Um vislumbre do trabalho pós-crise: dos modelos de trabalho ao estilo de gestão

Human Resources
7 de Maio 2021 | 09:50

Como abraçar e tirar partido dos benefícios da flexibilidade de trabalho.

 

Por Berta Montalvão, directora de People & Strategy da BearingPoint

 

A crise fez desaparecer a dinâmica tradicional dos locais de trabalho e deu origem a novos padrões, onde organizações e colaboradores tiveram de se ajustar, como medida anti-pandemia e resposta aos impactos económicos consequentes. Para inúmeras empresas, esta norma tem sido caracterizada pelo trabalho remoto, sendo uma adaptação igualmente difícil, quer para gestores, quer para as suas equipas.

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Cerca de 60% das empresas portuguesas não tinham qualquer política de trabalho remoto no ano passado, quando tiveram de enfrentar os desafios do Estado de Emergência e confinamento da população. Segundo os dados do Eurostat, em Portugal, em 2017, apenas 5% das pessoas trabalhavam habitualmente a partir de casa.

Um estudo realizado pela Deskeo, no final de Março de 2020, concluiu que 89% dos inquiridos não estavam habituados à experiência de trabalho remoto. Em Abril do mesmo ano, um estudo da Empreinte Humaine constatou que 68% das pessoas estavam a sofrer de angústia emocional (os gestores apresentavam quase o dobro da probabilidade de sofrerem uma forte angústia emocional, quando comparados com os seus colaboradores) e 58% estavam a trabalhar mais dias que o habitual.

No entanto, à medida que a população se foi adaptando ao novo normal e as organizações se consolidaram no trabalho remoto, as opiniões sobre a nova forma de trabalhar ganharam outra relevância. Quando questionados novamente pela Deskeo, 62% dos colaboradores afirmaram que pretendiam continuar a trabalhar parcialmente a partir de casa, devido ao tempo que pouparam em deslocações (38%), a maior eficiência do trabalho (27%) e aumento da flexibilidade pessoal face ao teletrabalho (19%).

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Ficou evidente que os colaboradores querem que o trabalho remoto faça parte da nova cultura pós-pandemia e não seja apenas algo restrito a um grupo reduzido de pessoas, como tradicionalmente. Outros estudos em Portugal evidenciaram também ganhos de produtividade, aumento da capacidade de resposta e do foco e concentração nas actividades desenvolvidas.

A pesquisa da Empreinte Humaine revelou que dois terços dos profissionais esperam que a sua empresa tenha em consideração o seu bem-estar pessoal quando regressarem ao trabalho. Além disso, as acções governamentais contra a pandemia (higienização das mãos, distanciamento social, entre outras medidas de prevenção) irão certamente continuar entre os próximos 12 a 18 meses. Isto significa que o regresso a uma abordagem de gestão pré-crise não é uma opção, pelo que é crucial desde já planear o futuro das organizações e do próprio trabalho, bem como desenvolver formas mais flexíveis de trabalho. Esta transição irá desbloquear uma série de benefícios, tanto para as empresas como para os colaboradores, à medida que as restrições diminuem e o mundo se adapta a um novo normal.

 

A digitalização é o primeiro passo crucial para um trabalho remoto eficiente
Os processos de negócio não digitalizados são menos eficientes e seguros e, na fase inicial da pandemia, muitas entidades aperceberam-se de como a transformação digital é fundamental e necessária para permitir que os seus funcionários e clientes operem de forma eficaz e em conjunto. As empresas mais abertas à inovação tecnológica serão aquelas que mais probabilidades têm de enfrentar a crise. Esta actividade tem de ser construída e desenvolvida, mesmo que as restrições sejam aliviadas, não sendo possível voltar à forma como se trabalhava antes desta crise.

Assim, é preciso repensar os modelos de trabalho e torna-se fundamental que as organizações:

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  • Revejam os seus processos de trabalho e identifiquem os requisitos para a transformação digital de cada uma das áreas de actividade;
  • Implementem plataformas digitais de comunicação e partilha transversais ao negócio, que permitam a actividade interna e externa;
  • Disponibilizem aos colaboradores equipamentos que lhes permita exercer as suas funções em casa.

 

A digitalização pode tornar o negócio mais eficiente, reduzindo barreiras ao trabalho e à partilha de informação, tornando-se mais ágil como resultado. A requalificação tecnológica irá posicionar as empresas portuguesas noutro patamar, tornando-as mais competitivas e melhorando as competências dos seus recursos humanos.

A natureza dos locais de trabalho deve tornar-se mais adaptável
À medida que os colaboradores solicitam disposições de trabalho mais flexíveis, a natureza e a definição do local de trabalho deverão:

  • Permitir que os colaboradores trabalhem a partir de casa parcialmente (por exemplo dois dias por semana, em dias rotativos da semana);
  • Possibilitar um maior worklife balance dos colaboradores;
  • Promover o uso de espaços de co-working para os colaboradores. Isto proporcionar-lhes-á oportunidade de reduzir os tempos de deslocação, mas também trabalhar em ambientes estruturados e profissionais, além de serem potencialmente menos dispendiosos do que a área equivalente ao espaço de escritório da empresa;
  • Adaptar os espaços de escritório da empresa ao novo normal. Os escritórios deixarão de ser bases para os colaboradores, devendo estar mais orientados para a realização de reuniões e actividades de colaboração de equipa;
  • Ajustar a cultura organizacional às formas de trabalho mais flexíveis;
  • Reinventar as políticas de formação e desenvolvimento dos colaboradores.

Se as empresas implementarem estas adaptações, será possível desenvolver locais de trabalho mais dinâmicos, que não sustentem apenas as necessidades dos colaboradores, mas melhorem o desempenho e a rentabilidade do negócio em geral. E ao reduzir o número de colaboradores que estão no escritório a título permanente, será possível reduzir a dimensão das instalações, reduzir custos operacionais e alocar fundos para outras despesas importantes, como a formação e o desenvolvimento das suas pessoas.

 

Estilos de gestão: melhor planeamento e mais qualidade
Várias sondagens às empresas evidenciaram a dificuldade de adaptação ao trabalho remoto, no início da pandemia. Os gestores queixaram-se da dificuldade em interpretar a linguagem não verbal nas reuniões, bem como da falta de contacto e proximidade com as suas equipas. A falta de relacionamento interpessoal e de convívio com os colegas foram outras das limitações referidas pelos colaboradores e que impactaram nesta nova forma de se trabalhar. Enfrentar estas pressões, ao mesmo tempo que são reconhecidas as necessidades e os desejos das equipas, é uma questão de melhorar a qualidade e o planeamento das suas interacções futuras.

Assim que seja possível, e sempre que o contacto presencial seja crucial, é importante planear as reuniões para que haja uma melhor gestão do tempo, maior rendimento e participação destes momentos. Se isso não for possível, o desenvolvimento de competências em condução de reuniões e apresentações em contexto remoto, juntamente com o investimento tecnológico, poderá melhorar a qualidade das interacções à distância. Este é um passo significativo para os locais de trabalho tradicionalmente dependentes de um grande número de reuniões, muitas vezes “desnecessárias”. A adaptação desta abordagem permitirá que as mudanças sejam firmemente incutidas dentro da organização, satisfazendo as necessidades, tanto dos colaboradores como do negócio, a longo prazo.

É altamente improvável que muitas empresas regressem às formas anteriores de trabalhar, mesmo depois da actual pandemia. A pressão exercida pelas pessoas que estão a usufruir de trabalho remoto – diminuição das deslocações, mais tempo para a família, diminuição do ruído e poluição, etc. – fará com que surjam novas normas e formas de se trabalhar. Agir hoje é a chave para assegurar uma transição fácil e benéfica, para as organizações e para os colaboradores.

 

Este artigo foi publicado na edição de Abril (nº.124) da Human Resources.

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