Jorge Valadas, Egon Zehnder: Liderar em tempos de incerteza: o novo ADN da liderança

No âmbito do especial dos 15 anos da Human Resources, desafiámos responsáveis de empresas a perspectivarem os pontos-chave da liderança para os próximos 15 anos.

 

Por Jorge Valadas, Responsável pela Egon Zehnder em Portugal

O futuro da liderança começa agora e está nas mãos de quem tem coragem de evoluir com o mundo, e não apesar dele.

Numa era de constante transformação, a liderança enfrenta desafios inéditos. O mundo mudou, e os líderes são chamados a evoluir com ele. Neste texto, exploramos o perfil do líder contemporâneo – resiliente, empático e orientado pelo propósito – e propomos uma reflexão sobre o papel humano da liderança no século XXI, onde os modelos tradicionais já não têm fôlego para operar diante de tanta complexidade, disrupção e urgência.

Segundo um estudo da Egon Zehnder, que inquiriu 472 CEO a nível mundial, 95% dos inquiridos acreditam que a próxima década trará mudanças sistémicas profundas no panorama global. Essas transformações impactam directamente as empresas, nomeadamente as lideranças, exigindo a revisão de modelos, práticas e até mesmo do que significa liderar.

Em Portugal, já sentimos os efeitos dessas mudanças: as empresas são desafiadas a posicionar-se com mais clareza, a atrair novos perfis de talento e a responder com agilidade a pressões sociais e regulatórias crescentes.

A urgência da mudança: liderar sem manual de instruções

A disrupção é contínua nos dias de hoje e exige um novo perfil de liderança. Mas será que existe uma fórmula? Não existe um modelo único. O novo perfil de liderança é resultado de uma convergência de factores: avanço acelerado da tecnologia, conflitos geopolíticos, escassez de talentos, transformações demográficas, mudanças geracionais e, sobretudo, uma nova consciência sobre o papel social das organizações.

Esse cenário exige líderes que actuem com adaptabilidade, empatia e responsabilidade. Que se adaptem sem perder o rumo. Que aceitem não ter todas as respostas, mas que estejam preparados para fazer as perguntas certas e construir, com os outros, soluções. Como observou um líder de topo num estudo da Egon Zehnder: «Quando nos tornamos CEO, deixamos de pertencer a nós próprios.»

Essa é a essência da liderança adaptativa, uma competência central para o futuro. Mais do que especialistas ou tomadores de decisão, os líderes devem ser facilitadores de mudança. Isso exige visão estratégica, mas, também, inteligência emocional, coragem e humildade. As pessoas continuam a desejar líderes fortes, mas não no sentido tradicional. Querem uma força que inspire confiança, acolha a vulnerabilidade e promova conexões humanas genuínas.

Mudança e inovação: as novas estrelas da liderança

As competências fundamentais de liderança permanecem relevantes, mas o seu valor está na forma como são aplicadas para impulsionar a transformação. A aptidão para alinhar pessoas em torno de uma visão clara, executar com consistência e influenciar com propósito continua a ser decisiva. No entanto, existem duas dimensões cada vez mais determinantes: a mudança e a inovação.

A mudança é a única constante no mundo de hoje. Já não existem anos previsíveis ou fases prolongadas de estabilidade. Mas, mais do que reagir à mudança, cabe aos líderes conduzi-la, antecipando tendências, desenvolvendo capacidades internas, motivando os colaboradores e promovendo culturas organizacionais resilientes.

A inovação, por sua vez, consolida-se como diferenciador estratégico. Nos processos de assessment que conduzimos em Portugal, é cada vez mais frequente vermos a transformação digital, a IA e a data analytics surgirem como prioridades críticas. O líder do futuro deve integrar estes temas no seu dia-a-dia, não apenas como especialista técnico, mas como agente activo da reinvenção organizacional.

Visão 2030: o líder que inspira e entrega

O líder de 2030 será capaz de combinar inspiração com pragmatismo. De equilibrar resultados com sensibilidade humana. De cultivar curiosidade, determinação e coragem para assumir riscos. E, acima de tudo, de formar outros líderes, reconhecendo que a liderança é um acto colectivo e contínuo.

Num mundo onde ninguém é insubstituível, a perenidade das organizações dependerá da sua capacidade de desenvolver sucessores e garantir continuidade. Contudo, existem obstáculos estruturais importantes.

O primeiro é a redução do tempo de permanência em posições de topo. A mediana dos mandatos dos CEO nas empresas do S&P500, por exemplo, caiu 20%* entre 2013 e 2022, fixando-se nos 4,8 anos. A nossa experiência diz-nos que esse período pode ser insuficiente para transformações profundas ou consolidar legados. Acresce a pressão constante por resultados a curto prazo, que pode inibir investimentos no desenvolvimento da liderança interna.

O segundo desafio é demográfico. Com o envelhecimento da população e a redução da renovação de talentos em muitos mercados, surgem novas exigências. Além disso, as gerações mais jovens valorizam propósito, equilíbrio e impacto, ao contrário da geração X e dos baby boomers, que viam a liderança como uma forma de realização e status. Esta mudança de paradigma exige novas abordagens de atracção, motivação e sucessão.

O terceiro desafio é estrutural. Sectores inteiros atravessam movimentos de consolidação, que criam ambientes mais concentrados e complexos. Embora isto possa atenuar a escassez de talento, também impõe maior responsabilidade às lideranças, que precisam de actuar com sofisticação em contextos cada vez mais interdependentes e escalas cada vez maiores.

Por fim, há um desafio mais silencioso, mas, talvez, o mais profundo: a disponibilidade pessoal para liderar. Numa palestra recente da Egon Zehnder, ouvimos uma frase marcante: «Não existe liderança sem dor.» Liderar é carregar responsabilidades, enfrentar dilemas, tomar decisões difíceis e, muitas vezes, fazê-lo em solidão. Isto exige uma resiliência que precisa de ser cultivada de forma intencional, de dentro para fora.

Liderar com alma: a humanidade no centro da gestão

O que nos leva a uma reflexão final: a liderança é, cada vez mais, um exercício de humanidade. Mais do que competências técnicas, é a clareza de propósito, a integridade nas relações e a presença nos momentos-chave que definem um líder capaz de mobilizar pessoas e organizações.

Hoje, ao enfrentar-se a efemeridade dos cargos, a pressão por resultados e as novas exigências sociais, liderar é sustentar escolhas difíceis com coragem e consistência, sem perder a conexão com o que importa. O futuro da liderança não será construído com respostas prontas, mas com melhores perguntas. Não será feito por heróis solitários, mas por líderes que desenvolvem outros líderes. Não será um acto de controlo, mas de transformação.

* Estudo “CEO Tenure Rates”, conduzido pela Equilar e publicado na plataforma Harvard Law School Forum on Corporate Governance em Agosto de 2023

Este artigo faz parte do Tema de Capa publicado na edição de Julho (nº. 175) da Human Resources.

Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.

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