
A intolerância ao abuso
Por Ricardo Florêncio
A expressão “intolerância” tem muitas vezes uma conotação negativa, de alguém que deveria ter um comportamento mais correcto, mais simpático e empático. O uso desta expressão, nesta nota, é mesmo para chamar à atenção do que se está a passar. Na sociedade em geral e também nas empresas.
Tem-se vindo a assistir a uma clara alteração na forma de relacionamento interpessoal. As pessoas estão muito menos tolerantes, sem paciência, fartas, cansadas. Hoje fala-se pouco e discute-se muito. Pior, hoje fala-se muito e ouve-se pouco.
Nas empresas, assiste-se gradualmente a outra situação. Quem trabalha muito, trabalha cada vez mais. Quem trabalha pouco, continua no mesmo rumo, ou a fazer cada vez menos. E assim, quem trabalha, quem se dedica, começou a cansar-se do abuso daqueles que nada ou pouco fazem, daqueles que faltam por tudo e por nada, sobrecarregando os outros. E se, até agora, essa revolta era feita muitas vezes em surdina, nota-se que o cansaço levou as pessoas a expressarem claramente esses sentimentos. E as empresas estão a responder.
Assiste-se a uma onda de reformulação de equipas e empresas, com vários factores a serem apontados como as razões que o justificam. Mas, não haja dúvidas: no meio destes factores, há um que geralmente não aparece listado. E que é este.
As empresas podem muitas vezes não actuar, prolongar, ceder, conceder, serem condescendentes. Mas têm o perfeito conhecimento de quem produz, de quem não produz, e daqueles que até são nefastos para as empresas. É só uma questão de tempo.
Editorial publicado na revista Human Resources nº 177, de Setembro de 2025