Como gerir com propósito pode fazer a diferença

Ana Rita Rebelo
25 de Outubro 2019 | 15:35

Será o propósito ou o salário a mover as pessoas? Pode fazer a diferença na guerra pelo talento? Estas foram algumas das questões do crossfire, um dos momentos da XVIII Conferência Human Resources, às quais seis especialistas procuraram dar resposta.

 

Para falar sobre o que move as empresas, subiram a palco Ana Porfírio, directora de Recursos Humanos da Jaba Recordati; Ana Rita Lopes, directora de Recursos Humanos do Grupo Nabeiro – Delta Cafés; Elsa Carvalho, directora de Recursos Humanos da Caixa Geral de Depósitos (CGD); Nuno Ferreira Morgado, sócio da PLMJ Advogados; Pedro Jorge Silva, director de Recursos Humanos da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML); e Tomás Moreno, responsável pela área de Transformação Cultural da EDP. Ana Leonor Martins, directora de redacção da Human Resources, e Tiago Brandão, director-geral da The Browers Company, moderaram o debate.

Ana Porfírio começou por partilhar que já tem antecedentes com o tema, que remonta há mais de 10 anos, quando o propósito já era discutido nos Estados Unidos. Admitiu, no entanto, que não foi fácil tentar implementar o propósito na altura, numa outra empresa. «Estávamos num contexto pré-crise. A empresa crescia a dois dígitos e, de repente, alguém disse numa reunião que devíamos trazer o tema ‘propósito’ para Portugal. (…) Mas não havia muito dinheiro para gastar» com a matéria. Fizeram-se reuniões, mas não se chegou a conclusão nenhuma. «O topo não estava envolvido com o propósito, e não resultou», lamentou.

Esta realidade contrasta com a de Elsa Carvalho, que assumiu a direcção de Recursos Humanos da CGD que, nos últimos tempos, tem sido alvo de reestruturação. Na CGD, sublinhou, «o propósito é muito claro: melhorar a qualidade de vida das famílias e empresas portuguesas, prestando serviços financeiros». Daí, resulta que «um terço das poupanças dos portugueses estejam no banco liderado por Paulo Macedo e que grande parte dos empréstimos de casa tenham sido concedidos pela Caixa Geral de Depósitos», disse.

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Na EDP, uma empresa com mais de 12 mil colaboradores espalhados por 14 países de quatro continentes, começam a dar-se os primeiros passos neste tema, através de um novo projecto que irão desenvolver nos próximos seis meses, revelou Tomás Moreno.  Sem adiantar grandes detalhes, disse que «a EDP está a redefinir a sua cultura», justificando esta mudança com o facto de terem constatado que existem muitas culturas dentro da empresa e que esse é «um obstáculo à potenciação de valor». Contudo, «o propósito ainda está a ser definido».

Fez também notar que há uma diferença entre propósito, visão e missão. «Propósito é o porquê; o que nos une e faz levar a um caminho. E não tem nada a ver com números. Visão é o destino e missão é como fazê-lo. São partes da mesma casa que devem ser trabalhadas de forma individual», entende.

No que toca à SCML, Pedro Jorge Silva defendeu que a missão «perdura no tempo e é intocável» nos 521 anos daquela instituição: melhorar a qualidade de vida das pessoas. «É uma instituição de pessoas, feita por pessoas para pessoas», fez também questão de frisar.

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Já Nuno Ferreira Morgado fez notar que «os advogados são talvez dos poucos profissionais que têm o propósito escrito na lei». Porém, e «apesar da nobreza», não chega. «É curta», ressalvou. Por isso, lembrou que a sociedade de advogados é parceira da Calouste Gulbenkian na MAZE-X, um programa de aceleração para startups de impacto social.

Também questionada sobre o propósito da Delta, Ana Rita Lopes proferiu uma mensagem de Rui Nabeiro, dono da gigante de cafés: «Deitar a semente à terra», ou seja, fazer algo pela dinamização da economia e comunidade portuguesa. Um projecto na qual a empresa tem vindo a trabalhar para atingir esse objectivo, no âmbito da nova estratégia de sustentabilidade do grupo Nabeiro, é a parceira Associação de Produtores Açorianos de Café, que visa apoiar os agricultores e produtores de cafés açoriano em todas as etapas da produção, preparação e comercialização do café daquela ilha durante os próximos 15 anos.

 

Como se manifesta o propósito

Em jeito de conclusão, foram partilhados exemplos práticos de como se externaliza e promove o propósito nas várias organizações presentes. «Temos vários propósitos para gerir mas sempre com a mesma missão», disse o director de Recursos Humanos da SCML, destacando dois projectos: o «Lisboa, Cidade de Todas as Idades»,  uma estratégia que tem como missão dar resposta às necessidades da população com mais de 65 anos que vive sozinha; e o «Reintegrar», que consiste na criação de postos de trabalho adaptados à sua realidade.

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Por sua vez, a directora de Recursos Humanos da CGD deixou um recado: «Quando falamos de propósito, isto tem tanto de racional quanto de emocional. A missão e os valores são racionais. (…) Aquilo que não toca nas emoções e no coração das pessoas não é verdadeiramente mobilizador». Quer isto dizer que, «ou há emoção e conseguimos olhar para o lado emocional das pessoas e perceber que elas não são só razão e que, acima de tudo, o que nos move hoje em dia é muito mais a componente emocional do que o racional, ou qualquer projecto em torno de um propósito é perdedor».

 

Salário versus missão

Num contexto de escassez de talento, a directora de Recursos Humanos da Jaba Recordati realça que o propósito é um dos argumentos utilizados no recrutamento da farmacêutica e que os candidatos valorizam este tema. «Aquilo que os candidatos nos dizem transversalmente é que aceitaram estar connosco porque reconhecem os profissionais que estão no terreno, a qualidade, a alegria no dia-a-dia e o compromisso com a organização», partilhou a responsável. E conclui: «Vivemos o nosso propósito – ‘mais e melhor vida’ – de forma muito natural. (…) Está integrado na nossa missão».

Mas será, de facto, o propósito a mover as pessoas? E transversalmente ou só para as novas gerações? Nuno Ferreira Morgado acredita que é importante para todas as pessoas. E isso não passa por ter que ter o propósito escrito, até porque «os advogados têm um Código Deontológico que sabemos que em termos práticos, muitas vezes, não vale muito. Acrescentarmos emoção nas pessoas à volta de uma empresa faz toda a diferença, prova disso é que no projecto social que temos, nunca vi tantos advogados a trabalhar de borla tão contentes. É um bom exemplo da importância que unirmo-nos à volta de um propósito nobre acrescenta a uma organização.»

 

 

Por Ana Rita Rebelo 

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