
Paulo Moita de Macedo, CGD: A arte de combinar rigor estratégico com uma profunda compreensão humana
No âmbito do especial dos 15 anos da Human Resources, desafiámos responsáveis de empresas a perspectivarem os pontos-chave da liderança para os próximos 15 anos.
Por Paulo Moita de Macedo, Presidente Executivo da CGD
Num mundo onde a complexidade se tornou estrutural e a incerteza uma condição permanente, a liderança não pode estar ancorada em modelos tradicionais. Os actores nas organizações de hoje (líderes de equipas e colaboradores nos diferentes níveis de uma organização) precisam de estar preparados para agarrar a transformação acelerada que a tecnologia impõe, mas também para responder às expectativas reconfiguradas pelas novas gerações, que valorizam autenticidade, propósito e impacto real.
O propósito e os obstáculos posicionam a liderança e os colaboradores num jogo estratégico com pontos comuns ao xadrez. É um desafio que exige visão na antecipação da leitura de contextos e movimentos, e sensibilidade às novas dinâmicas funcionais de cada peça. Cada decisão influencia o ritmo com que avançamos e o sucesso que obtemos. Já não se trata de comandar movimentos isolados, mas antes de construir uma lógica alinhada que maximize e tire partido do potencial colectivo.
Mover peças no tabuleiro é insuficiente, é preciso inspirar e criar valor sustentável de forma agregada e direccionada. Esta é a essência da liderança futura: uma arte que combina rigor estratégico com uma profunda compreensão humana. Assim como no xadrez, onde o rei representa o objectivo final e as peças simbolizam recursos, competências, a tecnologia, o capital e o compromisso que liderança e colaboradores movimentam, as organizações enfrentam um tabuleiro marcado por disrupções tecnológicas, mudanças sociais, novas dinâmicas de talento e movimentos mais rápido do resto do mercado.
O modelo tradicional de liderança, assente na autoridade vertical, no controlo e na previsibilidade, já não responde eficazmente às exigências actuais. Hoje, o líder deve ser um estratega capaz de olhar para o tabuleiro de jogo e perceber o valor de cada peça, que lhe permite transformar desafios em oportunidades, numa tomada de decisão alinhada estrategicamente com agilidade, coerência e integrada numa liderança servidora. Neste cenário, a vulnerabilidade torna-se um activo de liderança. Mostrar limites, fazer perguntas, admitir que não se tem todas as respostas, são gestos de força e não de fraqueza. Ao abrir espaço para o contributo dos outros, o líder reforça a confiança e activa a inteligência global. A imposição dá lugar à influência, à partilha e à co-construção.
Assim como no xadrez, onde a jogada certa depende da interacção entre todas as peças, nas organizações a eficácia resulta da orquestração entre pessoas, competências, tecnologia e cultura. O líder deixa de ser um actor solitário para se tornar o facilitador de uma inteligência colectiva capaz de transformar desafios em possibilidades. Este jogo exige uma liderança que tenha a destreza de conseguir combinar a literacia tecnológica e a capacidade humana dentro de uma cultura capacitada e preparada para os desafios emergentes.
No mais recente estudo sobre o futuro do trabalho do Fórum Económico Mundial, as competências que mais crescem, num horizonte de cinco anos, são tecnológicas. O verdadeiro líder é aquele que antecipa o poder da articulação das peças e que tira partido da tecnologia, combinando-a com a criatividade, a empatia e a visão estratégica. Esta integração é o diferencial competitivo que determinará o futuro das organizações.
Este novo perfil de competências coloca um desafio concreto às organizações: criar ambientes onde as pessoas queiram e possam desenvolver-se. O papel da liderança passa a ser garantir contextos que potenciem talento, confiança e sentido de pertença. A atractividade e a retenção de talento não dependem apenas da proposta de valor ou de perspectivas de progressão. São cada vez mais determinadas pela solidez ética da liderança, pela coerência cultural da organização e pela sua capacidade de gerar confiança. Sem confiança, não há compromisso. E sem compromisso, não há futuro.
Liderar com futuro significa liderar com intenção e visão estratégica, colocando o propósito no centro das decisões. Significa compreender que cultura, ética e inovação não são domínios separados, mas interdependentes, e aceitar que a autoridade se constrói diariamente, com o exemplo como a forma mais poderosa e consistente de influência.
Desta forma, a liderança transcende um conjunto isolado de funções para se afirmar como uma expressão consciente e integrada do papel que cada líder desempenha no tabuleiro da organização e no mercado. O foco está não só no sucesso imediato, mas na relevância e sustentabilidade no futuro.
Liderar com futuro é uma decisão estruturante e urgente que exige jogar cada peça (alocação de energia, tempo, talento, competências, capital, tecnologia, etc.) com clareza, coragem e responsabilidade moral para garantir que o próximo movimento transforme positivamente o jogo, tendo como princípio base que as pessoas são muito mais que peças de xadrez.
Este artigo faz parte do Tema de Capa publicado na edição de Julho (nº. 175) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.