Por Rui Roque, sociólogo, e Susana Mogas, consultora e investigadora na área da transformação consciencial
“É necessário que as estratégias de mudança e as experiências de inovação que surgem nas escolas portuguesas encontrem um ambiente onde possam crescer todos os dias”
(Daniel Sampaio, Voltei à Escola)
Numa altura em que a última geração que brincou no parque e na rua ingressa no mercado de trabalho, importa reflectir se o sistema oficial de ensino satisfaz as ambições/aspirações do universo estudantil na sua plenitude.
A presente pesquisa, realizada em parceria com a Susana, com quem ultimamente tenho reflectido acerca da temática do empreendedorismo, aliado à sua experiência na área da transformação consciencial, leva-me a acreditar que desta mescla de saberes sairá um output mais enriquecido, que contribuirá para uma melhor compreensão relativamente ao habitat propício de desenvolvimento de um empreendedor.
A imagem do Telmo Guerra mostra-nos uma árvore silenciosa e resistente, que assiste à infância e à liberdade dos instantes que passam demasiado rápido, essa infância que o tempo leva, mas que nunca desaparece totalmente. Desse modo, podemos concluir que é desde cedo que a criança desperta para o empreendedorismo. Alguns autores como Jardim e Franco (2019) defendem que os primeiros tempos de vida, são de extrema importância na educação/desenvolvimento da criança: “A educação para o Empreendedorismo baseia-se no desenvolvimento de competências essenciais que possibilitam a formação de cidadãos activos, participativos e críticos da sociedade actual.”
Este ambiente de aprendizagem, ainda segundo estes autores, deve “confrontar a criança com propostas de um nível de dificuldade de desafio progressivo que garantam experiências de sucesso, mas que também ajudem a criança a analisar as dificuldades e o fracasso, de modo reflexivo, crítico e proactivo.”
Além de uma análise relativamente ao papel da escola enquanto incubadora de futuros empreendedores, iremos debruçar-nos sobre três modelos complementares do ensino tradicional:
- Modelo Montessori;
- Pedagogia Waldorf;
- Ensino artístico/ articulado da SCMF.
Relativamente aos dois primeiros modelos de ensino podemos descrevê-los do seguinte modo:
- Método Montessori (fundado pela médica italiana Maria Montessori) – a sua abordagem educacional centra-se na criança. Defende uma autonomia da criança (onde se destaca a liberdade com limites e respeito pelo ritmo individual), fomenta a independência e a autoconfiança, mas mantém o foco no desenvolvimento integral da criança. Dito de outra forma, este modelo encontra eco no exemplo dado por Jardim e Franco (2019): “Ao brincar, a criança participa activamente na realidade, desenvolve a curiosidade e a criatividade, estabelece relações entre as aprendizagens, melhora as suas capacidades relacionais e de iniciativa e assume responsabilidades”;
- A Pedagogia Waldorf – esta abordagem tem o foco no desenvolvimento integral do ser humano, nomeadamente nos campos do pensar, do sentir e do agir. Este modelo defende que o desenvolvimento da criança ocorre em ciclos de sete (anos), mais especificamente do seguinte modo (do nascimento aos sete anos de idade, dos sete aos catorze e dos catorze aos 21. Nesta pedagogia, o método de aprendizagem assenta na criatividade e no contacto com a natureza.
Tal como já tinha identificado em: “Uma reflexão sobre o Empreendedorismo no Feminino (2025)”, existem dois conceitos cruciais nesta postura do indivíduo perante a adversidade: (resiliência e anti-fragilidade). Importa pois compreender qual o papel ocupado por ambos, na equação do empreendedorismo/superação, de modo a permitir a superação da adversidade.
As organizações mais preparadas para o futuro serão aquelas que promovem ambientes psicologicamente seguros, onde as pessoas podem expressar ideias, testar abordagens diferentes e aprender continuamente. Mais do que procurar profissionais que nunca falham, procuram-se pessoas que sabem aprender, adaptar-se e crescer. A anti-fragilidade, de acordo com Ricardo Caldeira, vai mais longe, uma vez que, segundo o autor, o indivíduo não luta apenas contra o stress e a adversidade, mas prospera e faz deles aliados no seu processo de crescimento e superação.
O Dicionário de Língua Portuguesa da Porto Editora define resiliência como a capacidade de defesa e recuperação de uma pessoa perante factores ou condições adversas.
Todo o acto de empreender começa muito antes da criação de um negócio. Começa no momento em que uma pessoa se sente livre para pensar, imaginar e criar. É por isso que a educação desempenha um papel fundamental na construção de sociedades mais inovadoras, humanas e empreendedoras.
Durante muito tempo, os sistemas educativos privilegiaram a reprodução de conhecimento e a procura pela resposta certa. Contudo, os desafios do séc. XXI exigem algo diferente: pessoas capazes de explorar o desconhecido, experimentar novas soluções e construir caminhos próprios. Para isso, a liberdade de expressão e a criatividade não podem ser encaradas como competências secundárias, mas como elementos centrais no processo educativo, tal como defende Goleman: “O êxito pessoal e profissional não depende da nossa inteligência clássica, mas sim das nossas competências emocionais e sociais”.
Num contexto de mudança, ou de hábitos, por parte dos jovens, surge uma questão pertinente: qual o papel que a escola desempenha no processo de socialização/aprendizagem do indivíduo?
A escola não pode ser apontada como a única responsável pelo superação/desaire dos jovens perante as adversidades do quotidiano. Daniel Sampaio, relembra-nos a esse respeito: “Há muitos rapazes e raparigas que deixam a escola tradicional. Uns perdem-se pelo caminho e vão dar corpo àquele grupo a que desde logo chamamos de excluídos. Outros arranjam uns empregos precários e vão sobrevivendo. Há ainda aqueles que podem ter a sorte de estar numa escola que desenvolveu um curriculum alternativo, organizando um projecto para cinco anos a partir do 2º ciclo.”
Neste contexto insere-se o ensino artístico, de que a Academia de Música e Dança do Fundão é um exemplo de sucesso, podendo mesmo ser considerada uma incubadora de empreendedores, pela quantidade de alunos que coloca não apenas nas universidades nacionais, como além-fronteiras. As disciplinas de canto, capacidade motora rítmica, proporcionam a evolução dos estudantes, ao ponto de representantes das Universidades de Haia e Birmingham se deslocarem anualmente ao Fundão para captação de alunos para as suas classes.
Situada no sopé da Serra da Gardunha, na cidade do Fundão, a Academia de Música é uma valência que a Santa Casa local proporciona aos jovens. A academia proporciona, em parceria com os dois Agrupamentos de Escolas da cidade, o ensino artístico aos jovens estudantes. Mobiliza neste momento cerca de 350 alunos, sendo 60 do primeiro ciclo, outros 60 na classe de ballet e os restantes vêem no ensino artístico um complemento ao que a escola dita tradicional oferece. A oferta do primeiro ciclo é tida como um crivo de aptidões para o futuro. Este sistema de ensino é apontado pelos entendidos como o melhor modelo de Ensino Básico e Secundário. Este modelo de ensino pode e deve ser transportado para outras áreas do saber, das ciências humanas às ditas ciências exactas.
No fundo é a “garra e a empatia” destes pequenos empreendedores que lhes permite, através da perseverança e da paixão pelo que fazem, alcançar os objectivos que desde cedo se propõem atingir em adultos. Jardim e Franco defendem mesmo que: “Desde o nascimento, as crianças possuem uma curiosidade natural para compreender e dar sentido ao mundo que as rodeia, sendo competentes nas relações e interacções que estabelecem com os outros e abertas ao que é novo e diferente.”
Quando os indivíduos são encorajados a expressar as suas ideias sem receio de julgamento desenvolvem confiança em participar, inovar e contribuir. A criatividade floresce em ambiente onde existe espaço para a curiosidade, para a diversidade de pensamento e para a descoberta. É nesse espaço de liberdade que surgem ideias capazes de transformar organizações, comunidades e realidades.
A autonomia é outro pilar essencial. Educar não significa apenas transmitir conteúdos; significa capacitar cada pessoa para tomar decisões, assumir responsabilidades e encontrar significado nas suas escolhas. A autonomia fortalece o sentido de iniciativa e prepara os indivíduos para agir de forma consciente e empreendedora perante os desafios da vida e do trabalho.
As organizações mais preparadas para o futuro serão aquelas que promovem ambientes psicologicamente seguros, onde as pessoas podem expressar ideias, testar abordagens diferentes e aprender continuamente. Mais do que procurar profissionais que nunca falham, procuram-se pessoas que sabem aprender, adaptar-se e crescer.
Neste contexto, o erro deixa de ser visto como um fracasso e passa a ser reconhecido como parte natural da aprendizagem. Ninguém cria, inova ou empreende sem experimentar, falhar, ajustar e tentar novamente. As descobertas mais significativas surgem frequentemente da coragem de errar e da capacidade de aprender com a experiência. Uma cultura que penaliza o erro gera conformismo; uma cultura que o compreende como oportunidade gera evolução.
Do ser ao empreender existe um caminho de liberdade. Um caminho onde a educação desperta o potencial criativo, fortalece a autonomia e ensina que errar não é o oposto do sucesso, mas uma das suas etapas fundamentais. É nesta jornada que se formam indivíduos capazes não apenas de acompanhar a mudança, mas de a criar.
BIBLIOGRAFIA
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CALDEIRA, Ricardo: “Ao Coração da Liderança”, Actual Editora, Lisboa 2024.
GOLEMAN, Daniel: “Como ser um Líder – A importância da inteligência emocional”, Temas e Debates, Lisboa 2024
JARDIM, Jacinto e FRANCO, José Eduardo: Dicionário de Educação para o Empreendedorismo, Gradiva, Lisboa, Fevereiro de 2019, 1ª Edição
MONTESSORI, Maria: “O Manual Montessori”, Alma dos Livros, Lisboa. Março de 2026, 2ª Edição
OLIVEIRA, Alina: “Resiliência Para Principiantes”, Edições Sílabo, Lisboa Setembro de 2018, 2ª Edição
ROQUE, Rui: “Uma reflexão sobre o Empreendedorismo no Feminino”, Human Resources, Março 2025, Lisboa
ROQUE,Rui: “GPS – Género Personalidade e Superação – De lideradas a Líderes II”, Human Resources, Setembro 2025
SAMPAIO, Daniel: “Voltei à Escola”, Editorial Caminho, Lisboa, Março de 2026

















