Assassinos silenciosos de culturas organizacionais

Human Resources
26 de Janeiro 2024 | 10:10

Todos temos preconceitos inconscientes. E combatê-los é um trabalho tanto individual como colectivo. Só elevá-los a um nível consciente levará à definição, gestão e manutenção das soluções necessárias que criarão mudanças reais.

Por Marco Neves, managing partner da Next Neuro Generation leader, autor, palestrante e coach executivo

 

Navegam pelos gabinetes, escritórios, salas de reuniões, open spaces e pelos meandros dos corredores. Silenciosos, mas poderosos, atacam de forma fulminante, minando terrenos e manipulando comportamentos e hábitos. Alienam pessoas que se sentem menosprezadas, criam desconfiança e inibem a comunicação aberta. Fazem das ideias e soluções reféns, põem em causa os resultados das equipas. Levam a decisões de má qualidade e prejudicam a construção de relacionamentos duradouros. Na sua essência, desmoronam culturas organizacionais.

Estamos a falar dos “preconceitos inconscientes”, inimigos perigosos e de difícil aceitação, especialmente por aqueles que se consideram imparciais, que provavelmente (e infelizmente) representam uma percentagem significativa dos indivíduos nas organizações.

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Em todas as suas formas, muitas vezes carregando uma conotação negativa, são facilmente vistos como uma escolha deliberada e não como uma predisposição não intencional. No entanto, pesquisas indicam que temos uma predisposição inconsciente para preconceitos, porque o cérebro tem uma necessidade evolutiva de o fazer.

É um processo que resulta de décadas de programação mental do cérebro, na tentativa de fazer sentido do mundo e das pessoas que o rodeiam. Esta aprendizagem tem início na infância e no início da idade adulta, pela convivência com pais, professores, colegas, ou pela influência de variados contextos sociais e emocionais. Estes preconceitos dominam as decisões, a conduta e as interacções, governando os nossos hábitos, pensamentos e comportamentos.

No local de trabalho, a cultura organizacional alimenta directamente este processo no cérebro, levando à criação de preconceitos e à adopção de crenças estereotipadas e comportamentos sociais que se consolidam no tempo. O afastamento destas normas torna-se difícil, porque é percebido pelo cérebro como uma mudança que nos afastará da nossa zona de conforto e da necessidade de sentir parte do colectivo.

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Acções tendenciosas, como categorizar e rotular pessoas e situações, são a forma de o cérebro acelerar o processo de tomada de decisão, fazendo suposições rápidas sobre quem confiar, como se comportar, o que dizer – essencialmente garantindo a nossa sobrevivência.

Evolutivamente, os preconceitos inconscientes são mecanismos adaptativos e poderosos, baseados no conhecimento e experiência anteriores, para informar as decisões e acções no presente, estabelecendo expectativas sobre o que vemos, ouvimos e sentimos. E uma vez gerada e enraizada essa expectativa, persiste com pouca deliberação ou reconsideração – temos dificuldade em ver, ouvir ou sentir de outra forma!

Independentemente de como os preconceitos regem o comportamento (uma vez que ocorrem fora do espectro de pensamentos, guiados pelo contexto, e realizados sem pensamento consciente), somos incapazes de saber quão predominantes e influentes estes são. Os preconceitos são, na realidade, uma parte inevitável do ser humano.

 

O cérebro e o preconceito
Cientistas investigam há muito a base neural dos preconceitos inconscientes, para entender como estes formam e influenciam hábitos, comportamentos e culturas, e como podem ser geridos e regulados.

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O “painel de controlo de preconceitos”, composto por cinco sistemas cerebrais que trabalham em sintonia, é apresentado na imagem 1. É uma representação simplificada dos processos complexos sustentados por redes de estruturas neurais em múltiplas regiões do cérebro.

Poderemos considerar os preconceitos inconscientes como a identificação de padrões, executada numa fracção de segundo, levando a reacções imediatas, imprudentes e defensivas em relação a outros. Esta “competência”, que tem sido fundamental para a sobrevivência e evolução humana, é o resultado dos sistemas de análise de risco, de hábitos e de recompensa trabalhando em uníssono, tirando conclusões baseadas em informações preliminares.

Os sistemas executivos e de aprendizagem, embora capazes de testar conceitos, analisar complexidades, articular julgamentos e fazer escolhas, dadas as suas fragilidades e funcionamento subóptimo em determinados cenários, muitas vezes endossam ou racionalizam conceitos, ideias e sentimentos que foram gerados pelos sistemas de análise de risco, de hábitos e de recompensa, levando ao mau funcionamento e comprometimento do pensamento de ordem superior.

Leva assim o cérebro a preparar o terreno para a estereotipagem, a categorização social, os preconceitos, a desigualdade e os conflitos intergrupais, enfim, para a derrocada silenciosa de culturas organizacionais!

 

O impacto real do preconceito nas organizações
Esta tendência de o nosso cérebro fazer julgamentos rápidos e suposições que nem sempre são precisas sobre outras pessoas tem um impacto significativo e nefasto no mundo real. Nem sempre é possível confiar no cérebro, pois as armadilhas cerebrais e atalhos podem, por vezes, desviar-nos do nosso caminho.

Infelizmente, no nosso mundo, um número esmagador de preconceitos afecta o nosso pensamento todos os dias, tanto pessoal como profissionalmente. Quando não controlados, os preconceitos levam indivíduos e equipas a estados a que os cientistas chamam “away state” (afastamento), afectando a produtividade, o sentimento de pertença, as taxas de retenção, a contratação, o feedback e a gestão das equipas, entre muitos outros impactos negativos.

Felizmente, vários estudos indicam claramente que a plasticidade do cérebro humano permite moldar os comportamentos, aumentando a capacidade da auto-regulação das faíscas inconscientes dos preconceitos e da gestão dos preconceitos que são os mais comuns no local de trabalho.

 

Leia o artigo na íntegra na edição de Janeiro (nº. 157) da Human Resources, nas bancas.

Caso prefira comprar online, tem disponível a versão em papel e a versão digital.

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