, caso contrário, não é coragem, é só ‘whistleblowing’.
  • Coração. Coração para saber que a humanidade reside na empatia. Há o conteúdo e há a forma. Aqui, trata-se da forma, e de saber que, os receptores das nossas mensagens têm os seus contextos, as suas interpretações e os seus sentimentos.
  • Confiança. A confiança demora tempo a construir, até em nós mesmos. Precisei de uma série de validações para sentir que tomo decisões seguras, a última delas um MBA, e a próxima, talvez o meu aniversário dos 40!
  • Consistência. Consistência-consistência-consistência. No esforço, na energia, na alegria com que concretizamos qualquer projecto na vida, sem desistir daquele sentimento de missão de fazer a diferença.

“Qual vai ser o teu próximo passo de carreira, agora que chegaste ao topo?”. Nunca chegamos verdadeiramente ao topo enquanto sentirmos o nosso sentimento de missão a fervilhar e conseguirmos ver o tanto que há para fazer.

O trabalho nunca acaba. E tudo se faz.

E os factores C? Esses alimento-os pagando almoços que compensam o favor que me fazem de evoluir cedo na minha carreira. Cabeça alimento com intuição ‘al dente’. Coragem, com ‘mentoring’ de três estrelas Michelin. Ao coração dou-lhe alguma ‘power distance’ para não se desfazer. Confiança pede auto-avaliação fria. E consistência toma experimentação ao pequeno-almoço, testando novos sabores e texturas.

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