Reportagem: Empreendedorismo no feminino contado na primeira pessoa por quatro mulheres

São cada vez mais as mulheres que tomam conta da sua vida profissional. Mulheres de garra e energia que empreendem em negócios seus ou de família elevando-os a outro nível, até ao patamar do sucesso. Neste Dia da Mulher trazemos quatro exemplos de mulheres empreendedoras que nos contam na primeira pessoa as suas motivações: Susana Costa, sócia-gerente da Tartaruguita, Manuela Carabina, fundadora da Fragoleto, Clarisse Marques, directora da Lactimonte e Daniela Simões, CEO e co-fundadora da miio.

Por Sandra M. Pinto

 

Negócios criados de raiz ou de família estão nas mãos destas quatro mulheres empreendedoras. Responsáveis pelo sucesso de cada um deles, estas profissionais apresentam-se como mulheres resilientes que, mesmo em sectores “mais masculinos”, souberam “impôr” a sua presença com subtileza e elegância, fazendo com que cada um deles se destaque nos respectivos sectores.

Licenciada em serviço social, Susana Costa dedicou-se a essa área durante cerca de 10 anos. Tudo mudou em 2017 quando foi mãe. «Costumo dizer que me “trocou as voltas”, porque a mudança de perspectiva levou a que, em 2018, em conjunto com o meu marido, Cláudio Freire, decidíssemos fundar a empresa e, consequentemente, a marca Tartaruguita». A escolha da área de negócio (puericultura) surgiu desta nova e entusiasmante experiência de ter um filho. Apesar de serem cada vez mais as mulheres empreendedoras, há vários obstáculos ainda a serem enfrentados para que as oportunidades para homens e mulheres sejam equivalentes. «Muita gente pensa que empreendedorismo é sinónimo de ter uma vida mais calma e mais tempo para si e para a família, mas no entanto, a realidade não é bem essa», chama a atenção. «Para mim, o mais difícil é mesmo a disponibilidade quase total. Sendo uma loja online, pode até parecer mais fácil, mas a verdade é que é necessário dedicar muito tempo para que se tenha sucesso. Penso que o prémio “Cinco Estrelas” 2022 que recebemos na categoria “Loja online de Puericultura” é a prova de que estaremos no bom caminho. Mas, muitas vezes, a vida pessoal fica em segundo plano. No meu caso, sendo que o meu marido é parte de todo o processo, não sinto que tenha diferença por ser mulher ou homem, mas talvez seja sorte. Sei que não seria fácil para muitas mulheres. Se não houver uma boa retaguarda familiar, a sobrecarga será enorme, em especial quando há filhos».

 

Há 15 anos Manuela Carabina estava numa fase de viragem na minha carreira profissional. Depois de muitos anos a trabalhar na área da comunicação e marketing empresarial, achou que era o momento adequado para mudar radicalmente de actividade. «Queria criar algo que fosse “a minha cara”», relembra. Abrir uma gelataria em Lisboa naquela época, era algo de original e invulgar uma vez que não existia muita oferta de gelados artesanais na capital.  «Considerei que era uma oportunidade de negócio por não ser um sector saturado onde poderia criar a minha marca e fazê-la crescer», diz a fundadora da Fragoleto à Human Resources. «Nunca considerei que por ser mulher teria mais dificuldades em alcançar os meus objectivos», afirma, no entanto, refere que percebeu que que ao escolher esta profissão de “Mestre Gelateira”  teria que ultrapassar dificuldades inerentes à própria actividade. «Esta profissão é, maioritariamente, desempenhada por homens porque representa um trabalho duro, muito exigente fisicamente, e muito intenso na época alta».

Para Manuela Carabina talvez tenha sido essa exigência física a parte mais difícil de ultrapassar. «Mas temos que ter uma grande capacidade de adaptação para conseguir avançar e evoluir», refere, «as dificuldades fazem parte do processo de aprendizagem e de evolução, e não creio que isso tenha a ver com o facto de ser homem ou mulher». Manuela acredita que qualquer pessoa que tenha um sonho, que avance para a concretização do seu projeto e que o faça crescer, vai encontrar no seu caminho dificuldades. «Essas dificuldades são precisamente para aprendermos a nos adaptarmos e darmos o nosso melhor, só desta forma conseguimos avançar, independentemente de sermos homem ou mulher».

 

A Lactimonte foi fundada pelos pais de Clarisse Marques que é hoje a responsável pela empresa. «A área alimentar, nomeadamente a produção de queijos já vem dos tempos dos meus avós, pois eles próprios possuíam o gado bovino turino com o leite dos quais fabricavam queijos frescos, sendo que esta iguaria tem mais de 70 anos de existência».
A Lactimonte assenta na base de uma empresa familiar, apesar de já ter alguma dimensão. «São já 43 anos de existência, os últimos 25 geridos por mim sendo que na última década contei com a ajuda do meu irmão», revela, «tem sido um trabalho bastante esforçado, mas merecido e obtido com gratificação por parte dos clientes/consumidores». Com a expansão da área de marketing na empresa, nos últimos 10 anos a Lactimonte foi agraciada com alguns prémios. Contudo, recorda «são muitos os desafios que  enfrenta neste sector, pois ainda existe a ideia, ultrapassada, do preconceito de que as mulheres são muito emotivas e que não conseguem compreender muitos aspectos». Clarisse Marque acredita que é importante estimular o empreendedorismo feminino porque «a presença das mulheres em cargos de liderança resulta em melhorias na sociedade, na economia e nas empresas, pois reduz as diferenças entre oportunidades de ascensão na carreira de homens e mulheres». Para a responsável da Lactimonte, «é fundamental para que as mulheres possam aumentar os seus rendimentos, possam gerar empregos e tenham sustentabilidade no mercado, mas, sobretudo, serem independentes e protagonistas das suas próprias vidas».

 

«Posso começar por dizer que tenho uma experiência privilegiada e que a esmagadora maioria dos homens presentes no mundo corporativo da mobilidade eléctrica com os quais tive contacto directo, especificamente, são agentes evoluídos, com uma visão a longo prazo, onde se incluem inúmeras mulheres em cargos de liderança e que estão conscientes de que o género não determina competência», refere Daniela Simões, CEO e co-fundadora da miio. No entanto, assinala que «será ingénuo pensar que não existem estereótipos e preconceitos na generalidade do mundo corporativo, que me dão muito prazer em quebrar». Daniela Simões refere que, «infelizmente vemos ainda poucas mulheres no mundo corporativo, especialmente em cargos de liderança e, talvez por isso, numa fase inicial, as perguntas e comentários eram constantemente endereçadas ao colega (homem) que me acompanhasse em algumas reuniões, dito isto o espaço de uma mulher no mundo corporativo tem de ser sempre conquistado porque, embora seja expectável que todos tenham de ser merecedores do seu lugar, é um dado adquirido de que determinado cargo possa ser ocupado por um homem». Para Daniela a liderança feminina toma a forma que cada líder define. «De forma genérica e pela minha experiência, a liderança feminina é mais ponderada, mais capaz de construir relações de confiança, é mais cooperante e aquando uma crise, é capaz de ter um maior controlo emocional que permite racionalizar a resolução do problema com clareza e orientação», afirma, acreditando que «as mulheres são também criativas e ambiciosas pelo que, na minha experiência, estão constantemente à procura de melhorar o que já foi feito e de trazer inovações».

Estimular o empreendedorismo feminino

Susana Costa refere que a remuneração média mensal das mulheres continua a ser significativamente inferior à dos homens. «Estimular o empreendedorismo feminino é importante, desde logo, no sentido em que poderá representar o aumento dos seus rendimentos e a sua independência financeira», afirma, acrescentando que «todos ganham quando existem várias perspectivas (masculinas e femininas), o que faz com que o mundo do empreendedorismo seja mais abrangente, inclusivo e inovador». Não tendo o hábito de diferenciar o empreendedorismo feminino do masculino, a fundadora da Tartaruguita, acrescenta que há, de facto características distintas. Claro que há algumas características mais típicas neles e outras mais comuns nelas que podem ser importantes para determinada área de negócio», refere, «mas, a base motivadora e o caminho para o desenvolvimento profissional penso que passam mais por outras questões que não as de género. Importantes serão os conhecimentos, as capacidades e as competências da pessoa e essas não são exclusivas de nenhum género».

«Não sei muito bem o que é estimular o empreendedorismo (feminino) porque considero que ser empreendedor é algo de muito individual», afirma Manuela Carabina, para quem ser empreendedor é uma vontade espontânea que parte do nosso ser profundo. «É ter vontade de fazer algo, aliás o empreendedorismo não se limita ao mundo empresarial, abrange muitas áreas, as artes, o voluntariado, a esfera familiar, mas o estímulo tem que partir de dentro de nós para ser bem-sucedido».

De acordo com a sua experiência, Clarisse Marques traduz empreendedorismo na busca de oportunidades e iniciativas, «inovar não se limita a criar somente um produto ou serviço novo, também pode ser encontrar formas criativas de oferecer os serviços que já existem na empresa para ganhar a atenção dos consumidores, utilizando estratégias de marketing». A responsável da Lactimonte acredita que a capacidade de inovar pode ser decisiva para um negócio ter visibilidade ao oferecer soluções mais interessantes que a concorrência. «Existem diversas maneiras de inovar e isso requer do empreendedor a habilidade de perceber as necessidades do mercado e dos clientes, além de planear a oferta dos serviços de modo que atendam os interesses do público-alvo, ao mesmo tempo que se destaquem no mercado».

Na opinião de Daniela Simões quando se é mulher numa posição de liderança e num sector dominado por homens, os desafios são maiores e diferentes. «Diferentes porque o homem e a mulher têm papéis extra-laborais distintos e que nem sempre se podem ou conseguem equilibrar», explica, e maiores porque «uma mulher não é reconhecida de forma imediata como uma autoridade na sua própria área de expertise, sendo necessário ter de se provar o dobro quando comparado a uma figura de autoridade masculina, que me parece ser reconhecida como tal mesmo antes da primeira interacção». Para a CEO e co-fundadora da miio, este tipo de desafios vai-se atenuando ao longo do tempo, «na medida em que as provas de competência, de inovação e de valor vão sendo demonstradas; no entanto, será necessário termos uma maior percentagem de mulheres no mundo corporativo para que a nossa presença seja normalizada».

Ter sucesso sabendo driblar os desafios e as dificuldades  

Manuela Carabina defende que as mulheres são mais lutadoras pelos seus objectivos, talvez até mais determinadas por existir nelas um forte espírito de sobrevivência próprio da função maternal da mulher. «Creio que somos mais emocionais e menos racionais e isso também se reflecte na forma como gerimos os nossos negócios», analisa, «mas isso é uma observação muito pessoal, creio que não devemos generalizar». Olhando para o futuro, a responsável da Fragoleto acredito que esta época pós pandémica vai trazer novas oportunidades. «Os períodos de dificuldades servem sempre para nos reforçar, para nos adaptarmos e, sobretudo, para nunca deixar de acreditar nas nossas capacidades e no nosso valor».

Neste período pós pandemia Covid-19 há questões que são de sempre, acredita Susana Costa. «Conciliar a vida pessoal e carreira continuará a não ser fácil, pelo que harmonizar as duas realidades, saber parar/desligar e ter uma boa rede de apoio e suporte é fundamental». Analisando que os tempos que vivemos podem ser, de facto, muito desafiantes, e embora existam coisas que não conseguimos controlar, «se conseguirmos encarar os desafios como oportunidades e não como problemas, poderemos sair, pelo menos de alguns, deles mais reforçadas e motivadas».

«O maior desafio é o preconceito». Quem o diz é Clarisse Marques. «Durante muito tempo, acreditou-se que a mulher foi feita exclusivamente para cuidar de casa e dos filhos e que não tinha capacidade para executar nenhuma outra tarefa que não fosse relacionada ao lar e à maternidade«, relembra. «Com o tempo, e graças às reivindicações de grupos, essa situação foi-se modificando e a mulher foi conquistando o seu espaço em outros cenários: ela estudou, entrou no mercado de trabalho, chegou a cargos de liderança e hoje tem o seu próprio negócio». Clarisse Marques refere que Portugal pode ser uma sociedade relativamente tradicionalista onde desde cedo os homens são educados para trabalhar e sustentar a sua família e/ou eles próprios, enquanto as mulheres são educadas para encontrar alguém que as sustente. «O isolamento social dificultou a comunicação e a criação de muitas experiências presenciais, forçando processos de inovação que caminhavam a passos lentos no mercado», refere, acreditando que, em tempos de instabilidade económica, é fundamental ser criativo e diferenciador para conseguir sobreviver num mercado altamente competitivo. «Uma crise revela sempre as vulnerabilidades do sistema e a Covid-19 veio expô-las fortemente», mas «a Covid-19 também abriu caminho a progressos consideráveis e ficámos todos a percebemos o que podemos alcançar quando é dada a devida oportunidade».

 

O que é que as organizações têm a ganhar ao investir na liderança feminina?

Homens e mulheres têm diferenças biológicas: de entre as várias e de uma forma muito genérica, alguns estudos apontam que os homens têm mais interesse em coisas e as mulheres têm mais interesse em pessoas, relembra Daniela Simões. «Costuma-se então proliferar que os homens têm maior tendência para seguir carreiras em engenharias, informática ou matemática por exemplo e, as mulheres têm tendência a seguir carreiras que envolvam maior cuidado e contacto com pessoas, como medicina, advocacia ou psicologia», mas para a CEO e co-fundadora da miio, será falacioso pensar que um potencial maior interesse em pessoas descuida o interesse em coisas e vice-versa. «No meu caso, realizei um mestrado em engenharia de computadores e telemática, a par com outras (poucas) mulheres e, felizmente, os números têm crescido todos os anos». Quando se trata de um cargo de liderança, é muito importante ter aquilo que as mulheres têm por default «um controlo emocional desenvolvido e capacidade de oratória: isto permite que o pensamento crítico flua sem tantos viés e que se exponham os problemas e soluções eficazmente», defende. Dadas as caraterísticas de liderança feminina que assinalou, Daniela Simões acredita que existem algumas consequências que são visíveis numa organização. «A capacidade de comunicação, maturidade emocional e ponderação ao enfrentar decisões sérias ou crises, fazem toda a diferença para que não se tomem medidas precipitadas ou se rompam parcerias importantes ao se ser capaz de comunicar de forma controlada e clara».
As empresas são pessoas, pelo que a capacidade de criar laços de confiança são fundamentais para que as organizações possam cooperar e somar valências, refere. «Também a cooperação como caraterística permite uma liderança mais inclusiva, permitindo que a própria equipa participe na resolução de problemas de forma independente da hierarquia, mantendo a equipa motivada e orientada ao objectivo», afirma Daniela. «Qualquer organização beneficia de heterogeneidade e visões distintas, para que se encontrem melhores e mais produtivas soluções: e isso acontece também através da inclusão de mais mulheres no mundo corporativo», conclui.

 

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