
Outplacement: a área mais nobre da Gestão de Recursos Humanos
Por Pedro Rocha e Silva, Managing-director da LLH | DBM Portugal
Numa era em que tanto se fala de propósito, humanização das empresas e responsabilidade social, há uma área da Gestão de Recursos Humanos que se destaca por encarnar, na prática, todos esses valores: o outplacement.
Este serviço especializado surge quando uma empresa decide encerrar uma relação laboral — por reestruturação, fusão, downsizing ou mudança estratégica — e, em vez de simplesmente “desligar” o colaborador, oferece-lhe apoio activo para a sua reintegração no mercado de trabalho. Não se trata de um mero gesto de cortesia. É uma resposta estruturada, com impacto real na vida das pessoas e na reputação da organização.
Mas porque é que o outplacement é, entre todas, a área mais nobre da Gestão de Pessoas?
Em primeiro lugar, porque cuida. Numa fase em que seria mais fácil virar costas, o outplacement estende a mão. Oferece orientação, apoio psicológico, ferramentas práticas e reflexão estratégica. É um processo que permite ao profissional desligar-se com dignidade e recomeçar com esperança.
Em segundo lugar, porque protege a cultura interna da empresa. Os que ficam observam com atenção a forma como os seus colegas são tratados. Quando a saída acontece com respeito e acompanhamento, aumenta o sentimento de segurança psicológica, reforça-se a confiança na liderança e preserva-se a reputação interna da organização.
Terceiro, porque projecta a marca empregadora para fora de portas. Empresas que oferecem programas de outplacement são vistas como responsáveis, éticas e humanas. E isso conta — na atracção de talento, na relação com stakeholders, no posicionamento social.
Por fim, porque representa uma visão madura da função RH. Não se trata apenas de recrutar, formar, avaliar ou reter. Trata-se de acompanhar o ciclo completo da experiência do colaborador, incluindo o momento mais difícil: a despedida. E fazê-lo com respeito, visão e compromisso é sinal de uma gestão de pessoas verdadeiramente evoluída.
Em 2023, uma empresa de média dimensão em Portugal, efectuou uma reestruturação que implicou a saída de 15 colaboradores. Decidiu implementar um programa de outplacement durante seis meses, incluindo coaching de carreira, apoio emocional, preparação para entrevistas e sessões de networking. O resultado foi que 12 dos 15 profissionais estavam recolocados ao fim de cinco meses, dois iniciaram projectos próprios e um antecipou a reforma.
Para além disso, internamente e após a reestruturação, um survey de satisfação revelou que 85% sentiam-se mais confiantes na cultura e liderança da empresa. Além disso, a rotatividade voluntária no ano seguinte foi inferior ao ciclo anterior, contrariando a tendência de ‘fuga de talento’ frequentemente associada a despedimentos.
Outplacement não é um custo — é um investimento em pessoas, em reputação e em liderança. É, talvez, o maior gesto de empatia organizacional. Por isso, é justo dizer: entre todas as disciplinas da Gestão de Recursos Humanos, o outplacement é a mais nobre. Porque onde muitos vêem um fim, pode afinal ser a construção de um recomeço.