Por Carlos Sezões, Managing partner da Darefy – Leadership & Change Builders
A produtividade (resultados em função dos recursos aplicados) é um desafio para qualquer organização e o debate é intemporal. A intensidade do tema tem sido quase constante, desde a transformação digital dos últimos 20 anos, passando pelos novolinks modelos de trabalho pós-pandemia até à presente introdução de IA nos processos de negócio.
Segundo a OCDE, o crescimento da produtividade do trabalho nas suas economias abrandou drasticamente desde meados da década de 2000; em 2024, a produtividade cresceu apenas 1,2% em média. Fazendo um “zoom geográfico”, a relação da Europa com o tema é particularmente revelador. Ao longo do período 2019 – 2025, o crescimento médio anual da produtividade foi de apenas 0,5%. isto depois de décadas de elevada inovação tecnológica. O desafio não será, pois, simplesmente trabalhar mais ou durante mais tempo. Trata-se de encontrar melhores formas de converter tempo humano, energia, tecnologia e capital em valor.
Esta distinção é importante porque, dentro das organizações, muitas vezes confundimos presença, atividade e produtividade. Estar presente não é o mesmo que “trabalhar”. Durante décadas, a produtividade esteve implicitamente associada ao tempo. As pessoas iam trabalhar, permaneciam no local um número definido de horas e esperava-se que fossem produtivas durante esse período. Em muitas organizações, esta lógica permanece surpreendentemente imóvel.
Mas estar presente não é necessariamente trabalhar. E, indo mais além, trabalhar não é necessariamente gerar valor. Um colaborador pode passar oito horas num escritório, participar em seis reuniões, responder a dezenas de e-mails, participar em várias conversas no Teams e ainda assim realizar muito pouco que contribua materialmente para os objetivos da organização. Este é o paradoxo do trabalho intelectual moderno: podemos estar extremamente ocupados sem sermos particularmente produtivos.
O problema é amplificado pelo crescente volume de comunicação e colaboração. O Índice de Tendências de Trabalho da Microsoft de 2025 constatou que 80% da força de trabalho relatou não ter tempo ou energia suficiente para completar o seu trabalho, enquanto os colaboradores eram interrompidos, em média, a cada dois minutos por reuniões, e-mails ou notificações.
A verdadeira produtividade começa quando passamos da medição da atividade para a medição dos resultados. A questão fundamental não deve ser: quão ocupados estão os nossos colaboradores? Deve ser: Que valor estão a criar? Isto exige que as organizações pensem na produtividade a pelo menos três níveis. Primeiro, a presença: As pessoas estão disponíveis e a participar? Em segundo lugar, atividade: Estão realmente a fazer coisas relevantes – produzindo, analisando, comunicando, resolvendo problemas e executando? Terceiro, eficácia: Estas atividades estão a produzir os resultados que importam? O terceiro nível é onde reside realmente a produtividade.
Um profissional altamente produtivo não é necessariamente aquele que realiza mais tarefas. Será aquele que identifica as duas ou três coisas mais importantes e concentra nelas os seus melhores recursos cognitivos – e as suas ferramentas tecnológicas. Isto é essencial à medida que o trabalho se torna cada vez mais complexo. A criatividade, o pensamento estratégico, a resolução de problemas e a inovação não podem ser medidos simplesmente pelas horas passadas em frente a uma secretária. Dependem da qualidade da atenção, da capacidade de pensar profundamente, da energia emocional, da colaboração e da liberdade para experimentar. Em síntese, a produtividade está cada vez mais relacionada com a qualidade da energia humana aplicada aos problemas certos.
E qual o papel dos líderes? Os líderes de organizações verdadeiramente produtivas necessitarão de ir além da antiga equação tempo = contribuição. Deverão criar ambientes onde as pessoas saibam o que é essencial, tenham autonomia para agir, possam proteger a sua atenção e foco e colaborem eficazmente – utilizando tecnologias como IA de modo pertinente. Será este o factor crítico para a criação de valor. E para a dita produtividade.















