
Quatro tendências que vão moldar o trabalho em 2026 (não são as que está a pensar)
As empresas estão sempre à procura de formas de melhorar a produtividade. Nos últimos anos, a inteligência artificial ocupou grande parte dessa atenção, remodelando o trabalho em diferentes sectores. Porém, embora a IA ajude as empresas na eficiência, apenas resolve parte da equação.
O foco, a energia, a recuperação, a resiliência e o bem-estar geral de um trabalhador deixaram de ser preocupações apenas individuais, restritas ao que acontece fora do ambiente de trabalho. À medida que as fronteiras entre a vida pessoal e profissional se tornam cada vez mais difusas, esses factores influenciam directamente a produtividade, a qualidade das decisões e o desempenho no longo prazo.
Líderes que continuam a tratar a produtividade como um tema puramente mecânico correm o risco de ignorar os sistemas humanos dos quais as suas organizações mais dependem. O bem-estar deixou de ser um ponto adicional e passou a ser um motor central do desempenho sustentável.
A Forbes Brasil partilha tendências de bem-estar que irão moldar o trabalho este ano.
- O regresso da “vida analógica”
Vivemos numa era de conectividade digital sem precedentes. Um executivo em Lisboa pode passar o dia em reuniões sucessivas com colegas e parceiros em todo o mundo. Ainda assim, o acesso digital não substitui a interacção presencial ou outras experiências analógicas que cultivam confiança, pertença e entendimento partilhado. Apesar de estarem constantemente conectadas, muitas pessoas sentem-se cada vez mais isoladas.
Essa mudança foi destacada no relatório 25 Big Ideas for 2026, do LinkedIn News, que identificou o aumento da solidão como uma das questões definidoras que moldarão o trabalho este ano. Pesquisas da Associação Americana de Psicologia reforçam essa preocupação: quase sete em cada dez adultos relatam precisar de mais apoio emocional do que receberam no último ano, e mais da metade afirma sentir-se isolado ou excluído à medida que a vida se torna cada vez mais digital.
A conexão influencia directamente a confiança, a colaboração e a tomada de decisões. Equipas com falta de interacções humanas significativas tendem a partilhar informações mais devagar, são menos propensas a identificar problemas com antecedência e estão mais susceptíveis à falta de engagement. Em 2026, organizações que promoverem intencionalmente conexões offline — por meio de espaços físicos, rotinas partilhadas e expectativas que incentivem interacções reais — estarão mais bem posicionadas para sustentar a produtividade e a coesão em toda a empresa.
- Vidas e carreiras mais longas
Avanços na área da saúde e na medicina preventiva estão a ampliar não apenas a expectativa de vida, mas também o tempo de vida saudável. Mais pessoas permanecem capazes, envolvidas e produtivas muito além da idade tradicional de reforma. Essa mudança desafia pressupostos antigos sobre carreiras, sucessão e participação no mercado de trabalho — e, em última instância, sobre o que a reforma realmente significa.
Em vez de sinalizar um ponto final, a reforma está a tornar-se cada vez mais uma transição para um segundo acto. Como destaca o relatório do LinkedIn, a longevidade traz implicações económicas e organizacionais relevantes. À medida que as pessoas vivem e trabalham por mais tempo, a força de trabalho torna-se mais multigeracional, com estágios de carreira sobrepostos, diferentes perspectivas e horizontes de tempo mais longos. O modelo tradicional de se dedicar ao trabalho, atingir o pico da carreira e sair está a dar lugar a trajectórias mais fluidas, que se estendem por várias décadas.
Para os líderes, isso representa uma oportunidade única de repensar o desenho do trabalho. Retenção de conhecimento, requalificação e funções flexíveis serão mais importantes do que cronogramas rígidos ou expectativas baseadas na idade. Organizações que se adaptarem a vidas profissionais mais longas ganharão continuidade e um valioso capital humano que se espalha entre gerações.
- Dados corporais
A tomada de decisão orientada por dados já molda finanças, operações e estratégia. E também influencia cada vez mais a forma como as pessoas trabalham. Dispositivos e ferramentas que medem dados corporais, desde os batimentos cardíacos ao sono estão a tornar-se comuns, oferecendo a indivíduos e organizações maior visibilidade sobre níveis de energia, recuperação, stress e prontidão geral.
Como observa o relatório do LinkedIn, essa mudança traz implicações importantes para a produtividade e o burnout. Uma pesquisa publicada na revista científica American Journal of Preventive Medicine estima que o burnout custa às empresas entre 4 e 21 mil dólares por ano por colaborador, devido à perda de produtividade e à rotatividade.
Quando líderes e profissionais compreendem como a fadiga, sobrecarga e recuperação afectam o desempenho, o trabalho pode ser estruturado de forma mais inteligente.
Equipas que utilizam esses dados para orientar ritmos de trabalho mais inteligentes estarão mais bem posicionadas para sustentar o desempenho, reduzir o burnout e melhorar a qualidade das decisões.
- Medicamentos para perda de peso
O controlo de peso continua sendo um desafio para muitas pessoas e frequentemente está ligado a questões metabólicas e doenças crónicas mais amplas. Hoje, uma classe mais ampla de medicamentos prescritos para perda de peso está a entrar na conversa sobre o mundo do trabalho, trazendo novas considerações para os empregadores. Conforme a adopção cresce, as organizações enfrentam uma questão prática: que papel devem esses medicamentos desempenhar nos benefícios e programas de bem-estar dos colaboradores?
Segundo a Kaiser Family Foundation, organização dos Estados Unidos que conduz pesquisas sobre saúde, cerca de um em cada cinco grandes empregadores já cobre esse tipo de medicamento para apoio na perda de peso. No entanto, entre os maiores empregadores, 59% relatam que os custos superaram as expectativas, e 66% afirmam que a cobertura teve impacto significativo nos gastos com medicamentos prescritos.
Em 2026, as organizações serão forçadas a ponderar acesso, equidade e produtividade a longo prazo perante o aumento dos custos com benefícios. A forma como as empresas navegarem esse equilíbrio moldará cada vez mais as estratégias de bem-estar da força de trabalho e a diferenciação como empregadoras.