
Galp: Transformação pelo voluntariado
A Fundação Galp mobiliza colaboradores para iniciativas de impacto social desde 2011, focadas em educação, energia e equidade, fortalecendo comunidades em Portugal e no exterior.
O programa de voluntariado da Galp reflecte o compromisso da empresa com o bem-estar das comunidades onde actua, promovendo iniciativas que aliam propósito e mudança social. Sandra Aparício, directora executiva da Fundação Galp, partilha como esta iniciativa evoluiu, destacando o crescimento da participação dos colaboradores, as estratégias que impulsionam a cultura de voluntariado e o papel da Fundação como investidora social, alinhada com objectivos de educação, energia e redução de desigualdades.
O programa de voluntariado da Galp existe desde 2011 e beneficiou 6281 pessoas só em 2024. Como tem evoluído ao longo destes 14 anos e qual considera ser hoje a sua principal missão?
O programa de voluntariado da Galp foi criado com a missão de promover a intervenção nas comunidades onde operamos, em linha com os eixos da nossa estratégia de impacto social.
Desde sempre registámos uma elevada adesão por parte dos colaboradores, embora os números tenham crescido substancialmente nos últimos três anos. Isso deve-se à alteração da nossa estratégia, que integrou o voluntariado empresarial num ecossistema de impacto social mais amplo. Através da Fundação Galp, somos hoje investidores das organizações sociais, e as acções de voluntariado apoiam directamente a transformação das organizações e das comunidades. Construímos laços de proximidade com as comunidades e isso tem um valor para os voluntários, para os beneficiários e para a empresa.
No último ano, participaram 1957 colaboradores, um aumento de 56% face a 2022. Que estratégias foram fundamentais para esse crescimento e como se promove internamente a cultura de voluntariado?
Destaco quatro elementos fundamentais. Em primeiro lugar, o impacto individual. As acções dos voluntários têm consequências reais na vida de pessoas e comunidades, nas áreas prioritárias da Fundação Galp: educação, energia e redução das desigualdades. Mostrar esse impacto é a melhor forma de motivar e atrair novos voluntários.
O que me leva ao segundo ponto: o exemplo da empresa. A Galp concede a cada colaborador até 48 horas anuais (seis dias úteis) para exercer a sua cidadania através do voluntariado. Em terceiro lugar, o compromisso das lideranças. Todos os elementos da Comissão Executiva e mais de 70% dos directores da Galp participam em acções de voluntariado de forma continua desde 2023.
Por último, o reconhecimento. Como organização, estamos gratos aos que dão parte do seu tempo aos outros. E reconhecemo-lo publicamente, em sessões nas quais participa todo o universo Galp.
Sobre essas 48 horas anuais que cada colaborador pode dedicar ao voluntariado, como é feita a articulação com as chefias para garantir essa flexibilidade e maximizar o impacto dessas horas?
A empresa dá total liberdade aos colaboradores para participarem em acções de voluntariado que estejam alinhadas com os objectivos sociais da Fundação. Isto é feito num ambiente de transparência e comunicação entre todas as partes. Acrescento que há um consenso sobre a importância da participação das pessoas em espaços de voluntariado, sobretudo entre as chefias. Muitos desses momentos de partilha têm efeitos não apenas no plano individual, mas também no espírito de equipa.
Há diferenças na adesão ao programa por geografias, unidades de negócio ou faixas etárias? Como é que essas variações são interpretadas e trabalhadas?
Há uma diferença, que podemos atribuir a factores geracionais, quanto ao contributo do voluntariado para a concretização de propósitos individuais. Para ultrapassar essas diferenças, promovemos causas próximas das pessoas, com programas de impacto feitos à medida de cada comunidade e com diversidade de iniciativas – seja remodelar uma casa de uma família carenciada com a Just a Change, fazer cabazes para o Banco Alimentar, plantar hortícolas ou concretizar sonhos de crianças com a Make a Wish – que façam sentido para os objectivos do maior número de colaboradores Galp. Quanto a áreas de negócio ou geografias – e fazemos voluntariado em locais tão distintos como Sines, Matosinhos, Moçambique, Eswatini, Espanha, Brasil ou em Lisboa, na freguesia de Alcântara onde está a nossa sede – não identificamos divergências significativas.
As acções desenvolvidas noutros países envolvem colaboradores locais ou portugueses deslocados? Quais são os principais desafios de operar fora de Portugal?
Fora de Portugal, as acções são lideradas por equipas locais alinhadas com a estratégia global da Galp, mas adaptadas às realidades locais. Valorizamos essa proximidade, pois garante relevância e impacto. Por exemplo: em Moçambique, os voluntários apoiaram a reabilitação de orfanatos; em Cabo Verde, realizaram limpezas de praias; e no Brasil, distribuíram refeições em comunidades vulneráveis. A meta de 1850 voluntários prevista para 2025 foi já superada em 2024. Isso leva a uma revisão dos objectivos, ou o foco encontra-se na qualidade e profundidade das iniciativas que os mesmos permitem? Os mais de 13 mil voluntários e 155 mil horas ao serviço da comunidade, desde a criação do programa, são um motivo de orgulho. Mas não são um ponto de chegada, são uma responsabilidade para continuarmos a crescer de forma consistente e a mitigar os desafios das comunidades das quais fazemos parte. Todos os anos recomeçamos com novas metas, ajustadas ao head count da empresa. O objetivo é claro: mais voluntários, mais horas, mais pessoas apoiadas para criar impacto transformador e continuo nas comunidades.
Como é feito o processo de selecção e acompanhamento das organizações sociais parceiras?
Trabalhamos com mais de 40 organizações sociais em mais de 100 iniciativas por ano. [números de 2024]
A selecção e o acompanhamento seguem critérios alinhados com a nossa estratégia de investimento social e com uma visão de desenvolvimento sustentável. A relação é contínua e de parceria. A Fundação Galp não é apenas promotora de acções pontuais: é um verdadeiro investidor social.
Como é medido o impacto real das iniciativas nas comunidades beneficiadas? Existem projectos de longo prazo?
Trabalhamos para fazer uma diferença positiva e duradoura nas comunidades. Perante a escala dos desafios que nos propomos endereçar, tal só é possível com uma perspectiva de relacionamento de longo prazo. Garantir o acesso à educação, por exemplo, não se consegue com medidas casuísticas; pelo contrário, exige um trabalho consistente ao longo do tempo e com os parceiros certos. Quanto ao impacto, cada iniciativa de voluntariado é avaliada na perspectiva do participante e este ano vamos alargar essa avaliação às instituições sociais. Dos resultados que temos, 94% dos participantes afirmam que o voluntariado contribui para uma mudança positiva a nível pessoal e 84% garantem ter melhorado as suas competências profissionais.
Como são utilizados os dados dos voluntários – como o sentimento de realização pessoal, o fortalecimento da relação com a comunidade ou a melhoria de competências profissionais – na estratégia de Recursos Humanos da Galp?
O voluntariado é estratégico para a empresa porque promove alinhamento com propósito e cultura. É nesse ponto que o programa de voluntariado e as equipas de Recursos Humanos se intersectam.
Em todos os processos de integração os novos colaboradores ficam a conhecer o programa de voluntariado. Procuramos também que todos os grupos de trainees que entram na Galp possam envolver-se em acções de voluntariado ao longo do seu plano de formação.
Em 2024, cerca de 25% dos participantes são novos voluntários – um indicador claro de que os colaboradores procuram alinhar trabalho com valores pessoais.
Existem exemplos de casos em que a participação no programa influenciou mudanças de carreira interna ou deu origem a projectos de inovação social dentro da empresa?
Um dos movimentos mais curiosos a que assistimos dá-se na relação dos voluntários com stakeholders. Muitas vezes, acabam por ser eles a advogar pelas instituições dentro da Galp e a tentar envolver mais parceiros relevantes – clubes, colectividades, autarquias – no programa de voluntariado.
Quais são os principais desafios na implementação do programa, e como a Galp os supera para garantir a participação de 26% dos colaboradores?
Manter ou elevar o nível de participação exige que o programa de voluntariado mantenha três características que hoje o definem: (1) a relevância interna na estratégia de impacto social; (2) a transparência e equidade na forma como todos podem ser voluntários; (3) o reconhecimento daqueles que dão mais de si pelos outros.
O programa impacta vários Objectivos de Desenvolvimento Sustentável, com destaque para a redução das desigualdades. Existem planos para reforçar áreas que actualmente têm menor peso no programa?
A estratégia de impacto social da Galp não procura responder a todos os ODS, mas sim ser consistente e eficaz nos que definiu como prioritários.
Dito isto, temos a ambição de ser mais efectivos na abordagem ao acesso à educação através de bolsas de estudo para o ensino superior (temos um dos maiores programas de bolsas de estudo do país), do nosso Programa Educativo (as aulas que promovemos em escolas de todo o país chegaram a 2,2 milhões de alunos e 21 mil escolas) e da “Esperança e Jacinto”, livro recentemente editado pela Fundação que é um convite às crianças, famílias e escolas para reflectirem sobre hábitos que contribuem para um mundo mais sustentável.
Este eixo é particularmente valorizado pelos voluntários, pois permite-lhes intervir de forma próxima e significativa, através de mentorias, apoio escolar e projectos educativos.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Responsabilidade Social” que foi publicado na edição de Junho (nº. 174) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.