Pandemia colocou quase metade da população activa da UE em teletrabalho

Human Resources com Lusa
9 de Março 2021 | 09:01

A pandemia COVID-19 fez com que quase metade da população activa da União Europeia (UE) estivesse em teletrabalho, total ou parcial, em Julho, contra cerca de 10% antes da crise pandémica, segundo o Eurofound.

 

Esta nova realidade laboral, acelerada pela pandemia, vai estar em discussão na terça-feira numa conferência de alto nível sobre o futuro do trabalho intitulada “Trabalho Remoto: Desafios, Riscos e Oportunidades” realizada, por via remota, no âmbito da presidência portuguesa do Conselho da UE.

Os resultados mais recentes de uma pesquisa efectuada pelo Eurofound (Fundação Europeia para a Melhoria das Condições de Vida e de Trabalho), com base em cerca de 90 mil inquéritos online realizados em Julho, mostram que quase metade (48%) dos inquiridos estava em trabalho remoto, pelo menos uma parte do tempo.

Destes, mais de um terço (34%) trabalhavam exclusivamente em casa, ou seja, mais de um em cada três trabalhadores estava nesta situação.

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Os dados contrastam com os verificados antes da pandemia, em 2018, quando «menos de um em vinte trabalhadores» relataram trabalhar de forma remota regularmente e «menos de um em cada dez ocasionalmente», lê-se no estudo, intitulado «Living, Working and Covid-19», citando dados da Comissão Europeia.

A proporção de pessoas a trabalhar exclusivamente em casa varia, contudo, de forma significativa entre os Estados-membros.

A Bélgica é o país onde a percentagem de teletrabalhadores é mais elevada (superior a 50%), seguindo-se Irlanda, Itália, Espanha e França, com níveis acima dos 40%.

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Portugal surge em sexto lugar, com quase 40% de teletrabalhadores em casa, seguido logo de perto pela Dinamarca.

Com taxas inferiores à da média europeia estão países como a Grécia, Finlândia ou Alemanha, com percentagens ligeiramente superiores a 20%, enquanto na Croácia, Polónia, Eslováquia, Bulgária e Hungria apenas cerca de um quinto dos trabalhadores estava em casa.

Os dados do Eurofound mostram ainda que do total de inquiridos que estavam a trabalhar em casa, a maioria (74%) tinha qualificação superior.

Por actividade, o sector dos serviços foi o que registou maior incidência de teletrabalhadores, enquanto os sectores com menores níveis foram os da linha da frente, como a saúde, transportes e agricultura bem como os afectados diretamente pelas restrições, como é o caso do comércio e alojamento.

Daqueles que trabalharam em casa durante a crise pandémica, mais de metade (54%) já o tinha feito anteriormente, enquanto 46% eram novos teletrabalhadores.

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Uma das questões em discussão sobre o teletrabalho é a falta de limites que pode existir entre o trabalho e a vida não profissional e, de acordo com a pesquisa, um quinto dos teletrabalhadores (24%) relataram trabalhar durante o seu tempo livre, enquanto apenas 6% dos que trabalhavam nas instalações da empresa ou locais fora de casa o admitiram.

No entanto, a maioria dos teletrabalhadores disse que deseja continuar a trabalhar a partir de casa após a crise pandémica, pelo menos às vezes.

«Parece muito provável que a experiência de trabalhar em casa durante a crise COVID-19 levará a um crescimento do teletrabalho quando a crise diminuir», conclui o Eurofound, indicando que 78% dos trabalhadores inquiridos em julho manifestaram preferência por trabalhar em casa, pelo menos ocasionalmente, mesmo se não houvesse a pandemia e as restrições impostas pelos governos.

A principal preferência manifestada foi a possibilidade de estar em teletrabalho várias vezes por semana (32%), com apenas 13% a indicar que gostariam de teletrabalhar diariamente.

Para o economista e professor da Universidade do Minho João Cerejeira, o teletrabalho «veio para ficar, nomeadamente em modalidades mais híbridas».

«Quando se resolver a pandemia, o recurso ao teletrabalho, que agora acelerou, é capaz de cair, mas não há dúvida de que vai ficar a um nível muito maior do que era a tendência anterior», vinca o economista à Lusa.

João Cerejeira considera que há mais vantagens do que desvantagens tanto para o trabalhador como para as empresas, mas é preciso regular o regime laboral.

«A legislação é muito vaga e tem de ficar definido quem é que paga o quê, a questão da conciliação da vida familiar e laboral, que horário cumprir, a forma de monitorizar o trabalho ou a avaliação», defende João Cerejeira.

Em Portugal, a discussão sobre a regulação do teletrabalho deverá arrancar após a conclusão do Livro Verde sobre o futuro do trabalho, que deveria estar concluído até final de 2020 mas que ainda não é conhecido.

Na terça-feira, o tema estará em debate na conferência organizada pela presidência portuguesa da UE sobre o futuro do trabalho, dinamizada pela ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho, e pelo secretário de Estado Adjunto do Trabalho e da Formação Profissional, Miguel Cabrita.

Na conferência serão analisadas as mudanças no mercado de trabalho nos últimos anos, nomeadamente as novas formas de trabalho e de organização dos tempos de trabalho, a conciliação entre a vida profissional e pessoal e o direito a desligar.

A sessão de abertura vai contar com a participação do primeiro-ministro, António Costa, bem como do diretor-geral da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Guy Ryder, e do comissário europeu para o emprego e direitos sociais, Nicolas Schmit.

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