Liderar com mundo. A transição energética, com as pessoas no centro

O futuro energético assenta numa matriz híbrida onde a ciência, a tecnologia, a economia, a cultura e a humanidade se entrelaçam. E no centro dessa equação, mais do que os recursos ou as infra-estruturas, estão as pessoas.

 

Por Ana Silveira, directora de Relações Externas e Comunicação da Galp | Mentora PWN Lisbon

 

Vivemos uma das maiores transformações da história da energia. Durante mais de um século, dependemos das moléculas fósseis – petróleo e gás natural – como base do desenvolvimento económico e social. Elas foram o motor da industrialização, da mobilidade global e da revolução tecnológica do século XX.

Depois do carvão, do petróleo e do gás, uma nova equação emerge: o mundo mede-se cada vez mais em electrões, vindos do sol, do vento e do mar, distribuídos por redes inteligentes, apoiados em baterias de nova geração e potenciados por tecnologias digitais.

Mas a transição energética não é apenas a substituição de uma tecnologia por outra. O processo não vai ser simples e as moléculas vão continuar a ser imprescindíveis. Biocombustíveis avançados, produzidos a partir de resíduos agrícolas e florestais ou de óleos usados, e combustíveis sintéticos (e-fuels), obtidos a partir de hidrogénio verde e CO2 capturado, serão decisivos em sectores difíceis de electrificar, como a aviação, o transporte marítimo e algumas indústrias pesadas.

O futuro energético está a ser construído numa coexistência de moléculas e electrões, assente numa matriz híbrida onde a ciência, a tecnologia, a economia, a cultura e a humanidade se entrelaçam. E no centro dessa equação, mais do que os recursos ou as infra-estruturas, estão as pessoas. Liderar com mundo é compreender que cada decisão tomada, em Portugal, na Europa ou noutra parte do globo, tem repercussões globais e, sobretudo, humanas. Um caminho que se faz com ambição, mas norteado por regulação europeia, por soluções de energia seguras, fiáveis e acessíveis a todos, garantindo um futuro sustentável para as gerações vindouras.

1. A regulação como bússola
A energia é um sector em que a regulação tem um papel cada vez mais determinante. A União Europeia tem vindo a desenhar um quadro normativo sem precedentes – do pacote “Fit for 55”, que impõe uma redução de 55% nas emissões até 2030 (face a 1990), à directiva REDIII, que estabelece uma quota mínima de 42,5% de energias renováveis no consumo final de energia até 2030, além de metas específicas para transportes.

Para alguns, estas metas podem parecer barreiras. Mas para quem lidera forma equitativa. A regulação dá o rumo. Cabe às empresas do sector da energia navegar com pragmatismo, equilíbrio e visão de longo prazo, transformando exigências legais em oportunidades de investimento, inovação e impacto positivo.

 

2. A energia invisível da confiança
A transição energética mede-se em gigawatts e em toneladas de CO2 evitadas, mas também em algo mais intangível: a confiança. É a confiança de que a electricidade continuará a chegar, estável e acessível.

De que novas formas de mobilidade – eléctrica, híbrida, movida a hidrogénio ou biocombustíveis – serão credíveis, pragmáticas, seguras e viáveis. E, acima de tudo, de que ninguém ficará para trás no caminho da descarbonização.

Essa energia invisível alimenta-se de justiça energética: acesso universal, equitativo e sustentável. Constrói-se com escolhas tecnológicas feitas de forma transjusta parente, racional e responsável, para que sejam compreendidas como sólidas e de confiança. Liderar com mundo é garantir que a transição avança com pragmatismo e credibilidade, criando condições para que todos tenham acesso às soluções do futuro.

 

3. A comunicação como ferramenta de transição
Nenhuma transição desta magnitude acontece só com tecnologia ou regulação. Ela precisa de narrativas mobilizadoras. A comunicação é a ferramenta que torna o complexo compreensível e o invisível palpável. É o que transforma megawatts em histórias de futuro, e metas de emissões em compromissos humanos.

Mas comunicar não é apenas falar. É também ouvir activamente as necessidades das pessoas, construir diálogo com as comunidades e explicar a transição de forma clara e acessível. Só assim cada cidadão percebe as opções que tem pela frente e sente que faz parte deste caminho.

Explicar a transição energética é explicar o porquê da mudança, o como do caminho e o que cada um ganha com isso. Falar de energia, no fundo, é falar de futuro colectivo. Uma mudança que não é contra ninguém, mas para todos. E a um ritmo que todos possam suportar.

 

4. O impacto social como verdadeiro legado
A energia é mais do que uma commodity: é um direito básico. Está no aquecimento de uma casa, no transporte para o trabalho, no funcionamento de uma escola ou de um hospital. Por isso, o maior teste à liderança energética é garantir que a transição é justa e inclusiva. Isso implica que as empresas do sector assumam um papel activo no desenvolvimento sustentável das comunidades, apoiando os mais vulneráveis na adaptação a este novo paradigma, investindo em formação, requalificação e integração profissional, criando novos empregos qualificados e assegurando que os benefícios da descarbonização chegam a todos os territórios.

Cada watt renovável, cada molécula sustentável, só será plenamente legítimo se também ajudar a reduzir desigualdades. O verdadeiro legado da transição não será apenas energia limpa, mas sociedades mais resilientes, justas e humanas.

 

5. A nova equação da liderança
Navegar a transição energética é um desafio imenso, mas também uma oportunidade histórica de reinventar não apenas o sector energético, mas a própria essência da liderança.

Se antes a energia se media em barris e megawatts, hoje mede-se também em impacto social e ambiental. Liderar com mundo é reconhecer estas dimensões e colocar as pessoas no centro da transformação.

É uma liderança que se reinventa:

Menos centrada no poder, mais ancorada no propósito;

Menos focada em resultados imediatos, mais comprometida em impacto duradouro;

Menos vertical, mais colaborativa e inclusiva.

Porque, no fim, a verdadeira medida do nosso sucesso não será apenas a energia limpa que produzimos, mas o legado humano, ambiental e social que deixamos às gerações futuras.

 

Este artigo foi publicado na edição de Outubro (nº. 178) da Human Resources

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