Futuro do Trabalho no Turismo

Por Gonçalo Rebelo de Almeida, responsável pela área de Turismo e Hospitalidade do Grupo Autónoma

 

O turismo em Portugal vive um momento de expansão, mas também de transformação profunda e na 2.ª conferência sobre Recursos Humanos, realizada na Universidade Autónoma de Lisboa, tive oportunidade de trazer para debate alguns dos desafios mais actuais no sector do turismo em Portugal: a integração de novas comunidades migrantes e o impacto da inteligência artificial (IA) e da automação. São questões que se cruzam e que, em conjunto, definem os contornos de um desafio central e sempre presente: como atrair e reter talento num sector em mudança acelerada.

O turismo português tem-se apoiado, nos últimos anos, na chegada de trabalhadores oriundos de diferentes geografias. São fundamentais para responder à falta de mão-de-obra e à diversidade crescente da procura. Mas a integração destas comunidades não pode ser vista apenas como uma solução de recurso. Deve ser encarada como uma oportunidade para enriquecer as equipas, trazer novas perspectivas culturais e reforçar a competitividade do sector. Isso exige investimento em programas de acolhimento, formação linguística e promoção da diversidade, criando ambientes de trabalho inclusivos e sustentáveis, que possam garantir uma integração digna na nossa sociedade.

Ainda no âmbito dos desafios na área de Recursos Humanos no sector do turismo que se mantém perfeitamente actuais e para as quais temos necessidade de continuar a encontrar respostas: a sazonalidade e as carreiras.

A sazonalidade continua a ser um dos maiores entraves ao desenvolvimento do sector. A dependência de determinados períodos do ano cria instabilidade laboral e dificulta a fidelização de equipas. O caminho passa por diversificar a oferta turística, promovendo destinos e produtos ao longo de todo o ano como sejam: o turismo cultural, enoturismo, desporto, turismo de natureza e eventos. Será a diminuição da sazonalidade e a desconcentração territorial que permitirá aliviar o sentimento de pressão turística em alguns polos, garantir a sustentabilidade das empresas e a estabilidade das pessoas que nelas trabalham.

A atracção e retenção de talento dependem, em larga medida, da capacidade do sector em oferecer percursos de progressão claros e programas de formação contínua. Os profissionais procuram hoje desenvolvimento pessoal, equilíbrio entre vida profissional e pessoal, e perspectivas de evolução. As empresas de turismo devem investir em academias internas, parcerias com instituições de ensino e programas de mentoria que reforcem o orgulho e o compromisso de trabalhar nesta área.

O outro tema presente na conferência foi o impacto da IA e da automação.

A automação de processos administrativos e operacionais já está a mudar a forma como os hotéis e as empresas de turismo funcionam. A IA permite personalizar ofertas, antecipar necessidades do cliente e optimizar operações. No entanto, é importante sublinhar que o turismo é, acima de tudo, uma actividade de pessoas para pessoas. A tecnologia deve libertar tempo para que as equipas se concentrem no que mais importa: a hospitalidade, a empatia e a experiência única que só o contacto humano pode proporcionar.

No entanto, as soluções de IA já disponíveis no mercado poderão contribuir para melhorar processos internos e formação de colaboradores, apoiar as operações dos centros de reservas e atendimento ao cliente com soluções de chat e assistentes virtuais de voz, a comunicação multi-idioma, a criação de conteúdos para canais de distribuição e comunicação e na análise e tratamento de dados.

Na criação de conteúdos, a IA gera descrições de serviços, textos promocionais e imagens realistas para websites e redes sociais, optimizando a presença digital dos hotéis. Assistentes virtuais por voz e texto estão cada vez mais presentes, oferecendo respostas imediatas a dúvidas sobre reservas, horários e serviços, melhorando a experiência do cliente. Por fim, a análise de dados com IA permite identificar padrões de comportamento, prever tendências de ocupação e personalizar ofertas, apoiando decisões estratégicas e aumentando a satisfação dos hóspedes.

Nenhum destes desafios pode ser enfrentado de forma isolada. É necessário um compromisso conjunto entre empresas, associações do sector, governo e instituições de ensino. Só assim conseguiremos criar um ecossistema que valorize o capital humano, aproveite a tecnologia de forma equilibrada e responda à sazonalidade com inovação.

O turismo é, acima de tudo, feito de pessoas. E é apostando nelas, na sua diversidade, nas suas competências e no seu desenvolvimento, que poderemos garantir um sector competitivo, resiliente e capaz de continuar a ser um dos motores da economia portuguesa.

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