Diferentes gerações, a mesma equipa

Opinião de Anabela Veloso, bastonária da Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução

Human Resources
22 de Setembro 2026 | 10:30
Diferentes gerações, a mesma equipa

Por Anabela Veloso, bastonária da Ordem dos Solicitadores e dos Agentes de Execução

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Nunca tivemos tantas gerações diferentes a partilhar o mesmo espaço de trabalho. Dos Baby Boomers à Geração Z, convivem hoje, nas organizações, profissionais com percursos, experiências, referências e expectativas muito distintas. E talvez o primeiro erro seja precisamente olhar para esta diversidade como um problema que é necessário resolver.

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Falamos frequentemente das gerações como se fosse possível estabelecer rótulos. Os mais velhos seriam mais resistentes à mudança e à tecnologia. Os mais novos, mais impacientes e menos disponíveis para carreiras longas no mesmo local. Uns valorizariam estabilidade e hierarquia, outros procurariam flexibilidade e propósito. Como acontece com todos os estereótipos, haverá exemplos que os confirmam. Contudo, gerir pessoas a partir destas generalizações é desperdiçar precisamente aquilo que a diversidade geracional pode oferecer de melhor.

Esta é uma realidade transversal ao mercado de trabalho e que também encontramos em organizações como a nossa Ordem e na Justiça em geral, designadamente nos escritórios de solicitadores e agentes de execução. Profissionais com décadas de experiência trabalham lado a lado com outros que chegaram recentemente ao mercado. Uns conheceram processos em papel e relações profissionais quase exclusivamente presenciais ou dependentes de um telefone fixo, outros iniciaram a carreira num mundo de plataformas digitais, inteligência artificial, comunicação instantânea e acesso permanente à informação.

À primeira vista, esta diferença pode criar distância e levar-nos a crer que dificilmente, algum dia, falarão a mesma língua. No entanto, quando se constroem pontes e a partilha passa a ser uma constante na cultura organizacional, esta diversidade representa uma extraordinária e bonita oportunidade.

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Um profissional com décadas de experiência é um dos maiores activos de qualquer instituição ou empresa, transportando consigo algo que não se encontra num manual de acolhimento, nem se obtém através de formação académica ou de uma pesquisa online: conhecimento acumulado, memória da profissão e da história, capacidade de antecipar problemas e uma experiência construída através de milhares de situações concretas. Um profissional mais jovem é, em tempos de mudança acelerada,  um embaixador de inovação e inquietação, podendo trazer novas competências tecnológicas, questionar procedimentos que sempre foram realizados da mesma forma e identificar soluções que, até então, não tinham sido consideradas.

O verdadeiro (e tão interessante) desafio das organizações está em conseguir que estes dois mundos comuniquem. A transferência de conhecimento terá sempre de ser bidireccional e esta será condição para o crescimento colectivo sustentável e resiliente. Se um profissional experiente pode transmitir ensinamentos técnicos e experiência prática, um colega mais jovem pode contribuir para a adopção de novas ferramentas, métodos de trabalho ou formas de comunicação. Esta construção, podendo parecer mais atribulada, será, sem dúvida, mais robusta, sólida e enriquecedora para todos que nela queiram participar.

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É aqui que a Gestão de Pessoas assume particular importância. Não basta colocar diferentes gerações na mesma equipa ou sala para obter dinamismo e resultados. É necessário criar condições para que exista uma verdadeira interacção entre elas. Momentos de convívio, projectos com elementos de diferentes idades, contextos propícios à partilha de conhecimento e uma cultura em que saber ouvir e querer fazer perguntas sejam aspectos encarados como positivos e capazes de fazer a diferença.

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Também as lideranças precisam de compreender que dificilmente haverá um modelo único capaz de motivar todos de igual forma. Pessoas diferentes valorizam formas diferentes de reconhecimento, responsabilização, progressão ou organização do trabalho. Liderar equipas multigeracionais exige, por isso, capacidade de escuta e vontade de encontrar abordagens distintas e complementares, sem abdicar de objectivos e responsabilidades comuns.

Nos escritórios de solicitadores e agentes de execução, esta reflexão torna-se especialmente relevante perante a transformação tecnológica e geracional que atravessa as profissões jurídicas e o sistema de Justiça. Preservar conhecimento acumulado é fundamental, mas também o é criar espaço para novas competências, novas ideias e novas formas de exercer as profissões, assentes na desmaterialização, na digitalização e na simplificação.

Talvez devamos, por isso, deixar de perguntar como podem diferentes gerações trabalhar juntas e começar a perguntar o que podemos alcançar precisamente por trabalharem juntas. Uma organização onde todos pensam da mesma forma pode ser mais confortável. Uma organização onde diferentes experiências se encontram, se desafiam e se completam estará, provavelmente, muito mais preparada para mudar. E, inquestionavelmente, para crescer e recusar a estagnação. Hoje, se tivesse de arriscar, não hesitaria em dizer que, no futuro, a competitividade dependerá, cada vez mais, de equipas que, alicerçadas na admiração e respeito mútuos, revelem esta inesgotável ambição por aprender uns com os outros. Até porque, não haja dúvidas, trabalhar será sempre bem mais divertido se assim for. De mãos dadas e mentes livres.

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