Pedro Rocha e Silva, Managing, LHH | DBM. Reorientar a bússola: Como as férias podem redefinir a carreira

Porque parar não é só descansar – é também perceber se ainda estamos no caminho certo.

 

Por Pedro Rocha e Silva, Managing director da LHH | DBM

 

Agosto. Finalmente. O mês em que o mundo abranda (ou pelo menos finge que sim). O telemóvel toca menos, o email sossega e há espaço para coisas simples como: dormir até mais tarde, ler um livro sem interrupções, ver o mar, andar descalço. Mas há outra coisa que acontece, muitas vezes sem darmos por ela: pensamos mais.

E não é só pensar nas próximas férias. É pensar na vida. No trabalho. Em nós.

Quando saímos do piloto automático
Durante o ano, vivemos em modo automático. Reunião atrás de reunião, metas, prazos, listas infinitas de tarefas. É difícil parar para reflectir quando estamos sempre a correr. Mas basta uma semana fora, longe da rotina, para começarmos a ver tudo com outros olhos.

De repente, damos por nós a pensar: “Será que ainda gosto do que faço?”, “O que me entusiasma, afinal?”, “Porque é que ando tão cansado?”

E estas perguntas não são sinal de fraqueza. São sinal de consciência.

As férias são, à superfície, um tempo de descanso. Mas quem já teve um verdadeiro período de pausa sabe que elas podem ser também um momento de revelação. Distanciados da rotina, deixamos de ver apenas as árvores e começamos a ver a floresta. É aí que ganhamos perspectiva sobre o nosso trabalho, os nossos hábitos, os nossos sonhos – e sobre o desajuste que, por vezes, existe entre aquilo que fazemos e aquilo que somos.

Este é o paradoxo das férias: ao deixarmos de pensar no trabalho, pensamos melhor sobre ele. Quando o cérebro sai do modo automático, abre-se à possibilidade de imaginar novos caminhos.

 

Mudanças que começam com um mergulho
Há quem volte de férias decidido a mudar de vida. Outros voltam apenas com pequenas ideias: pedir para sair de um projecto, experimentar algo novo, repensar os horários… Não são sempre mudanças radicais, às vezes, basta um pequeno ajuste para a bússola alinhar de novo.

Já ouvi histórias de quem usou as férias para fazer um curso online e acabou a mudar de função. Outros só precisaram de silêncio e distância para perceber que andavam a empurrar uma carreira que já não fazia sentido. E há quem, simplesmente, volte mais calmo, mais claro, mais inteiro.

O ponto comum? Todos eles usaram as férias não como fuga, mas como espaço de escuta interior. Reorientaram a bússola.

 

E as empresas? Também podem ajudar
As organizações mais humanas e estratégicas reconhecem o valor destas pausas. Sabem que profissionais mais conscientes das suas motivações e talentos são também mais produtivos, criativos e alinhados com os objectivos da empresa.

Este tipo de reflexão devia ser bem-vinda no regresso ao trabalho. E, felizmente, há cada vez mais empresas que reconhecem o valor disso.

O que podem fazer?

Criar momentos de conversa com os colaboradores após as férias;

Apoiar quem quer redesenhar o seu percurso dentro da organização;

Encorajar quem quer aprender coisas novas ou explorar outros papéis.

Porque, sejamos honestos: ninguém ganha com profissionais desligados ou em piloto automático. Quando uma pessoa está mais alinhada com aquilo que é, trabalha melhor, relaciona-se melhor, vive melhor.

 

Uma pequena pausa para pensar
Se estiveres de férias (ou prestes a ir), deixo uma sugestão: antes de voltares ao ritmo habitual, tira uns minutos só para ti. Nada de telemóveis. Só tu e um papel. Escreve três coisas:

1. O que quero manter na minha vida profissional?

2. O que gostava de mudar?

3. De que apoio preciso para isso acontecer?

 

Não precisas de ter todas as respostas agora. Mas, às vezes, basta fazer as perguntas certas. Pode ser o princípio de um caminho mais verdadeiro. E, quem sabe, mais feliz.

Também já usei um Verão para repensar o meu percurso. Nessa altura, percebi que precisava de fazer escolhas mais alinhadas comigo. E foi das melhores decisões que tomei. Porque, às vezes, não é preciso mudar tudo. Basta mudar o suficiente para voltar a sentir que estamos no caminho certo.

 

Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº. 176) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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