Três grandes mudanças + uma

«Em momentos de profunda crise, ainda mais se sente essa centralidade do capital humano como fonte de mudança.»

 

Por Clara Raposo, presidente do ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa

 

«Parabéns, Human Resources! 10 anos a acompanhar o crescimento de tantos profissionais que têm visto as suas vidas sofrerem significativas alterações nesta década. É também há 10 anos que estou no ISEG: tenho tido a oportunidade de, na universidade, acompanhar a mudança na investigação nestas áreas, assim como na formação dos novos gestores e na requalificação de quem já está mais maduro no mercado.

Aquilo que, de forma mais relevante, mudou em 10 anos pode não ser consensual. Do meu ponto de vista, as maiores mudanças são três e têm a ver com a transformação digital, começando pela maior presença de tecnologia no dia-a-dia de quase todas as profissões. A par desta mudança, passou a haver também uma menor separação entre a vida profissional de muitos de nós e aquilo que é o tempo que dedicamos a lazer ou a “vida pessoal”, uma tendência que está muito ligada à popularidade que adquiriram as redes sociais (mesmo o Linkedin), que nos levam a uma partilha quase contínua daquilo que se passa no nosso trabalho e do que o influencia. Ou seja, aspectos que seriam “privados” há uns anos, são hoje mais facilmente partilhados – assistimos a uma certa perda de privacidade em troca de maior publicidade. O terceiro elemento de tendência da última década que gostaria de destacar é a valorização do indivíduo, enquanto alguém que se quer desenvolver – e ao seu talento –, em profissões não exactamente “artísticas” como aquelas ligadas à gestão. Há um certo culto da juventude, dos profissionais que procuram descobrir o seu sonho e nele desvendar o seu talento, quais “rock stars”.

Os jovens profissionais, com um objectivo de maior flexibilidade na gestão do seu tempo e um maior apego à experiência do que à posse, fazem com que as relações no trabalho se alterem – entre as pessoas e também na sua interacção com o espaço físico. Atrair e reter talento foram keywords da segunda década do século XXI.

Aquilo que a pandemia veio alterar de forma súbita foi, essencialmente, a generalização do teletrabalho, em muitos casos adoptado por necessidade mais do que por desejo. Apesar do muito que as organizações terão de afinar quanto à Gestão de Pessoas (e de tudo), presencialmente e de forma remota, esta experiência traz alguma aprendizagem e uma clara noção de que podemos mudar hábitos – de vida e de trabalho.

A outra grande mudança que a pandemia nos trouxe foi a consciencialização de todos acerca da importância das pessoas. Foi uma questão de saúde pública e preservação de vidas que nos fez parar a todos. Essa lição fica. Sim, as pessoas e a sua capacidade de adaptação e criação estarão no centro e assumem um papel estratégico. Em momentos de profunda crise, ainda mais se sente essa centralidade do capital humano como fonte de mudança – é na sua motivação que residirá a resiliência de muitas organizações. Aí e na sua maior consciencialização da necessidade de se ter em conta o impacto de cada um, e de cada organização, num todo de que todos dependemos.»

Este artigo faz parte do tema de capa da edição de Julho (n.º 115) da Human Resources, nas bancas.

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