Sara Silva, L’Oréal: Cultivar uma cultura de “poeta e camponês”

No âmbito do especial dos 15 anos da Human Resources, desafiámos responsáveis de empresas a perspectivarem os pontos-chave da liderança para os próximos 15 anos.

 

Por Sara Silva, Directora de Relações Humanas da L’Oréal

Falar ou escrever sobre liderança é sempre um desafio complexo e subjectivo. Depende da experiência de cada um de nós e do contexto onde trabalhamos. A liderança do futuro para uns já é o presente para outros, mas é certo que estamos num ponto de viragem, aparentemente sem retorno. De um modelo de liderança mais tradicional, por vezes hierárquico e focado no comando e controlo, para uma abordagem que valoriza a autonomia, a colaboração e o propósito.

Onde estamos? Num “laboratório” de experiências, onde muitos líderes ainda procuram o equilíbrio entre a estabilidade e a agilidade. Para onde queremos e devemos ir? Precisamos de evoluir para uma liderança verdadeiramente humana, capacitadora e inclusiva, que não só gere o negócio, mas também promove o bem-estar e o desenvolvimento das pessoas, no caso da L’Oréal reflectindo os valores de uma empresa que se foca em “Criar a Beleza que faz Avançar o Mundo”.

A grande disrupção que está a “obrigar” à mudança nas lideranças não tem causa única e é, na verdade, um conjunto de factores interligados. Para uma empresa como a L’Oréal, a digitalização massiva e a inteligência artificial não são apenas tendências, mas realidades que redefinem o trabalho, desde a pesquisa e desenvolvimento de produtos até às campanhas de marketing e à interacção com o consumidor.

A crescente globalização e a complexidade dos mercados, aliadas às mudanças demográficas e à entrada de novas gerações (como a geração Z) com expectativas diferentes de propósito e flexibilidade, exigem uma agilidade sem precedentes. Além disso, a consciência social e ambiental crescente impulsiona as empresas a assumirem um papel mais activo na sustentabilidade, algo que a L’Oréal tem demonstrado com compromissos ambiciosos como o seu programa “L’Oréal for the Future”. Estes elementos criam um ambiente BANI (Brittle, Anxious, Non-linear, e Incomprehensible) que as lideranças tradicionais não conseguem, por si só, navegar eficazmente.

Para os “líderes do futuro” – que, na verdade, estou certa de que já são os líderes do presente –, as competências essenciais são multifacetadas. Na L’Oréal, nos dias de hoje, já recrutamos com base no potencial e avaliamos os líderes pela sua capacidade tanto de liderar como de capacitarem os outros para prosperarem.

Apostamos em líderes inovadores – coloca o consumidor no centro; desafia o status quo e procura a excelência; inova para além do produto; está atento a novas tendências; abre novos caminhos.

São estrategas – constrói uma visão partilhada e um quadro estratégico; cria cenários estratégicos para o crescimento; lidera a transformação alinhando a organização e as capacidades humanas; demonstra bom senso na tomada de decisões.

Promovemos líderes empreendedores – assume responsabilidades com coragem e transparência; dá espaço para iniciativas e permite que as equipas assumam riscos; entrega com integridade resultados sustentáveis e de curto prazo.

Valorizamos líderes integradores – promove um clima de confiança e partilha; desenvolve o desempenho colectivo da equipa e melhora a cooperação transversal; promove uma aprendizagem contínua.

Por último, o líder na L’Oréal é um líder do desenvolvimento dos seus colaboradores – trata todos os indivíduos com respeito; valoriza a diversidade e a inclusão; capacita e desenvolve os indivíduos para que todos contribuam.

Não menos importantes – e na realidade muito poderosas – são outras competências transversais no mercado de trabalho de hoje, como a inteligência emocional e a empatia; a adaptabilidade e a resiliência. O tipo de relações que devem ter é baseado na confiança, na transparência, na autenticidade e na inclusão. Para a L’Oréal, que tem uma força de trabalho altamente diversificada e presente em todo o mundo, promover a segurança psicológica, onde todos se sintam valorizados e capazes de contribuir sem medo, é um pilar da nossa cultura.

Acredito que o perfil do líder ideal em 2030 será o de um “líder facilitador” e um “líder servidor”. Acredito também que, na L’Oréal, isto significa continuar a cultivar uma cultura de “poeta e camponês”. Valorizamos e encorajamos a coexistência e a colaboração entre aqueles que sonham e idealizam (os poetas) e aqueles que executam e concretizam (os camponeses). É a fusão da visão estratégica e criativa com a disciplina operacional e a excelência na execução, permitindo que as grandes ideias se transformem em sucesso tangível no mercado. É a valorização tanto do pensamento disruptivo quanto da capacidade de transformar esse pensamento em resultados reais, todos os dias. Não será um “sabe-tudo”, mas um “aprende-tudo”, humilde na sua abordagem, mas corajoso nas suas decisões, promovendo a ética, audácia e a paixão que caracterizam a L’Oréal.

Este artigo faz parte do Tema de Capa publicado na edição de Julho (nº. 175) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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