Será que fazer rir é o melhor remédio na liderança?

Por Alexandra Barosa, directora executiva do Curso de Coaching Executivo da Nova SBE e Managing partner da ABP Corporate Coaching

 

O caso recente Anjos vs Joana Marques trouxe para a esfera pública o debate não só sobre o contexto apropriado, mas também sobre os riscos do humor e da liberdade de expressão. Será que se pode usar o humor em todas as ocasiões? Quais os limites da liberdade de expressão e do humor?

Após 50 anos de liberdade de expressão, assistimos a limites cada vez mais expressivos e emocionalmente permeáveis. Estamos a construir uma sociedade com pouca resiliência, competência tão crucial em contextos dinâmicos e imprevisíveis como os tempos em que vivemos, e também reveladora de falta de filtros de uma partilha de informação cada vez menos privada.

Será que o exemplo que os Anjos nos trazem dizem mais respeito à falta da competência de inteligência emocional nos rirmos de nós próprios? Ou ao facto de a exposição pública poder ser prejudicial para a manutenção da atividade profissional que lhes dá de comer?

A forma como reagimos ao humor – seja enquanto alvos, autores ou espetadores – diz muito sobre a nossa capacidade de autorregulação, empatia e adaptação social; mas também é revelador da segurança psicológica do contexto em que ocorre. E se o humor for utilizado por um líder com poder social ou institucional, as implicações nas relações e perceções sociais podem ser profundas.

O humor na liderança é frequentemente descrito como uma ferramenta relacional e comunicativa poderosa, que pode influenciar o clima organizacional, a coesão da equipa, a perceção de proximidade e a eficácia do líder, desde que usado de forma intencional, empática e culturalmente sensível.

A literatura sobre os riscos do uso do humor na liderança revela um quadro complexo e cheio de nuances, destacando o humor como uma faca de dois gumes, com efeitos tanto benéficos como prejudiciais. Embora muitos estudos enfatizem os resultados positivos do humor do líder nas relações e na motivação, um conjunto significativo de investigações aborda criticamente as possíveis consequências negativas, como ofensa moral, humor mal interpretado e esgotamento emocional.

Um tema consistente em todos os estudos é a diferenciação dos estilos de humor. O humor afiliativo e autocrítico geralmente produz efeitos benéficos, fortalecendo as relações e incentivando dinâmicas sociais positivas, enquanto o humor agressivo e mal sucedido muitas vezes perturba esses processos, levando à diminuição da confiança, aumento da exaustão emocional, ostracismo dos colaboradores e até mesmo à intenção de demissão.

A aplicação dos princípios da Comunicação Não Violenta pode apoiar os líderes a usarem o humor com mais consciência, empatia e responsabilidade, promovendo conexão em vez de exclusão e reduzindo o risco de impacto negativo nas relações. A CNV oferece ao líder ferramentas para usar o humor de forma consciente e construtiva: ajuda a clarificar intenções (humor para criar ligação, não para humilhar), a evitar julgamentos disfarçados de piadas, a expressar emoções com autenticidade, a ajustar o humor ao contexto e ao outro através da escuta empática e a assumir responsabilidade pelo impacto, mesmo quando a intenção foi positiva.

Serão estas também boas práticas para a utilização da liberdade de expressão, numa realidade social, em que, apesar de cada vez mais extremada, fazer rir ainda pode ser um bom remédio.

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