Gonçalo Vilhena (Randstad): Promessa de utopia ou risco de distopia. Na Era da IA e de uma nova ética de trabalho, qual a porta que vamos abrir?

Entre o progresso tecnológico e a preservação da humanidade, as empresas enfrentam escolhas decisivas para o futuro do trabalho. Foi com este mote que Gonçalo Vilhena, Chief Information Officer (CIO) da Randstad, apresentou o tema “Entre a Utopia e a Distopia” na XXX Conferência Human Resources.

 

O responsável iniciou a apresentação com a imagem de duas portas como metáfora para as escolhas que a humanidade enfrenta perante o avanço da inteligência artificial (IA). A porta da utopia simboliza o progresso, bem-estar, equidade e prosperidade, colocando a tecnologia a serviço do ser humano e contribuindo para organizações e comunidades mais inclusivas. Já a porta da distopia representa o lado sombrio da tecnologia: desumanização, inércia e dependência excessiva.

Perante estas duas possibilidades, lança a questão central: «Qual é a porta que vamos querer abrir?». O CIO afirmou ainda que a sociedade tem a responsabilidade de decidir que porta abrir, sendo que essa escolha é um verdadeiro «acto de liderança».

 

O papel dos agentes sociais

Gonçalo Vilhena referiu que o ano de 2025 é considerado “o ano dos agentes”, com cerca de 50% do investimento de capital de risco direccionado a agentes de inteligência artificial. O responsável acrescentou ainda que várias projecções apontam para um crescimento exponencial do impacto desta tecnologia nos processos de recrutamento. Por um lado, existem os sistemas tradicionais, centrados na amplificação das skills dos profissionais, por outro, surgem os sistemas disruptivos, que procuram automatizar por completo determinadas tarefas.

«Mas afinal o que é um agente?», foi a questão levantada. Estes agentes são, essencialmente, Large Language Models (LLMs) com memória, capazes de interagir com sistemas, analisar dados, planear acções, executá-las, interpretar resultados e aprender continuamente.

Um exemplo prático é o agente de gestão de ausências em RH, que permite aos colaboradores interagir autonomamente com sistemas internos. Para Gonçalo Vilhena, o poder dos agentes está em conectar sistemas e bases de dados, criando um ponto único de contacto, «que permita automatizar interacções muito complexas com múltiplos sistemas».

Para o orador, a colaboração entre humanos e IA «cria uma força de trabalho híbrida». Por um lado, existem os agentes com capacidade de execução e memória infinita, permitindo que os processos mais administrativos sejam «totalmente automatizados, inclusive o registo destas actividades nos sistemas internos». A equipa de recrutamento, por outro lado, consegue libertar o seu tempo para se focar na parte mais humana, «que tem de ser extremamente social e adaptável», afirmou.

No entanto, a criação de agentes digitais apresenta desafios complexos, como a complexidade da sua configuração e manutenção, a possibilidade de respostas incoerentes ou inconsistentes geradas pelos sistemas ou os custos elevados associados ao desenvolvimento e à operação destes agentes.

 

O caminho para a utopia

O responsável explicou ainda que a utopia «é possível através de uma gestão inteligente e ética da tecnologia», referindo que, até 2028, estima-se que 33% das funções dentro das organizações integrem algum tipo de agente, sendo que «hoje é cerca de 1%». 20% das interacções digitais serão mediadas por agentes e 15% das decisões diárias incluirão alguma intervenção de agentes especializados em IA.

Neste sentido, «os agentes vão reescrever o futuro do trabalho», quer através da amplificação das competências humanas através da automação supervisionada, quer pela reinvenção completa dos processos de negócio. O profissional destacou que irá existir um novo «workflow», em que esta transformação permitirá criar novas responsabilidades e o desenvolvimento de novas estratégias de recrutamento.

Do lado dos colaboradores, sublinhou que as skills de liderança serão cada vez mais essenciais, uma vez que estes profissionais têm de estar preparados não apenas «para gerir organigramas de pessoas, mas também organigramas de agentes».

 

Riscos e armadilhas

Embora o avanço da inteligência artificial e dos agentes digitais apresentem um enorme potencial para transformar o mundo do trabalho, o CIO da Randstad alertou para os perigos e armadilhas que podem surgir neste processo, destacando que a inércia ou a má gestão pode levar «a anular o potencial da inteligência artificial». Entre os principais desafios, destacou-se a tendência para a desumanização e a dependência excessiva da tecnologia, que podem levar à perda de espírito crítico e da autonomia.

O orador destacou ainda que estudos recentes revelaram que os profissionais mais jovens conseguiram aumentar a sua produtividade em 40%, com o apoio da IA. Por outro lado, existem alguns recrutadores que acabaram por «adormecer ao volante», reflectindo a dependência em demasia da inteligência artificial.

Nesta “porta da distopia”, a tecnologia deixa de ser uma ferramenta de apoio e transforma-se num filtro entre o humano e a realidade, reduzindo a empatia, a reflexão e a autenticidade no trabalho.

Para Gonçalo Vilhena, «o grande desafio é perceber se estamos a utilizar a inteligência artificial de forma correcta», ou apenas para optimizar tarefas como escrever e-mails. Isso exige repensar o futuro do trabalho e os processos de forma mais estratégica e criativa, reforçando o exemplo dos jovens que utilizam a IA de forma inovadora.

A solução passa por equilibrar a parte humana e a inteligência artificial. O profissional comparou ainda duas ideias: o juízo humano como sendo empático e flexível, enquanto o juízo da IA é previsível e consistente. No entanto, apesar da precisão do algoritmo, «o humano continua a conseguir ler nuance e entender o melhor contexto».

A inteligência artificial tem a capacidade de gerar textos falsos de forma convincente, com risco de comprometer a validade dos processos de recrutamento. Nesse contexto, destacou a importância da entrada da regulação mundial, em que classifica sistemas de RH como de alto risco, sendo necessário que as organizações apliquem ética, transparência, justiça e inclusividade, tal como acontece na Randstad.

Em jeito de conclusão, o CIO da Randstad destacou: «O futuro é o resultado da nossa coragem de liderar». O verdadeiro desafio está a encontrar equipas sustentáveis onde a tecnologia amplie as suas capacidades para que se tornem autónomas e responsáveis, capazes de construir um progresso que seja, acima de tudo, ético, justo e verdadeiramente humano. Mas a verdadeira pergunta permanece: qual é a porta que vamos abrir – a da utopia ou a da distopia?

 

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