
Estórias com Propósito | Mariana Canto e Castro (Randstad): Projecto paperless: recrutar pessoas sem-abrigo
Em 2017, nasceu Projecto Paperless. Aquilo que surgiu como uma necessidade de digitalização de documentação resultou numa mudança de vida para 14 pessoas. Catorze pessoas sem-abrigo. E se mais empresas dessem oportunidade de emprego a quem de facto dele mais precisa?
Por Mariana Canto e Castro, directora de Recursos Humanos da Randstad Portugal
Quarenta e e cinco toneladas de papel! 45! Impossível enviar para arquivo físico. E impossível deixar estar como estavam, sem catalogação detalhada, registo, associação a processos, etiquetas para identificação de assunto…Todo um trabalho insano para se conseguir organizar tudo.
Objectivo: digitalização e desmaterialização de forma consciente e ordenada, e destruição da documentação física (sempre que possível fazê-lo, nos termos da lei).
Prazo limite: o mais depressa possível.
Disponibilidade de equipas para “atacar” o projecto: nenhuma! Solução: contratação de uma “task force” para ficar dedicada a este projecto cinco dias da semana, oito horas por dia, durante todo o tempo que fosse necessário.
Decisão: contrate-se! Mas quem?
Somos uma empresa de recrutamento. Encontrar trabalhadores que, ao invés de colocarmos em clientes, ficassem a trabalhar para nós neste projecto, era fácil e óbvio.
Mas qualquer coisa naquele dia, naquela reunião, na sala grande do 10.º andar me fez ficar em silêncio enquanto todos opinavam como operacionalizar. Quando estranharam porque é que não dizia nada e o que achava sobre os perfis que estavam a sugerir, avancei com uma ideia: e se fossemos recrutar aqueles que nunca são recrutados? E se dessemos uma oportunidade de aprendizagem e emprego àqueles que nunca têm hipótese? E se transformássemos, de facto, algo, muito profundamente, através deste projecto, algo que não fosse apenas o nosso arquivo histórico?
Qual era a minha ideia em concreto? Era recrutar sim, mas aqueles que mais do que ninguém precisam de uma oportunidade e de um emprego, porque será essa, talvez, a última boia. “O que acham se recrutássemos pessoas em condição de sem-abrigo para virem trabalhar connosco para este projecto?” Silêncio na sala, não se ouviu nada durante uns largos 30 segundos.
Depois, a pouco e pouco, todos foram opinando: ideia extravagante, doida, mesmo diferente…mesmo boa…Mesmo bem pensada…Olhos húmidos, vozes que tremiam, cabeças que mexiam nervosamente. “Olha, nunca me tinha lembrado.” “Que precisam de emprego, precisam…” “Como identificamos essas pessoas?” “Será que alguém quer mesmo? Um emprego, com regras e horários…” “E será que sabem fazer o que é preciso ou estarão dispostos a aprender?”
Tantas perguntas, tantas dúvidas, tantos receios… Cresciam à medida que íamos falando, mas crescia também a vontade de fazer acontecer. Cada dúvida, cada possível resposta. Cada receio, cada possível solução. Cada obstáculo, cada forma de o resolver.
Naquele dia, nasceu o Projecto Paperless. Iria durar três anos. Fez de nós melhores pessoas. Fez-nos acreditar que é possível fazer a diferença. E mudou mesmo a vida a 14 pessoas, das 16 que o iniciaram.
Hoje, passados alguns anos, pelo menos 10 estão integrados no mercado de trabalho: técnico de produção alimentar, treinador de cavalos, repositora em supermercado, apoio administrativo… Outros trabalharam e já se reformaram.
Todos tiveram uma oportunidade de mudar, de voltar a ter vida, dignidade…
Para um representou ter a possibilidade de tomar banho todos os dias, para outro voltar a dormir numa cama, para outro ter um sítio para ter as roupas guardadas em segurança e limpas. Para todos, o sonho de um local próprio para a sua higiene pessoal. Comida todos os dias garantida. Tratamento em dentista que proporcionámos a todos os que precisavam.
Passaram a sentir-se menos sozinhos; eram uma equipa, trabalhavam juntos, tinham colegas, tiravam café de uma máquina, debatiam os problemas do dia-a-dia. Sentiram-se de novo honrados e dignos.
Cumpriram horários e regras. Aprenderam tarefas. Reaprenderam a viver. A ser pessoas. Ou – como um deles me disse uma vez – a não ter vergonha de olhar para a cara das outras pessoas, olhos nos olhos, por voltar a sentir-se igual e não apenas uma sombra no passeio.
Este projecto, enquanto esteve activo, foi visitado por líderes parlamentares de diversos partidos políticos e pela assessora para assuntos sociais da presidência da República. As pessoas ouviam falar dele e não acreditavam que fosse possível, que estivesse mesmo a acontecer.
Mas estava. E durante toda a sua duração demonstrou que é preciso apenas um momento, uns segundos, de uma ideia diferente e que alguém acredite nela, para se criar alguma coisa que muda, de facto, vidas.
Nem tudo correu bem. Dos participantes, dois deles não se adaptaram. Às regras, aos horários, à convivência, às dificuldades. Um numa fase muito inicial e outro sensivelmente a meio, acabaram por sair do projecto e voltaram a ficar ao cuidado da associação nossa parceira onde estavam acolhidos.
Os outros continuaram. Do que vi nos olhares de todos eles de cada vez que souberam destas desistências não fez na altura muito sentido. À medida que os fui conhecendo percebi que eram olhares de medo e de determinação. Medo de também eles não conseguirem e de perderem uma oportunidade de mudança de vida, e uma determinação que nascia automaticamente desse medo, uma determinação que a eles não lhes iria acontecer aquilo, que iam ser capazes. E foram.
O projecto terminou mesmo antes de a pandemia ter tido início, em 2020; foi possível garantir empregos de continuidade àqueles que tinham essa vontade e capacidade.
Muitas vezes, durante os meses de “lockdown”, pensava neles; o que teria sido de diferente se não tivessem tido essa experiência e, com ela, a oportunidade de mudar de vida?
Ninguém se encontra simplesmente porque quer numa situação de sem-abrigo; as histórias que conheci de perto são dramas humanos esmagadores: famílias disfuncionais, mortes súbitas de pais ou de mães, abandono familiar, dificuldades financeiras incalculáveis, pobreza sistémica, problemas de saúde graves, problemas de adição…. Todos, ao início, falavam do que os tinha levado àquela situação com as lágrimas a rolarem pela cara. Eram sombras… eram as tais sombras no passeio com que nos cruzamos na rua e que geralmente nos fazem desviar o olhar. Mas são pessoas, seres humanos, que pelas circunstâncias da vida perderam aquilo que nos protege, ampara e dignifica: uma casa, um espaço para sermos e estarmos.
A linha que nos separa, a todos nós, de uma situação dessas é muito ténue; muito mais do que aquilo que gostamos de pensar. O número de pessoas em situação de sem-abrigo na cidade de Lisboa baixou. Eram, a 31 de Dezembro de 2024, 3122 pessoas, menos 7,6% do que em 2023. A maior parte das pessoas nesta situação continua a viver em alojamentos temporários – são 2683. Mas o número de pessoas acolhidas também baixou. Na rua, também diminuiu o número de pessoas a viver sem tecto – são agora 439 pessoas, menos 20% do que no final de 2023.
São situações dramáticas. Todas. Mas as 439 que vivem na rua, a dormir no chão, à mercê do vento, da chuva, do frio gelado ou do calor extremo, sem uma casa de banho, um banco ou uma cadeira, são a situação mais dramática de todas. Não têm dinheiro porque não têm um meio de subsistência… Nesta fase em que se encontram precisam de amparo, apoio, reabilitação e de reaprenderem a viver. Precisam de um tecto e de um rendimento.
São “apenas” 439; a Randstad Portugal no seu Projecto Paperless apoiou, cuidou, formou, ensinou e preparou apara o mercado de trabalho 14 dessas pessoas.
Vamos fazer contas rápidas? 439 / 14 = 31,35. Ou seja, se 32 empresas em Lisboa decidissem fazer algo semelhante, o problema não se resolveria, seguramente, mas ficaria seriamente mitigado.
É fácil? Não. Dá trabalho? Imenso! É duro? Muito. Deixa-nos cansados, tristes, frustrados, emocionalmente esgotados? Deixa! Vale a pena? Vale! Vale tanto a pena. Cada tristeza tem uma alegria associada; cada frustração acaba por trazer uma conquista; cada passo atrás vem depois de três para a frente… vai-se fazendo, vai-se conquistando, devagar, mas consistentemente.
Basta uma ideia, um grupo de pessoas suficientemente aventureiras para acreditar e assumir o compromisso e a força de uma empresa para apoiar a operacionalização. Afinal, basta querer. O resto vem por arrasto. As dificuldades resolvem-se; o que não se sabe, aprende-se; as ajudas procuram-se e encontram-se. As soluções vão surgindo. Os cépticos passam a acreditar.
Trabalhando em rede, de mente aberta e com o coração do lado certo, com a vontade de fazer acontecer, consegue-se mesmo.
Porque ali o que estava em causa, mais do que as 45 toneladas de papel, era a vida de 14 seres humanos… Por isso, tudo vale a pena. E já agora: ficaram 45 quilos por digitalizar.
Este artigo foi publicado na edição de Julho (nº. 175) da Human Resources, nas bancas.
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