
SEEL – Superação, Empreendedorismo, Empoderamento e Liderança
Por Rui Roque, sociólogo
“Si queréis saber más sobre la feminidad, podéis consultar a vuestra própria experiencia de vida, o preguntar a los poetas” (Maria Antonieta Garcia)

A presente reflexão pretende aferir de que modo a Liderança no Feminino, contribuiu para uma maior humanização do mercado laboral. No seguimento dos artigos anteriores, nomeadamente Empreendedorismo no Feminino e Ancestrais, neste texto irei debruçar-me sobre três conceitos: superação, empreendedorismo e empoderamento, e sobre a sua influência neste tipo de liderança, no fundo, no novo modo como vivemos o dia-a-dia nas organizações.
Há muito que a mulher deixou de ser apenas espectadora e passou a ser protagonista, mesmo nos lugares de topo das organizações.
Possuidora de um ADN diferenciado, durante muito tempo ofuscado por uma liderança condicionada por um mercado de trabalho “patriarcal”, deve-se à sua ascensão no mercado laboral um incremento das relações entre líderes e liderados. Ninguém melhor para compreender as bases do que alguém que pela sua antifragilidade, resiliência, empreendedorismo e, porque não, empoderamento entretanto adquirido consegue transportar do modelo micro-económico (economia familiar) novas técnicas de liderança, que lhe permitiram superar-se, empreender e alcançar o sucesso num espaço mais amplo (empresa, organização, etc.).
Quais as consequências que a simbiose entre estes três conceitos, juntamente com outros que lhe são subsequentes, têm na liderança? Qual é a relevância deste novo olhar (SEEL) em quem lidera e em quem é liderado?
Esta nova liderança é por vezes silenciosa, focada nas pessoas e sobretudo nas soluções para os constrangimentos/desafios do dia-a-dia. Esta nova visão da liderança, resultado de um maior equilíbrio dos vários tipos de liderança, pode ser resumido ao conceito de Liderança Andrógina, defendido por Teresa Damásio.
Para Teresa Damásio, a liderança “é a competência de inspirar, influenciar e guiar um grupo de pessoas, para alcançar um objectivo comum. É a capacidade de tomar decisões, motivar, comunicar e coordenar as acções da sua própria equipa para alcançar um objectivo específico. (…) Existem diversos tipos de liderança cada um com as suas características, vantagens e desvantagens e a escolha do estilo adequado dependerá das características do grupo e do contexto em que a liderança será exercida. (…) A liderança andrógina, é a melhor forma de exercer a liderança, pois mistura capacidades masculinas com as capacidades femininas”. Um exemplo disso mesmo foi-nos dado recentemente pelos presidentes dos municípios de Coimbra e Leiria, Ana Abrunhosa e Gonçalo Lopes, durante e no pós Kristin.
À ilustração do Telmo Guerra, acrescentaria que este novo olhar focado, atento a tudo o que a rodeia, não permitiu apenas a ascensão da mulher no mercado laboral, como tornou a liderança mais emocional, mais humana, no fundo como a conhecemos actualmente.
Mas como foi possível esta passagem de lideradas a líderes?
Defendo que foi a simbiose dos conceitos que permitiu essa passagem em três momentos:
- Superação;
- Empreendedorismo;
- Empoderamento.
A superação, para Ortega y Gasset, é fruto da assimilação das experiências diárias, mesmos as menos positivas. No fundo é a através da superação dos erros que o indivíduo se realiza enquanto ser “pensante”.
A superação diária do indivíduo, permite-lhe:
- Conhecer-se melhor;
- Compreender os outros e ajustar o seu comportamento;
- Criar valor para a sua organização;
- Antecipar a mudança (empreendedorismo).
Anteriormente, em Empreendedorismo no Feminino, defendi que o empreendedorismo é uma característica inerente ao Homem desde os primeiros tempos da sua existência. Comungo da opinião de Porfirio (Franco: 2019), quando afirma que “Empreendedor é aquele que é capaz de assumir riscos e responsabilidades, concebendo e implementando estratégias inovadoras e criando negócios novos”. No caso da mulher empreendedora, Porfirio (Franco: 2019), vai mais além, e afirma: “A mulher identifica oportunidades, estuda habilidades criativas na actividade produtiva e assume riscos e incertezas nos empreendimentos”.
O empoderamento, surge neste processo como o fortalecimento do poder, da acção, da voz, bem como da participação feminina em todos os sectores da sociedade, tendo como objectivo final uma maior igualdade do género.
Dos princípios do empoderamento que a ONU definiu destacam-se os seguintes:
- Igualdade, inclusão e não discriminação;
- Saúde, segurança e bem-estar;
- Educação e formação.
Fruto dos vários intercâmbios entre estes três factores foi possível alcançar-se uma liderança mais emocional, mais humanizada, num tempo em que a inteligência artificial ganha terreno.
Esta liderança simultaneamente emocional e racional, ao contrário do que se possa pensar, tem uma origem comum. São as emoções e os sentimentos que nos permitem socializar de uma forma plena e através do nosso raciocínio efectuar as escolhas que determinaram o nosso futuro enquanto seres pensantes.
Os sentimentos, tal como Damásio (2025), os define, são: “imagens que descrevem, para cada uma de nós, o estado de vida no interior do organismo, os seus altos e baixos, um estado que tem que ser cuidadosamente observado e regulado de modo que possamos continuar vivos”. Ao contrário do que ao longo do tempo fomos acreditando, e de acordo com o que Bracckett (2024) defende,“Não é coincidência que ainda hoje gostemos de encarar a inteligência e a emoção como provenientes de duas partes totalmente diferentes do nosso corpo – uma da cabeça outra do coração. A inteligência emocional (…) demonstrava que as emoções sabiamente usadas ajudavam ao raciocínio e à resolução de problemas complexos”.
Em suma, podemos concluir que, fruto desta nova liderança, enriquecida com a alteração do papel que a mulher passou a desempenhar no mercado laboral, devemos ter a consciência de que serão as nossas escolhas do presente que condicionarão o nosso futuro.
Defendo que, no futuro próximo, existirá uma complementaridade entre emocional e racional/artificial, uma vez que as nossas escolhas do presente encontrarão reflexo no nosso futuro. Não devemos, no entanto, esquecer o conselho dado por Mark Breckett (2024): “Parar de sentir seria como parar de pensar. (…) As nossas emoções constituem uma grande parte – talvez a maior – daquilo que faz de nós humanos”.