Vanda de Jesus, Portugal Digital: Mais automatização é mais humanização

Segundo a estimativa da OCDE de Janeiro de 2021, 14% dos postos de trabalho estão em alto risco de serem automatizados. Mas a expressão “alto risco” não deverá induzir receio: o mesmo relatório – que analisa os anos de 2012 a 2019 – indica, aliás, que o emprego aumentou em quase todos os países da OCDE durante esse período, apesar de estarmos perante uma adopção de tecnologia e automatização contínuas.

 

Por Vanda de Jesus, directora Executiva da Estrutura de Missão Portugal Digital

 

No contexto em que vivemos, o fenómeno da automatização de funções tem vindo a crescer a uma velocidade acelerada. As pessoas, as empresas e as instituições adaptam-se às novas tecnologias e ao digital e usam-nas enquanto ferramentas essenciais de trabalho. No entanto, as mais-valias de uma eventual substituição de tarefas, através de ferramentas tecnológicas, continuam na sombra de um receio sobre o que há-de vir.

Importa perceber porque é que a automatização de funções e postos de trabalho pode ser nossa aliada. Verificam-se benefícios na promoção de um aumento de empregabilidade e no equilíbrio da balança entre as horas de trabalho e lazer, ambas questões prementes nestes últimos anos. A automatização de tarefas e/ou postos de trabalho é viável em funções que o permitem – desde trabalhos executados em fábricas aos de um consultório médico e de diagnóstico. Funções que exigem elevados níveis de repetição e precisão, com base em dados facultados e tratados, são cenários em que a automatização não só pode ser posta em prática, como é comprovadamente benéfica.

Esta transformação adiciona poder e precisão ao trabalho que executamos, permitindo diminuir a carga de trabalho e impedir o erro humano, ao mesmo tempo que dá a possibilidade de nos focarmos no que não é automatizável. Existem traços humanos que são fundamentais para os processos de avaliação e decisão, de definição de prioridades e resolução de problemas que ainda não são passíveis de ser substituídos. A empatia, a emoção, a capacidade de análise e contextos são características para as quais não podemos facultar dados suficientes ou manual de instruções.

Conscientes de que o que trazemos connosco nos define e nos potencia, a diversidade e a capacitação digital tomam palco principal nesta reflexão. A nossa capacidade de empatia e análise está intrinsecamente ligada às nossas personalidades e às experiências que as definem. Equipas diversas – seja pelo nosso género, cor da pele, estrato social, percurso académico e profissional, entre tantas outras idiossincrasias – são basilares no exercício da nossa actividade profissional.

Seja na área de Recursos Humanos, consultoria, aconselhamento legal, ensino, entre tantas outras – e pese embora algumas das suas vertentes possam ser potenciadas através do recurso à tecnologia e ao digital –, nenhuma ferramenta tecnológica consegue ainda traduzir as mais complexas interacções humanas e processos de decisão. Estamos a trabalhar suficientemente nestas capacidades?

O Plano de Acção para a Transição Digital reconhece, enquanto primeiro pilar da sua definição, as pessoas e a sua capacitação para um mundo digital. São elas a chave para a evolução, não só pela sua adaptação a um mundo em constante mudança, mas também pela sua humanidade e diversidade. Precisamos de cidadãos capacitados para interagir com o digital, mas também reforçar as suas capacidades para aquilo que a tecnologia ainda não poderá fazer brevemente.

Precisamos de equipas que se distingam pelas suas diferenças, que impulsionem criatividade e variedade de opiniões, que se adaptem, que trabalhem em equipa e, por isso, mais preparadas para a resolução de problemas. Precisamos de empresas cada vez mais abertas à inovação e a equipas invulgares. Esta vontade de um futuro inclusivo e digital não é automatizável.

 

Este artigo foi publicado na edição de Setembro (nº.129) da Human Resources, nas bancas.

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