Por Ricardo Florêncio
Há um, dois anos, os jovens eram o centro do universo empresarial. Recrutava-se a qualquer custo. Retinha-se com benefícios inéditos. Seduzia-se com promessas de valores, propósito, flexibilidade, crescimento acelerado. Os jovens eram endeusados. E tinham plena consciência desse facto. Tanto assim que faziam exigências atrás de exigências e quando as empresas não conseguiam – não podiam –satisfazê-las, sair e rodar para outras empresas era um processo normal. Sempre em busca do próximo desafio, do próximo degrau, do próximo elogio. As empresas queixavam-se, mas continuavam a competir por eles. Era o preço do talento escasso. Hoje, o cenário mudou. Silenciosamente, mas sem hesitação. As empresas já não recrutam como recrutavam. Muitas das tarefas de entrada, as funções onde antes se aprendiam as bases, se cometiam erros, se ganhava experiência profissional, foram absorvidas pela tecnologia, pela inteligência artificial (IA). Já não são necessárias mãos das novas gerações para as fazer. São necessários algoritmos. E os jovens? Ficam à porta. Endeusados ontem, quase esquecidos hoje. O problema é duplo. No imediato, o que fazer com milhares de jovens qualificados sem porta de entrada? No médio prazo, o problema é mais grave ainda: como chegarão a lugares de destaque, a funções de liderança, se lhes faltaram as bases? Não se lidera o que nunca se aprendeu a fazer. As organizações que, hoje, poupam na formação de entrada estarão, amanhã, sem quadros para formar as suas próprias lideranças. Poderá a visão do imediato a colocar em causa o médio prazo? Endeusar foi um erro. Esquecer será outro.
Editorial publicado na revista Human Resources nº 187, de Julho de 2026










