
A liderança começa dentro de cada um de nós
Por Íris Leão, leitora e doutoranda no Ispa – Instituto Universitário e membro do APPsyCI – Applied Psychology Research Center Capabilities & Inclusion
Num contexto organizacional marcado por transformação acelerada, novas dinâmicas de trabalho híbrido e uma crescente autonomia individual, a autoliderança surge como uma competência central para profissionais e organizações que desejam prosperar. Se antes o foco estava sobretudo na capacidade de liderar equipas, hoje torna-se evidente que o primeiro desafio de liderança é interno: saber liderar-se a si próprio.
A autoliderança pode ser entendida como a capacidade de cada pessoa orientar o seu comportamento, motivação e desempenho de forma consciente, intencional e alinhada com os seus objectivos pessoais e profissionais. Assenta em três pilares fundamentais: autoconsciência, autorregulação e autoeficácia.
A autoconsciência refere-se ao conhecimento aprofundado dos próprios valores, forças, crenças e limitações. Um profissional que se conhece bem toma decisões mais coerentes e evita ser conduzido apenas por pressões externas ou por reacções emocionais momentâneas. Por isso mesmo, é uma competência estratégica em ambientes complexos e exigentes.
A autorregulação está relacionada com a capacidade de gerir emoções, energia, foco e prioridades. Num contexto laboral em que o excesso de estímulos e a urgência constante tornaram-se quase norma, saber definir limites, estruturar rotinas produtivas e cultivar resiliência é essencial.
A autoeficácia corresponde à convicção na própria capacidade de executar acções e alcançar resultados. Profissionais com elevada autoeficácia têm maior tendência para assumir desafios, aprender continuamente e inovar, características indispensáveis num mercado de trabalho em permanente mudança tecnológica.
Para as organizações, promover a autoliderança não é apenas investir no desenvolvimento individual: é acelerar cultura, agilidade e envolvimento. Equipas compostas por pessoas que se autogerem com responsabilidade e propósito exigem menos supervisão directa e mais confiança, permitindo estruturas mais flexíveis, colaborativas e adaptáveis.
Num momento em que tanto se discute o futuro da liderança, talvez o ponto de viragem esteja menos no “como liderar os outros” e mais no “como liderar-me a mim”. Porque antes de inspirar equipas, é preciso inspirar-se. Antes de desenvolver talento, é preciso desenvolver consciência. A autoliderança é, em última análise, o alicerce invisível de todas as outras formas de liderança.