
Como garantir que não fica viciado no ChatGPT (evitando perder capacidade intelectual)
Se é utilizador de ferramentas como o ChatGPT conhecerá certamente os benefícios, nomeadamente ao nível do acesso à informação e à poupança de tempo. Contudo, essa dependência também está a mudar a forma como se trabalha, se aprende e se pensa. As capacidades analíticas que antes surgiam automaticamente — como analisar problemas, organizar pensamentos e encontrar as palavras certas — parecem agora mais difíceis.
Segundo o The Wall Street Journal, observa-se um fenómeno preocupante: a erosão silenciosa das capacidades cognitivas.
O fascínio da tecnologia é poderoso. «Eis uma máquina sempre disponível, infinitamente entusiasta e aparentemente competente em todos os domínios. Isto cria um poderoso ciclo de feedback. Evita-se o desconforto de começar do zero e é-se recompensado em segundos», explica Darja Djordjevic, psiquiatra no Harlem Hospital e na Universidade de Columbia.
Não admira que o cérebro, feliz por contornar as dificuldades, anseie por estes atalhos. Os humanos sempre usaram auxiliares cognitivos, recorrendo a ferramentas externas para reduzir as exigências mentais. Por isso, escrevemos lembretes, usamos calculadoras e GPS.
Só que enquanto aquelas afectavam ligeiramente as competências, as actuais aumentam os riscos. Estas ferramentas de IA generativa são tão abrangentes e tão autónomas na sua execução, que, quando são activadas, as mentes desligam efectivamente.
Aí reside o risco. As vantagens que melhoram a produtividade no curto prazo podem estar a acelerar a atrofia cognitiva no longo prazo.
Os especialistas Paul Rust, investigador no Brainstorm: Stanford Mental Health Innovation Laboratory, e Nina Vasan, fundadora e directora da Stanford Brainstorm e directora médica da Silicon Valley Executive Psychiatry, partilham quatro hábitos que promovem uma ligação com o ChatGPT que fortalece as faculdades cognitivas.
Faça o rascunho primeiro e o prompt depois
Tal como os músculos, as nossas capacidades cognitivas enfraquecem quando não são utilizadas. Delegar tarefas inteiras na IA pode diminuir as capacidades cognitivas, como a resolução de problemas, o pensamento criativo e o raciocínio crítico.
Num estudo recente com quase 1.000 alunos, os que utilizaram o ChatGPT para resolver problemas de matemática superaram inicialmente os seus colegas em 48% durante a prática. Mas, quando testados sem IA, as suas pontuações caíram 17% em relação aos seus colegas sem acesso à ferramenta.
Este padrão não se limita à sala de aula. Na aviação, a investigação mostra que a excessiva dependência do piloto automático enfraquece as capacidades de voo manual dos pilotos.
Os psicólogos há muito que enfatizam o poder da experimentação – tentar e superar tarefas difíceis — como forte preditor da auto-eficácia, a crença interna na competência. Quando o ChatGPT ultrapassa este obstáculo, isso nunca se materializa; com o tempo, a capacidade e a confiança desvanecem-se e a dependência aumenta.
Para manter as suas capacidades apuradas, descreva a sua abordagem antes de abrir a janela de chat. Pense no problema e anote as ideias; tópicos são suficientes. De seguida, peça ao modelo para elaborar ou melhorar. Este esforço manual inicial pode parecer um regresso ao ginásio depois de meses afastado, mas a prática preserva tanto as capacidades como a confiança.
Use a IA como tutor
Quando pede respostas directamente à IA, envolve-se menos profundamente — e a memória e a compreensão são prejudicadas. Um estudo preliminar do MIT descobriu que os indivíduos que usaram o ChatGPT para escrever ensaios tiveram uma pior recordação do seu próprio trabalho. O resultado faz eco do “efeito Google”, em que a pesquisa fácil de factos prejudica a retenção da memória interna, tal como investigação mostra que o uso do GPS diminui a memória espacial.
Mas, com a IA, não são apenas factos isolados que estão em risco: pode perder-se a compreensão de conceitos e ideias inteiros porque as explicações chegam com um único clique.
Uma possível solução: transformar o bot num tutor. Em vez de “Dá-me a resposta”, tente “Guia-me através do problema para que eu possa resolver sozinho”. Solicite explicações passo a passo. Após concluir a tarefa, feche a janela e volte a explicar a ideia por palavras suas para testar a retenção.
Pense e analise as respostas
A forte dependência da IA vai além da atrofia de habilidades, atingindo juízos de valor e vieses. Um estudo da Swiss Business School com 666 participantes e um inquérito da Microsoft a 319 trabalhadores do conhecimento deste ano descobriram que a forte dependência da IA está correlacionada com competências de pensamento crítico mais fracas.
Isto expõe os utilizadores ao viés da automação, levando a aceitar as considerações da máquina de forma acrítica e a herdar os seus pontos cegos: numa experiência de ciência comportamental, os voluntários perderam um prémio monetário mais elevado simplesmente porque uma IA os alertou para não confiarem no seu parceiro humano, mesmo depois de as provas mostrarem que a cooperação compensaria.
O risco vai mas além de uma má decisão; se não existir reflexão crítica sobre os resultados da IA, o utilizador pode acabar por interiorizar os enviesamentos inerentes à máquina. Numa experiência, os participantes viram imagens de “gestores financeiros” geradas por IA; 85% das imagens retratavam homens brancos, apesar de, nos EUA, menos de 45% dos gestores financeiros serem homens e brancos.
Para combater este enviesamento, as pessoas podem utilizar ferramentas de “forcing cognitivo” para mudar o pensamento do processamento rápido e intuitivo para uma análise lenta e deliberada. Os médicos usam “intervalos de diagnóstico” para verificar o raciocínio; os pilotos executam listas de verificação mental antes da descolagem.
Aplique a mesma abordagem: quando a IA fornecer respostas, faça uma pausa. Reafirme os pontos principais em voz alta ou por escrito. Em seguida, execute uma lista de verificação mental: “pode ser verificado? Que perspectivas podem estar a faltar? Isto pode ser tendencioso?”. Estes estímulos metacognitivos detectam erros e estimulam o pensamento crítico.
Defina slots para a IA
O caminho mais directo para preservar as suas faculdades intelectuais é declarar certos períodos como zonas “livres de IA”. Isto pode ser uma hora, um dia ou até mesmo projectos inteiros. Fazer as coisas sozinho é a forma mais fiável de prevenir a dependência e garantir que as suas capacidades cognitivas se mantêm apuradas.
A ascensão imparável da IA generativa impõe considerações fundamentais sobre a própria capacidade humana, tanto a nível institucional como individual.
Em ambientes corporativos, levanta questões sobre o talento e a criação de valor. As empresas que investem fortemente em ferramentas de produtividade de IA podem, inadvertidamente, estar a minar as capacidades a longo prazo da sua força de trabalho.
As instituições de ensino enfrentam um desafio ainda mais complexo: proibições definitivas de IA generativa deixariam os alunos digitalmente analfabetos, enquanto o acesso sem limites pode minar as próprias capacidades de pensamento que a educação visa desenvolver.