
Os jovens e o mercado de trabalho da IA: Como ser indispensável
Ao integrarem a inteligência artificial (IA), as empresas descobrem novas oportunidades, o que levanta uma questão fundamental: estamos, enquanto sociedade, a preparar os jovens para um mercado de trabalho onde as competências em IA serão a norma e muitas tarefas tradicionais poderão ser automatizadas?
Por Michelle Vaz, directora-executiva, Formação e Certificação da AWS
Para efectivamente preparar os jovens profissionais para um novo mundo do trabalho, é essencial mobilizarmos esforços colectivos de modo a darmos resposta a três desafios fundamentais.
O gap de urgência
Apesar da crescente influência da IA em todos os sectores, a urgência de os trabalhadores se qualificarem nesta área permanece baixa. Dados de um estudo recente (“Lower Artificial Intelligence Literacy Predicts Greater AI Receptivity”, de Stephanie M. Tully, Chiara Longoni e Gil Appel) indicam que quanto mais conhecimento as pessoas têm sobre IA, menor é a sua predisposição para a adoptar. Adicionalmente, persiste a ideia errada de que a literacia em IA apenas é relevante para as áreas técnicas, uma crença que se pode revelar perigosa.
As ferramentas de IA generativa democratizaram o acesso a funcionalidades poderosas, o que torna esta tecnologia relevante para praticamente todos os sectores e funções. Desde o assistente administrativo que redige comunicações ao coordenador de Marketing que analisa dados de campanhas, todos vão precisar de trabalhar com ferramentas de IA que potenciam as suas capacidades. A maioria dos trabalhadores ainda não se apercebeu da rapidez com que a literacia em IA passou de opcional a essencial, o que deixa muitos recém-licenciados pouco ou nada preparados para funções que, cada vez mais, exigem estas competências. É, por isso, de extrema importância continuar a sensibilizar para a importância da aprendizagem contínua, especialmente quando os avanços na IA ocorrem a uma velocidade vertiginosa.
A colaboração entre educação e indústria
Embora algumas instituições de ensino superior tenham começado a incorporar a IA nos seus currículos, as empresas de IA têm um papel a desempenhar na aceleração deste movimento. Como resultado do rápido ritmo da transformação tecnológica, a “meia-vida das competências” – o tempo que uma competência leva para perder metade da sua relevância – está a diminuir exponencialmente. Estudos como “The enterprise guide to closing the skills gap”, da IBM, indicam que este período se reduziu de 10/15 anos para apenas cinco, sendo ainda menor para as competências técnicas. Neste ambiente, os profissionais precisam de cultivar o hábito da aprendizagem diária para garantir que as suas competências se mantêm relevantes.
A lacuna é particularmente pronunciada em instituições que servem comunidades carenciadas. De acordo com o National Bureau of Economic Research, as universidades com estudantes com rendimentos mais elevados têm maior probabilidade de oferecer cursos que incorporem conhecimento de ponta do que as instituições que servem alunos com menores rendimentos.
É por isso que são importantes as parcerias público-privadas, que levam aplicações de IA do mundo real para as salas de aula. Existem programas, como a AWS Academy, que fornecem currículos gratuitos de IA e cloud computing a milhares de instituições em todo o mundo, e que dão aos estudantes acesso a formação avançada e a vouchers para certificações reconhecidas pela indústria. Estas certificações são uma excelente forma de demonstrar aos empregadores que os candidatos possuem as competências práticas e o conhecimento necessários para se destacarem nas suas funções.
O desafio de definir as competências para a era da IA
Contudo, se é evidente que as pessoas precisam de evoluir as suas competências, o mesmo não se pode dizer sobre quais as novas aptidões específicas para cada profissão na era da IA. Que literacia em IA deve possuir um licenciado em Marketing em comparação com um de Finanças? Estas questões permanecem, em grande parte, sem resposta, o que gera uma incerteza que pode ser paralisante. Precisamos que consórcios específicos de cada sector desenvolvam mapas claros das competências de IA necessárias para as funções de nível inicial.
Um estudo recente – “The Evolution of Early-Career Technical Roles in the AI Era” –, que fizemos com a Draup, uma empresa de inteligência de dados, identificou as funções tecnológicas de nível inicial mais procuradas e as competências de IA necessárias para as garantir. Este tipo de enquadramento é fundamental para orientar os estudantes, capacitando-os a procurar formação que se traduza em empregabilidade. No entanto, este é apenas o começo. O sector privado, os decisores políticos e os educadores terão de colaborar para definir novos mapas de competências
Uma responsabilidade colectiva
O rápido avanço da IA traz oportunidades e riscos sem precedentes. Usada correctamente, a IA pode eliminar os aspectos mais rotineiros do trabalho, permitindo que os jovens profissionais se dediquem a contribuições mais estratégicas e significativas desde o início. Contudo, este futuro depende de uma acção colectiva.
Os empregadores devem ir além da simples adopção de tecnologia e desenvolver estratégias abrangentes de transformação da sua força de trabalho. As instituições de ensino, por sua vez, têm de acelerar a actualização dos seus currículos através de parcerias com a indústria.
Nenhuma entidade conseguirá resolver este desafio isoladamente. O futuro do trabalho – e o sucesso de toda uma geração – depende da capacidade colectiva de colmatar, hoje, o défice de competências em IA. Se falharmos, arriscamo-nos a criar uma força de trabalho de duas vias: os que têm literacia em IA e prosperam, e os que, sem ela, lutam para encontrar o seu lugar na economia.
Ao agirmos agora, podemos construir um futuro onde a IA vai potenciar o talento humano em todos os segmentos da sociedade, a começar por aqueles que estão agora a entrar no mercado de trabalho.
Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro (nº. 182) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.