A reinvenção do middle-management

Por Carlos Sezões, Managing Partner da Darefy – Leadership & Change Builders

Sempre que, no âmbito dos nossos projectos, desenhamos a implementação de um modelo de liderança, tanto eu como a minha equipa estamos cientes de dois factores críticos de sucesso: a consistência dos comportamentos de liderança com a cultura (desejada) da organização e o grau de adesão do middle-management para poder disseminar, em cascata essas práticas. As lideranças intermédias são e sempre foram, de facto, decisivas em qualquer estratégia de transformação organizacional. Mas o seu próprio papel está em mutação.

No panorama actual de transformação digital, com foco no empowerment dos colaboradores, o papel tradicional do middle-management está a mudar. Para começar, de “controladores” estão a transformar-se em “conectores”. Tradicionalmente, estes gestores eram a ligação entre uma equipa executiva e os line managers  e colaboradores— traduzindo a estratégia em ação, supervisionando as operações e garantindo o compliance. O surgimento de ferramentas digitais de performance management, em tempo real, permitem que muitas destas funções sejam automatizadas ou distribuídas. Neste novo ambiente, os gestores intermédios devem deixar de ser guardiões da informação e passar a ser conectores de pessoas e ideias – em que construir colaboração multifuncional, desmantelar “silos” e facilitar formas ágeis de trabalhar serão tarefas essenciais

Por outro lado, os colaboradores esperam hoje mais autonomia, propósito e a capacidade de contribuir significativamente para as decisões. Os gestores intermédios enfrentam agora o desafio de liderar sem “microgerir”, capacitar sem abdicar da responsabilidade e apoiar sem abafar a criatividade. Em vez de comandar, os gestores intermédios mais eficazes irão treinar. Irão nutrir uma cultura de feedback contínuo, incentivar a experimentação e apoiar a aprendizagem e o desenvolvimento.

Numa outra dimensão, a tomada de decisões data-driven torna-se cada vez mais o padrão. Espera-se que os gestores intermédios utilizem análises avançadas para fundamentar escolhas, antecipar tendências e optimizar o desempenho da equipa. Sim, tal exigirá maior literacia digital e a capacidade de traduzir insights em acções. Por último, as estruturas organizacionais estão cada vez mais planas. Metodologias ágeis, equipas multifuncionais e tomada de decisão descentralizada desafiam a própria necessidade de múltiplas camadas de gestão. Nas estruturas mais horizontalizadas, os gestores intermédios actuarão como facilitadores da coordenação, do contexto e da coesão – procurando alinhamento em ambientes de rápida evolução.

Em suma, se é provável (e já visível) a redução relativa do middle-management no headcount total de uma organização, estes líderes não irão desaparecer — mas o seu papel irá transformar-se. Abandonando o modelo de serem apenas “gestores de prazos e tarefas”, os gestores intermédios serão redefinidos como facilitadores da inovação e da autonomia e arquitectos da cultura. O seu futuro será menos sobre o controlo dos fluxos de trabalho e mais sobre a orquestração de pessoas, processos e tecnologia de forma a maximizar o impacto e a adaptabilidade.

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