
A cultura é o terreno onde o propósito aterra (ou não)
Sem cultura, o propósito escorrega. Um propósito sem cultura é como um plano de voo sem pista de aterragem. Fica a pairar… certamente inspirador, mas inoperante.
Por Bárbara Bárcia, partner Purpose Lab e CEO da On Partners
O estudo do Purpose Lab, que envolveu mais de 10 mil profissionais em Portugal, revela o descompasso: 81% das empresas afirmam ter um propósito definido, mas apenas 23% dizem vê-lo reflectido nas práticas do dia-a-dia. Não são apenas os 77% que são preocupantes, mas os 58% que vivem enganados. O que separa o enunciado da experiência? Cultura.
A cultura é o sistema operativo do propósito. Não é um documento. É um reflexo. Do que se diz. E do que se faz. É nas decisões e microdecisões, nas conversas de corredor, nas lideranças intermédias, nos processos de onboarding e nos rituais informais que o propósito vive ou morre.
E os dados não enganam: só 16% das empresas dizem ter um onboarding alinhado com o seu propósito. Apenas 12% integram o propósito nos seus sistemas de reconhecimento.
Sem cultura, o propósito não aterra, escorrega. Não se instala. Não se cola.
E torna-se ruído, porque o que se diz não o é, e o que é não se diz – o ruído, a prazo, incomoda, afasta.
Cultura não é o que se proclama. É o que se permite
Neste contexto, Recursos Humanos e Comunicação deixam de ser meros facilitadores. São curadores da coerência interna. São eles que moldam o clima emocional da organização, que definem o que se celebra, o que se tolera, o que se repete. Três exemplos de “falhas de aterragem”:
Fala-se de colaboração, mas os bónus são exclusivamente individuais;
Prega-se inclusão, mas o onboarding é igual para todos;
Defende-se impacto, mas só se reconhecem resultados comerciais.
É aqui que o propósito deixa de ser motor e passa a ser adereço.
O que se mede, molda-se
Enquanto tratarmos a cultura como algo “intangível”, estaremos a falhar o alvo mais delicado da organização: a percepção interna de verdade. É por isso que o trabalho do Purpose Lab se centra exactamente aqui: na medição do propósito.
Quantificar o invisível. Tornar visível o alinhamento (ou desalinhamento) entre discurso e prática. Só assim se pode transformar o propósito em critério de decisão – e a cultura num terreno fértil onde ele se instala e floresce. O propósito só sobrevive se encontrar solo fértil.
Esse solo chama-se cultura. Sem ele, tudo escorrega, inclusive o talento. Sem solo, nenhum plano de voo consegue fazer aterrar o seu avião. Sem terra, ninguém aterra.
Este artigo foi publicado na edição de Agosto (nº. 176) da Human Resources
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