
Qual o maior ponto de ruptura entre trabalhadores e empresas?
A 10.ª edição do estudo Randstad Employer Brand Research, lançada este mês, traz algumas conclusões animadoras, mas deixa igualmente alertas sobre o que leva os portugueses a abandonar uma empresa. Mais de metade dos trabalhadores sentem-se motivados no seu emprego, contudo há um factor a contribuir para a quebra dessa motivação: o salário.
Nos últimos 25 anos, a Randstad tem levado a cabo um inquérito independente junto de 32 mercados, incluindo Portugal (é o maior a nível mundial sobre marca empregadora), para aferir a atractividade das empresas. Os resultados reflectem a percepção de cerca de 173 mil entrevistados (com idades compreendidas entre os 18 e os 65 anos) sobre 6084 empresas em todo o mundo.
A pesquisa centra-se nos factores que os profissionais mais valorizam ao escolher (ou abandonar) uma empresa onde trabalhar, e revela quais são as mais atractivas, segundo os portugueses. «Esta análise crucial surge num contexto de escassez de talento e transformação do mundo do trabalho», destaca-se. E o CEO da Randstad Portugal, Raul Neto, realça: «Este estudo não é só um ranking, é mais do que isso. É percepcionar como esta coligação entre profissionais e empresas pode funcionar no seu pleno.» Mais «As opiniões ouvidas dos profissionais não são meramente uma quantificação, são sinais claros das suas preferências e motivações para estarem numa organização», acrescenta.
A edição de 2025 do Randstad Employer Brand Research, que celebra 10 anos em Portugal, mostra que os critérios de escolha de um empregador ideal se mantêm estáveis face aos três anos anteriores, demonstrando uma consistência clara nas prioridades dos profissionais portugueses: salário e outros benefícios (74%), equilíbrio entre vida pessoal e profissional (64%), ambiente de trabalho positivo (64%), segurança no emprego (58%) e oportunidades de progressão na carreira (58%).
Na análise aos resultados do Employer Brand Research 2025, as principais conclusões dividem-se em cinco temas, com foco nas gerações e nas especializações (operacional, profissional, digital):
O perfil do empregador ideal em Portugal manteve-se estável nos últimos três anos, o que demonstra que as principais expectativas dos trabalhadores não sofreram alterações significativas. O salário, os benefícios e o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal continuam a ser as principais prioridades em todos os tipos de emprego. No entanto, o fosso entre o que os trabalhadores esperam em termos de salários e benefícios atractivos e o que os empregadores oferecem continua a aumentar.
Embora esta diferença possa demorar algum tempo a ser colmatada, continua a ser uma área crítica para os empregadores. O lado positivo é que os empregadores em Portugal têm bons resultados em termos de segurança no emprego – um ponto forte que podem aproveitar activamente para aumentar a satisfação geral dos trabalhadores e reforçar os esforços de retenção.
Os millennials dão mais importância ao salário e aos benefícios do que as outras gerações, embora entre os millennials, geração Z e geração X, esta continue a ser a principal prioridade geral. Contudo, a progressão na carreira é mais importante para a geração Z e para a geração X, ao passo que para a geração Y não faz parte dos cinco principais factores; em vez disso, esta dá prioridade à saúde financeira como factor-chave.
Os empregadores têm uma clara vantagem com a geração Z, que os classifica significativamente melhor em termos de progressão na carreira, em comparação com as outras gerações – um factor diferenciador fundamental, dada a importância das oportunidades de progressão para este grupo. De facto, a geração Z tende a ver os empregadores de forma mais positiva em vários factores, incluindo o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, um ambiente de trabalho agradável e o salário. Entretanto, a geração X destaca-se pelas suas opiniões particularmente positivas sobre a saúde financeira dos empregadores e a segurança no emprego.
Embora o salário e os benefícios e o equilíbrio entre a vida profissional e a vida privada sejam consistentemente classificados como as duas principais prioridades em todos os tipos de emprego, a importância de outros factores varia consoante a função. Os talentos operacionais e profissionais têm perfis de empregador ideal muito semelhantes, com uma diferença fundamental: os trabalhadores operacionais dão prioridade à segurança no emprego, enquanto os profissionais colocam a saúde financeira entre as cinco principais prioridades.
Os profissionais do mundo digital, porém, mostram preferências distintas. Ao contrário dos outros grupos, não colocam um ambiente de trabalho agradável entre as suas cinco principais prioridades. Em vez disso, a possibilidade de trabalho remoto – um factor exclusivamente relevante para este sector – ocupa o seu lugar. A segurança no emprego também é mais importante para os trabalhadores do sector digital do que para o pessoal operacional e profissional, o que revela as preocupações e expectativas específicas deste segmento de talentos.
Retenção e reskilling
A intenção de mudar de emprego aumentou, enquanto a mudança efectiva de emprego diminuiu. A requalificação continua a ser fundamental.
O comportamento de mudança de emprego em Portugal manteve-se relativamente estável. Esta consistência sugere que não existe uma urgência generalizada em mudar de emprego, o que representa uma oportunidade para os empregadores se concentrarem em estratégias de retenção a longo prazo em vez de em contratações reactivas. Embora a baixa remuneração continue a ser a principal razão pela qual os empregados consideram deixar os seus empregos, a sua influência – juntamente com outros factores como o crescimento na carreira, o interesse pelo emprego e as ofertas externas –, diminuiu ligeiramente desde o ano passado.
Em contrapartida, o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal manteve-se estável, tornando-se relativamente mais proeminente como factor de desgaste. Esta mudança sugere que, embora a remuneração continue a ser fundamental, a estabilidade e o bem-estar estão a tornar-se mais importantes para as decisões dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, a requalificação profissional surgiu como um forte factor de retenção, com 83% dos trabalhadores portugueses a darem importância à aprendizagem e ao desenvolvimento contínuos.
Isabel Roseiro, directora de Marketing da Randstad Portugal, faz notar que, «se, por um lado, critérios como a segurança no emprego são reconhecidos nos empregadores actuais, a forte aspiração por melhores salários e benefícios é um factor crucial para o empregador ideal, o que evidencia uma lacuna nas expectativas salariais e também influencia directamente o nível de compromisso e a motivação dos profissionais em permanecerem nas suas actuais funções. Compreender e endereçar estas prioridades é fundamental para construir uma força de trabalho comprometida e leal», defende.
A geração Z apresenta a taxa mais elevada de mudança de emprego, com 19% a mudarem de funções, muito à frente das gerações mais velhas, como os baby boomers, em que apenas 4% o fizeram. Esta diferença reflecte diferentes prioridades, fases da carreira e níveis de tolerância ao risco. Também adoptam uma abordagem distinta à procura de emprego, baseando-se fortemente em plataformas como o Google e as redes sociais para procurar oportunidades. A par dos millennials, também são mais propensos a utilizar o LinkedIn, com uma média de 57% de utilização da plataforma – consideravelmente mais elevada do que a geração X (48%). Em contrapartida, a geração X tende a favorecer métodos mais tradicionais, apoiando-se mais em redes pessoais e agências de recrutamento para encontrar novas funções.
Leia o artigo na íntegra na edição de Maio (nº. 173) da Human Resources, nas bancas.
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