Investir em pessoas, ganhar em resultados

O que acontece quando as empresas descobrem que colaboradores exaustos custam mais do que investir no seu bem-estar? A resposta está a transformar o mundo do trabalho.

 

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Durante décadas, o mundo corporativo funcionou segundo uma lógica implacável: produtividade, resultados, métricas. Os colaboradores eram vistos como recursos, peças engrenadas numa máquina maior, e esperava-se que deixassem os seus problemas pessoais à porta do escritório. Mas em 2020, tudo mudou. A pandemia de Covid-19 actuou como catalisador de uma transformação que já fermentava há anos, trazendo à superfície uma verdade incontornável: não podemos separar a pessoa do profissional, e ignorar a saúde mental tem custos devastadores, tanto humanos como económicos.

Os números são elucidativos. Segundo a Organização Mundial de Saúde, a depressão e a ansiedade custam à economia global cerca de um bilião de dólares por ano em perda de produtividade. Em Portugal, estudos recentes indicam que mais de 20% da população activa sofre de perturbações relacionadas com o stress laboral. Mas, para além das estatísticas, há histórias reais: colaboradores que se arrastam para o trabalho com a sensação de peso, gestores que não dormem porque a pressão é insustentável, equipas inteiras à beira do burnout.

As organizações mais perspicazes compreenderam que investir no bem-estar mental dos seus colaboradores não é um acto de caridade corporativa, mas uma estratégia de negócio inteligente. Dias de descanso obrigatórios para toda a empresa, acesso a terapeutas especializados, redes internas de apoio formadas por colaboradores treinados para identificar sinais de alerta – estas iniciativas representam uma mudança de paradigma sobre o que significa ser uma empresa responsável no século XXI.

Mas o desafio vai além de disponibilizar uma linha de apoio psicológico ou organizar sessões de mindfulness ocasionais. O verdadeiro trabalho começa na cultura organizacional, naquilo que é valorizado, recompensado e tolerado no dia-a-dia. De que serve oferecer consultas de psicologia se os colaboradores têm medo de as utilizar por receio de serem vistos como fracos ou menos comprometidos? Como podemos falar de equilíbrio quando os emails continuam a chegar às 10 da noite e há uma expectativa implícita de resposta imediata? A mudança genuína exige coerência entre o discurso e a prática, entre as políticas no papel e o que realmente acontece nos escritórios e nas equipas.

Algumas organizações estão a experimentar abordagens inovadoras que atacam o problema pela raiz. Horários verdadeiramente flexíveis, onde os colaboradores podem ajustar o seu dia às necessidades pessoais sem penalizações. Ausências por questões de saúde mental equiparadas a baixas médicas por problemas físicos, eliminando o estigma de que problemas psicológicos são menos legítimos. Líderes que partilham publicamente as suas próprias vulnerabilidades, quebrando a ideia de que chegar ao topo exige ser invencível. Quando a gestão admite que também enfrenta desafios, a conversa muda radicalmente em toda a organização.

 

O papel crucial da liderança
A transformação cultural começa sempre no topo. Gestores e líderes de equipa são a primeira linha quando se trata de saúde mental. Um chefe que trabalha 12 horas por dia, responde a emails durante as férias e nunca admite fragilidade está a enviar uma mensagem clara, independentemente das políticas oficiais da empresa. Por isso, cada vez mais organizações investem na formação de líderes em competências que antes eram consideradas secundárias: inteligência emocional, escuta activa, empatia, capacidade de identificar sinais de stress na equipa.

Treinar gestores para terem conversas difíceis sobre saúde mental tornou-se prioritário. Não se trata de transformar chefes em psicólogos, mas de dotá-los de ferramentas básicas para reconhecer quando alguém não está bem e saber como encaminhar para apoio adequado. Mais importante ainda, trata-se de ensinar líderes a criar ambientes psicologicamente seguros, onde os erros são oportunidades de aprendizagem e não motivo de punição.

O trabalho remoto e híbrido, que se generalizou após a pandemia, trouxe benefícios óbvios em termos de flexibilidade, mas também novos desafios complexos. A fronteira entre vida pessoal e profissional esbateu-se perigosamente, com muitos colaboradores a relatar que trabalham mais horas do que quando estavam fisicamente no escritório. O isolamento social, a falta de interacções informais com colegas, a dificuldade em “desligar” mentalmente do trabalho são questões prementes que exigem soluções criativas e intencionais. Políticas de “trabalho calmo”, onde não há expectativa de respostas instantâneas, onde as reuniões são raras e verdadeiramente necessárias, estão a ganhar terreno. O resultado? Colaboradores mais focados, menos ansiosos e, paradoxalmente, mais produtivos.

Como é que uma organização sabe se as suas iniciativas de saúde mental estão realmente a funcionar? O bem-estar emocional não aparece numa folha de Excel com a mesma facilidade que os números de vendas ou os indicadores de produtividade. Mas empresas pioneiras estão a desenvolver métricas sofisticadas que vão além dos inquéritos anuais de satisfação. Análise de padrões de comportamento que podem indicar stress crónico: picos anormais de horas de trabalho, diminuição na colaboração entre equipas, aumento de dias de ausência, redução no engagement com projectos. Os números, porém, contam apenas parte da história. Conversas informais, feedback qualitativo, grupos de discussão onde colaboradores podem falar abertamente sobre o que sentem – tudo isto é igualmente importante para ter uma visão completa.

A questão já não é se as empresas devem investir em saúde mental e bem-estar, mas como fazê-lo de forma efectiva, mensurável e culturalmente coerente. Os colaboradores de hoje, particularmente as gerações mais recentes, não aceitam trabalhar em ambientes tóxicos ou para organizações que os vêem como meros instrumentos de produção. Procuram empresas cujos valores se alinhem com os seus. As organizações que compreenderem esta mudança profunda e agirem em conformidade não só atrairão e reterão os melhores talentos, como construirão culturas mais resilientes, criativas e humanas. O futuro do trabalho não é apenas sobre tecnologia, inovação ou modelos de negócio disruptivos. É, acima de tudo, sobre pessoas que se sentem genuinamente valorizadas, apoiadas e bem.

 

Este artigo foi publicado na edição de Dezembro (nº.180) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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