Humanólogos do mundo, uni-vos!

Por Rui Coutinho, Professor Adjunto Convidado de Inovação da Nova SBE

O futuro não será incerto e sombrio por um problema de tecnologia, nem por escassez de talento técnico, dados ou capacidade computacional; será incerto e sombrio, se o for, pela incapacidade coletiva de compreender o que realmente está a ser transformado quando inovamos, pelo hábito de acelerar decisões antes de lhes reconhecermos o alcance humano, social e moral, e pela ilusão confortável de que toda a complexidade pode ser reduzida a métricas, modelos ou roadmaps.

Hoje, nas equipas de inovação, a inteligência artificial já ocupa um lugar à mesa. Analisa padrões, antecipa cenários, cria utilizadores sintéticos e entrevista-os, propõe caminhos, escreve textos, avalia riscos, prototipa soluções, influencia decisões. É muito mais do que uma ferramenta neutra ou de que um simples acelerador de produtividade; é, cada vez mais, uma presença cognitiva que molda o espaço do possível e que, silenciosamente, redefine o que consideramos racional, eficiente e aceitável.

Quando a IA entra na equipa, o problema central deixa de ser o que a tecnologia consegue fazer e passa a ser aquilo que escolhemos perguntar, aquilo que decidimos delegar, aquilo que estamos dispostos a automatizar e aquilo que, mesmo podendo, escolhemos não transferir para a máquina. Estas escolhas não pertencem ao domínio da tecnologia. Pertencem ao domínio humano.

É por isso que precisamos de mais humanólogos nas nossas equipas de inovação. Pessoas formadas para pensar sistemas sociais, poder, cultura, linguagem, identidade, trabalho, desigualdade, responsabilidade e sentido. Pessoas capazes de habitar o desconforto das perguntas sem resposta imediata, de tornar visíveis as tensões escondidas nos discursos de eficiência e de transformação, de perceber que cada inovação tecnológica é também uma intervenção profunda na forma como vivemos, trabalhamos, decidimos e nos relacionamos.

A inteligência artificial responde com uma velocidade e uma consistência que nenhuma equipa humana consegue igualar. O que não faz é escolher o que importa. Não reconhece dilemas morais. Não distingue impacto de ruído. Não sente o peso de uma decisão que afecta trajetórias de vida, comunidades inteiras ou a arquitetura invisível da confiança organizacional. Tudo isso continua a depender de pensamento humano informado, crítico e responsável.

Sem humanólogos, as equipas de inovação tendem a confundir sofisticação técnica com maturidade estratégica. Produzem soluções elegantes para problemas mal formulados, escalam modelos que funcionam no papel e colidem mais tarde com realidades sociais que ninguém se deu ao trabalho de compreender. A inovação acelera, o sentido dilui-se, as consequências acumulam-se.

Num futuro em que a IA se torna cada vez mais presente como agente cognitivo nas organizações, a verdadeira vantagem competitiva desloca-se para a qualidade do enquadramento humano que a rodeia. Não para a velocidade da adoção, mas para a clareza das escolhas. Não para o poder de cálculo, mas para a capacidade de nomear limites, explicitar valores e assumir responsabilidade.

É por isso que precisamos de mais humanólogos nas nossas equipas de inovação.

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