E se um grupo de médicos se juntasse para melhorar, inovar e revolucionar a gestão dos cuidados de saúde em Portugal? É essa a premissa da nobox. E fá-lo através de formações que, fugindo aos programas tradicionais, desenvolvem não só competências clínicas, mas também comportamentais e organizacionais, recorrendo à gamificação.
Por Tânia Reis
Actualmente, a prestação de cuidados de saúde com qualidade exige cada vez mais uma maior articulação entre os vários intervenientes do sector, nomeadamente as várias profissões e as diferentes organizações de saúde, bem como entre todos os parceiros, associações e empresas do ecossistema de saúde», começa por explicar Sofia Carmezim Pereira, médica de Saúde Pública, directora da Unidade de Negócio – Health Games e consultora de inovação da nobox. «Esta complexidade obriga à implementação e coordenação de sistemas de gestão clínica eficazes, que consigam envolver as equipas clínicas e de gestão, para conseguirem, em conjunto, perceber como moldar e adaptar o sistema para melhor responder às necessidades dos doentes e cidadãos.» Infelizmente, a seu ver, este é «um dos principais problemas do sector neste momento», isto é, «a sua rigidez e lentidão em conseguir reinventar-se e adaptar-se às novas realidades, com o devido envolvimento dos profissionais de saúde e dos doentes».
Foi neste cenário que nasceu a nobox, um projecto fundado por médicos que tem como objectivo capacitar os profissionais de Saúde. «A nobox surgiu por sentirmos estas dificuldades de gestão e articulação no dia-a-dia como médicos», recorda a consultora de inovação. «Não é suposto o sistema depender da boa vontade e espírito de sacrifício dos profissionais, em quem recai a responsabilidade de dar resposta aos doentes, independentemente das falhas e ineficiências do sistema.»
Na nobox, os modelos de gestão de pessoas e de inovação visam especificamente o sector de Saúde, procurando «ser o parceiro das equipas e organizações para imaginar e construir novos cuidados de saúde».
Lacunas na formação… e nas competências
Entre as principais lacunas identificadas na formação dos profissionais, Sofia Carmezim Pereira enumera competências comportamentais como «liderança, gestão de conflitos e desenvolvimento de pessoas», ou de gestão, como «estratégia e inovação aplicada a serviços de saúde», que, «infelizmente, não fazem parte do currículo da maior parte das profissões de saúde». Mas são fundamentais para que estes possam «contribuir para repensar e mudar a forma como trabalham em conjunto e como organizam a prestação de cuidados».
Neste momento, as formações da nobox têm como objectivo desenvolver três pilares principais de competências: clínicas, comportamentais e organizacionais. Ainda que reconheça que Portugal tem «os profissionais de saúde mais bem preparados para lidar com a vertente clínica da saúde», formados «nas excelentes universidades», é sabido que «a formação clínica deve acompanhar a carreira destes profissionais, tendo em conta a velocidade a que a ciência médica se tem desenvolvido nas últimas décadas », por isso, a actualização de conteúdos clínicos é essencial para oferecer aos utentes os melhores cuidados de saúde possíveis.
Já a formação de competências comportamentais e organizacionais acaba por ser uma lacuna em qualquer momento de formação dos profissionais de saúde, o que tem impacto no desenvolvimento das equipas e na qualidade dos serviços prestados, afirma a responsável.
Assim, na nobox, cada formação pode focar mais especificamente algum destes pilares, dependendo das necessidades das equipas, mas tentam que estas sejam trabalhadas em conjunto, como acontece no dia-a-dia dos profissionais de saúde. Sem esquecer que essas necessidades têm vindo a mudar no últimos anos. «Numa fase inicial, o foco estava principalmente no desenvolvimento de competências comportamentais, tais como trabalho em equipa, gestão de conflitos, comunicação eficiente, entre outros», mas, ao longo do tempo, os serviços foram sendo adaptados a «formações com componentes clínicas e de inovação organizacional ». Aliás, neste momento, essa é uma das áreas principais da actuação da nobox, «nomeadamente através de projectos de consultoria com equipas para implementar unidades multidisciplinares, novos percursos clínicos integrados, entre outros», partilha.
Para Sofia Carmezim Pereira, a «actualização contínua dos profissionais de saúde, no que diz respeito aos conhecimentos e competências clínicas, é talvez o aspecto cujo impacto nos cuidados prestados aos doentes seja mais facilmente reconhecido». Mas não por isso mais importante, assegura. «Da nossa experiência de consultoria, reconhecemos que são as competências comportamentais e organizacionais que permitem o desenvolvimento de melhorias na jornada dos doentes, com diminuição de tempos de espera para diagnóstico de doenças, intervenções terapêuticas precoces e transmissão de informação objectiva e adequada aos utentes sobre a sua doença e saúde.» São também estas competências comportamentais desenvolvidas em equipa que permitem a construção de uma cultura-base reconhecida por todos os profissionais.
Entre os factores-chave que levam as equipas a atingirem a melhoria da qualidade dos cuidados prestados, a profissional de Saúde identifica «a comunicação efectiva entre pares, a gestão de conflitos como uma etapa necessária para a melhoria dos processos, o feedback como uma responsabilidade de todos os elementos da equipa, e a liderança como bússola que orienta e motiva a equipa para os seus objectivos».
E deixa um alerta: «Uma equipa que não reconhece a importância destas competências comportamentais irá cometer os mesmos erros em loop, sem partilha, sem responsabilização e sem melhoria.»
Leia o artigo na íntegra na edição de Agosto (nº. 176) da Human Resources.
Disponível nas bancas e online, na versão em papel e na versão digital.














