Mais de 85% dos colaboradores utilizam Inteligêcia Artificial IA no trabalho, mas menos de 10% atingem níveis de adopção com impacto real nos resultados. A conclusão é do estudo “The AI Adoption Puzzle: Why Usage Is Up But Impact Is Not”, desenvolvido pela Boston Consulting Group (BCG), que analisou padrões de adopção de IA em organizações de vários sectores e geografias.
A investigação mostra que a maioria dos colaboradores utiliza a IA apenas para tarefas pontuais ou de apoio, sem uma transformação verdadeira da forma como o trabalho é feito. Mais de 85% dos profissionais permanece nos níveis intermédios de adopção, utilizando a IA sobretudo para assistência à informação ou execução de tarefas bem delimitadas, como redacção de textos, cálculos ou síntese de conteúdos. Menos de 10% atingiu estágios avançados, nos quais a IA atua como um verdadeiro colaborador semiautónomo, com impacto directo nos fluxos de trabalho e na tomada de decisão.
Segundo o estudo, é precisamente nesta transição, da simples delegação de tarefas para uma colaboração estruturada entre humanos e IA, que começa a surgir a criação do valor em escala. Sem esta mudança, as organizações correm o risco de interpretar a adoção generalizada como sinal de maturidade, mesmo quando o impacto no negócio permanece limitado.
De acordo com o estudo, 60% das empresas a nível global não está a gerar qualquer valor material com IA, mesmo após investimentos relevantes em tecnologia. O problema, sublinha o estudo, não reside na falta de ferramentas ou de acesso à tecnologia, mas sim na forma como a IA está ou não a ser integrada no trabalho quotidiano das pessoas e nos processos de maior valor para o negócio.
O estudo identifica que os principais obstáculos à criação de valor com IA são de natureza humana e organizacional. Falta de confiança nos resultados gerados pela IA, escassez de tempo para aprender e experimentar, receios relacionados com segurança, propriedade intelectual ou impacto no emprego e ausência de orientação clara por parte dos líderes continua a travar uma aprendizagem mais profunda.
A análise da BCG identifica cinco perfis recorrentes entre os colaboradores, desde os “AI Champions”, que lideram a experimentação, até aos “céticos cautelosos”, mais resistentes à mudança, reforçando que uma abordagem única à adoção de IA não funciona. Organizações que não segmentam os seus públicos internos e não adaptam a estratégia de adoção tendem a ficar presas numa utilização fragmentada e de baixo impacto.
O estudo sublinha ainda o papel crítico das lideranças na criação de condições para uma adoção eficaz. Gestores de primeira linha surgem como multiplicadores decisivos, influenciando directamente a forma como as equipas integram a IA no dia a dia. Dados mostram que organizações com uma abordagem mais centrada nos colaboradores são até sete vezes mais propensas a atingir níveis elevados de maturidade em IA.
Além disso, apenas uma minoria das empresas tem investido de forma consistente em upskilling: embora 62% dos executivos apontem a falta de competências como o principal entrave à criação de valor com IA, apenas 6% afirma ter programas robustos de requalificação em curso.
A BCG conclui que desbloquear o verdadeiro potencial da IA exige uma mudança clara de foco: da taxa de utilização para a qualidade da adopção. Isso implica capacitar pessoas, criar espaço para aprendizagem, envolver activamente os gestores e demonstrar, com exemplos concretos, como a IA pode melhorar resultados e não apenas eficiência marginal.
Num contexto em que a IA se torna cada vez mais omnipresente, a diferença competitiva não estará em quem adopta mais rápido, mas em quem consegue transformar essa adopção em impacto sustentável no negócio.














