A beleza dos recomeços

Artigo de opinião de Ricardo Zózimo, Professor Universitário na Nova SBE

A ideia deste artigo é fortemente inspirada num livro do poeta e Cardeal Tolentino Mendonça, “Uma beleza que nos pertence”, que de tempos a tempos volto a reler para me inspirar. Na leitura que fiz este verão chamou-me à atenção a ideia da beleza dos recomeços – talvez porque o primeiro dia útil de setembro de 2025 foi dia 1 e uma segunda-feira. Fiquei retido neste duplo recomeço: o temporal, marcado pelo fim de férias e retorno às atividades, e o simbólico, representando uma oportunidade única para as organizações abraçarem esta beleza dos recomeços. Mas que beleza é esta?

Gostava de vos deixar três reflexões: Em primeiro lugar, a beleza organizacional manifesta-se na estética que temos à nossa volta. Tenho o privilégio de todos os dias olhar para o mar a caminho do escritório e de encontrar na faculdade um ambiente estético que me desperta ao mesmo tempo que me desafia. Ao ser fonte de espanto, a beleza contém si mesma este poder de acordar algo em nós que nos faz querer ir mais além. Claro que para nos deixarmos espantar pela beleza temos de a deixar entrar na nossa vida, temos de nos desligar daquilo que nos distrai ou preocupa e concentrar em observar o que se está a passar.

A segunda forma de encontrarmos beleza é através dos nossos sonhos e aspirações. Os recomeços são tempos fecundos de sonhos individuais, mas também colectivos. À medida que os sonhos e aspirações se tornam mais colectivos e menos individuais, a beleza pode começar a entrelaçar-se com a esperança. Esta combinação é muito poderosa nas organizações, pois vai fazer com que as vossas equipas procurem mais o bem comum do que o individual e que façam da beleza o guia desta procura. Na prática, isto significa mais projetos em conjunto e mais empoderamento colectivo na busca por soluções mais perfeitas para os desafios da organização. Uso aqui propositadamente a ligação entre a perfeição e a beleza pois o contexto organizacional tem muitas vezes dificuldade em encontrar o belo mas paradoxalmente mais facilidade em descobrir perfeição em processos e KPIs. No livro que inspira este texto, Tolentino Mendonça explora ainda a ideia da imperfeição que humaniza de modo a falar da beleza das pessoas.

Nesta terceira reflexão gostava de trazer para a discussão organizacional a necessidade de olhar para a imperfeição como fonte e combustível desta procura de beleza. É na imperfeição que a procura de beleza faz mais sentido ao mesmo tempo que se torna ainda mais necessária. Mas essa busca tem sempre um ponto de partida que é imperfeito. Olhar para o talento da organização como imperfeitos em busca da beleza parece-me ser uma utopia saudável. É uma utopia porque nos provoca a olhar para o talento com verdade e autenticidade reconhecendo as suas imperfeições, ao mesmo tempo que nos desafia a mesmo assim buscar a beleza.

Para que este recomeço seja completo penso que é preciso celebrar o que já é belo dentro das vossas organizações, ao mesmo tempo que buscam ainda maior beleza mesmo conhecendo todas as imperfeições. Será a beleza importante nas vossas organizações? Como buscam a beleza?

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