
Reter talento em tempos de pleno emprego: um desafio cultural e estratégico
Nos últimos anos, Portugal tem vivido um cenário paradoxal: níveis historicamente baixos de desemprego coexistem com uma dificuldade crescente das empresas em reter os seus melhores profissionais. A questão da retenção de talento, longe de ser nova, ganha renovada urgência num mercado em que os trabalhadores têm hoje mais poder de escolha do que nunca.
Por Sofia Croft, head of People and Culture do ComparaJá
Em contexto de pleno emprego, as pessoas deixam de trabalhar apenas por necessidade e passam a valorizar factores como qualidade de vida, desenvolvimento contínuo, flexibilidade, trabalho remoto e propósito. Já não basta oferecer um salário competitivo, é imperativo construir um ecossistema organizacional que motive, desafie e promova uma ligação emocional sustentável entre colaborador e empresa.
Neste novo paradigma, a retenção deve ser encarada não como uma função exclusiva dos Recursos Humanos, mas como uma responsabilidade estratégica partilhada por toda a liderança. Implica uma abordagem coerente e intencional: culturas organizacionais coesas, lideranças humanas e inspiradoras, planos de progressão transparentes e condições reais de equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
Muitas empresas continuam, ainda assim, a responder a esta realidade com medidas reactivas, como benefícios imediatos ou aumentos salariais pontuais. Apesar de poderem funcionar a curto prazo, são raramente suficientes para garantir o compromisso duradouro dos profissionais.
A mobilidade internacional representa um desafio adicional. Os profissionais mais qualificados, fluentes em línguas estrangeiras e com competências digitais sólidas, sabem que podem encontrar oportunidades competitivas fora do país — com salários mais elevados e planos de carreira mais ambiciosos. Se o mercado nacional não conseguir competir em atractividade global, o risco de perda de talento continuará a acentuar-se.
É, por isso, essencial encarar a retenção como uma estratégia de longo prazo, integrada na visão da empresa. Investir em formação contínua, dar autonomia, fomentar relações de confiança, ouvir activamente e alinhar expectativas individuais com os objectivos organizacionais são passos essenciais para criar ambientes onde as pessoas queiram, genuinamente, permanecer e evoluir.
Num mercado em que a oferta de emprego supera a procura, a verdadeira vantagem competitiva das empresas reside, cada vez mais, na sua capacidade de atrair, desenvolver e reter talento. Isso exige visão, consistência e coragem para colocar as pessoas no centro das decisões estratégicas.
Reter talento é, mais do que nunca, uma questão cultural. E a cultura é a única vantagem que não se copia.